Vertigem Selvagem
7 A Primeira reunião
Passado o fim de semana, voltamos à cafeteria. Enquanto eu atravessava a porta, ouvi risos altos.
Era Beatriz, dando risada com o Sr. Jorge.
— Logo cedo?
Ela fez uma careta e disse:
— Bom dia pra você também, senhor engomadinho…
Sr. Jorge riu e disse:
— O mesmo de sempre?
— Não. Pelo visto vou precisar de algo mais forte hoje, Sr. Jorge.
Beatriz estava irradiante naquela manhã… estranhamente energética.
— Como foi seu fim de semana, Beatriz?
— Dormi horrores.
O semblante dela estava completamente revigorado; seu sorriso contagiava o ambiente.
— Percebe-se pelas olheiras.
Ela fez novamente uma careta e disse:
— Alguém está de muito bom humor hoje, Sr. Jorge. Já está fazendo piadinhas.
— Coisa rara de se ver, Beatriz. Quem conhece sabe que ele não tem esse perfil.
Realmente eu não era uma pessoa de fazer muitas piadas. Acabei me envolvendo na situação.
Beatriz sorriu.
— Fiquei sabendo que o senhor trabalha com organização de eventos.
— Sim, de fato. Sou responsável pelo aluguel de espaços e organização.
Sr. Jorge disse:
— O melhor da cidade, por sinal.
— Modéstia à parte, tenho que concordar.
— Convencido o senhor — disse Beatriz, sorrindo.
— O que achou da apresentação?
Queria dizer que foi algo que me deixou sem dormir, tamanho o impacto.
— Foi interessante.
— Tenho uma apresentação para fazer no próximo mês, mas não temos local definido. Vai ser em outro estado, por isso perguntei sobre o seu trabalho. Talvez o senhor pudesse ajudar ou indicar alguém.
— Entendi…
— Bom, podemos ver. Agende uma reunião com a minha secretária.
Passei o telefone da minha secretária para que pudessem agendar. Geralmente não marcamos nada assim, em tão pouco tempo… e, sinceramente, não sei por que estou fazendo isso.
— Obrigado, senhor — agradeceu Beatriz.
Ao chegar ao escritório, minha secretária já havia recebido uma ligação de Beatriz. Pensei: nossa, mas já? Ela parece estar com pressa.
— Senhor, uma tal de Beatriz disse que gostaria de agendar uma reunião…
— Sim, é uma conhecida.
— A agenda do senhor está cheia nesta semana.
— Veja se ela pode comparecer aqui ainda hoje, após o expediente. Parece ser urgente.
Reunião marcada para o mesmo dia, por volta das 17h.
Beatriz ainda era uma completa desconhecida para mim. Apesar de alguns cafés e algumas piadas, eu só sabia que ela era gerente de uma loja e dançava balé. Ainda assim, fiquei curioso para saber mais sobre aquela mulher.
— Senhor, Beatriz chegou e está aguardando.
— Ok, pode levá-la até a sala de reuniões. Daqui a alguns minutos eu já vou.
Estava ansioso para essa reunião. Era como se eu estivesse fechando um grande negócio.
Fui para a sala. Ao abrir a porta, lá estava Beatriz, com os cabelos amarrados, um brinco sutil e um batom mais neutro. Trajava um casaco branco.
— Boa tarde, senhor. Este é Miguel, meu sócio.
Aquele momento mudou completamente meu humor. Quem era esse cara que estava com Beatriz? Sócio?
Não deixei minha inquietação transparecer.
— Boa tarde. Sejam bem-vindos.
Cumprimentei Miguel. Não costumo reparar muito nas pessoas, mas havia algo nele que chamava atenção: a pele levemente bronzeada, os cabelos castanho-escuros, ondulados na medida certa, e a barba rala, porém impecavelmente alinhada. Vestia um elegante sobretudo creme que reforçava sua postura firme. Era um homem de presença.
— Beatriz me contou que estão à procura de um local para uma apresentação.
— Sim. Estávamos pensando em algo mais ao sul do país, devido a esta época do ano. Vai combinar com a nossa apresentação.
— Nossa apresentação? — perguntei.
Beatriz sorriu e disse:
— Sim, todo ano fazemos uma apresentação em conjunto. Miguel vem da Espanha justamente para essa apresentação.
“Por mim, ele podia ficar por lá curtindo uma tourada”, pensei comigo.
Miguel sorriu:
— Por mim eu ficaria mais tempo, mas Beatriz é teimosa… ela insiste em negar algumas coisas.
“Negar algumas coisas?”
“Ficar mais tempo?”
Essa reunião começou a me incomodar. Mantive a calma.
— Aceitam um café ou uma água?
— Aceito uma água — disse Beatriz.
— Eu, um café — disse Miguel.
Liguei para minha secretária.
— Lisa, boa tarde. Pode nos trazer uma água e dois cafés, por gentileza?
Enquanto eu fazia o pedido, Miguel disse:
— Beatriz bebe água fria, mas não gelada.
Como assim esse cara sabe como ela bebe água? Água é água. afrouxei um pouco meu relogio.
Beatriz respondeu:
— Para, Miguel. Pode ser água gelada mesmo.
Tive a impressão de que ela se sentiu levemente incomodada com a situação. Seu semblante mudou um pouco.
Então finalizei com Lisa:
— Lisa, por favor, traga dois cafés, uma água gelada e uma água em temperatura ambiente.
Enquanto aguardávamos, continuamos a conversa.
— Para quando seria este evento? — questionei.
— Para o dia 20 de junho — respondeu Beatriz.
Faltava pouco mais de um mês.
— Sabe que, para eventos assim, é sempre bom ter uns dois meses de antecedência. Muitas coisas podem influenciar… mas vou mostrar alguns lugares onde já organizei eventos.
Mostrei os melhores locais possíveis. Miguel gostou de um deles e disse:
— Olha, Beatriz, este lugar parece bem interessante. Lembra aquele local que visitamos entre as apresentações na Espanha.
— É verdade… lembra mesmo.
Então quer dizer que eles já estiveram juntos na Espanha. O que tem no passado deles?
— Bom, gostamos desse lugar. Podemos fazer uma visita? — perguntou Beatriz.
— Sim, podemos ir neste fim de semana. Você trabalha no shopping?
— Podemos sim. O trabalho no shopping não vai ser problema.
— Eu não poderei comparecer. Tenho viagem agendada para a Espanha — disse Miguel.
Graças a Deus — pensei comigo. Pelo menos não terei que aturar esse cara nesta viagem.
Alinhei os detalhes com Beatriz e combinamos de nos encontrar no aeroporto às 6h de sábado. Passei as informações para Lisa.
— Lisa, por favor, reserve duas passagens para Joinville e também faça reservas para o hotel. Dois quartos.
— Pode usar o cartão corporativo.
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