Vermillus

8 Capítulo 8 - Vermelho como o rosto de Brody...


Notas iniciais
Olá, como vocês estão? Enfim, espero que gostem do capítulo e desculpem-me se houver algum erro. Boa leitura. =D

Quinn tentava se concentrar nos seus dedos, que passeavam pelas teclas do piano habilidosamente. Essa era uma das únicas boas recordações que ainda mantinha do seu passado. Gostava de tocar piano. Gostava do som melódico que ecoava, sem precisar necessariamente de uma voz acompanhando-o.

E compenetrada naquilo, tentava, sobretudo, se abstrair da voz alegre de Rachel, que estava sentada sobre o instrumento com um sanduíche no colo enquanto conversava com Frannie. Quinn tentou também não se zangar, porque a irmã conseguia conversar normalmente com qualquer pessoa, sempre arrancando risadas de quem trocasse palavras com ela. Tão diferente do seu eu do passado, que irradiava imponência e tinha todos aos seus pés, não precisando se esforçar para ter uma conversa com alguém. No entanto, agora sobrara apenas o trauma incurável de uma ferida que vertia sangue ininterruptamente e seu aspecto introvertido e esmorecido.

— Oh, meu Deus! Vocês são de Lima, Ohio?! — Rachel despertou Quinn do seu torpor, fazendo-a se assustar e apertar o Ré menor do piano. — Eu também sou.

Frannie se calou rapidamente, fitando Quinn de soslaio diante da surpresa repentina. Rachel também era de Lima. Ela sabia algo sobre o seu passado? Sobre os Fabray? Quando Quinn retribuiu o seu olhar, Frannie soube que ela também estava se perguntando a mesma coisa. E temendo-a igualmente.

— Você... você é de Lima? — Quinn finalmente se pronunciou depois de alguns minutos em silêncio.

— Sim, eu nasci em Lima, mas tive de vir para Nova York quando ainda era muito nova, graças ao trabalho do meu pai Leroy.

— E qual é o trabalho dele? — Frannie indagou, se permitindo respirar em alívio por Rachel não ter conhecimento da família Fabray.

— Ele é Chefe do Departamento de Polícia de Nova York. — Rachel respondeu orgulhosa, franzindo o cenho quando novamente Quinn afundou o dedo na tecla do piano. — Você está bem, Quinn? — Perguntou, gentil e preocupada.

— Estou. — Quinn foi lacônica, fitando Frannie com olhos aflitos. O pai de Rachel, Leroy, era o Chefe do Departamento de polícia de Nova York e provavelmente já estaria ciente da morte de Paul. Não existia pistas para incriminar Quinn, mas saber que ele era o pai da judia a deixava temerosa, porque não queria contato com policiais. Diante da recente informação, as chances de uma amizade com Rachel tinham sido liquidadas.

— Ela só está nauseada. Acordou um pouco indisposta hoje. — Frannie tentou quebrar o silêncio incômodo, embora a preocupação de Rachel ainda estivesse refletida nos seus olhos escuros. Não era a primeira vez que via Quinn indisposta, pensou em retrucar. Ela aparentava estar sempre melancólica.

Contudo, ao abrir a boca para responder, Cassandra entrou no ambiente com os demais alunos atrás dela.

— O intervalo acabou! Vamos retomar! — Ela retirou o moletom, permanecendo com o top escuro.

Frannie lambeu os lábios para a visão do abdômen definido à mostra.

— É errado estar apaixonada por aquela barriga? — Ela inquiriu, recebendo um revirar de olhos da irmã.

— Você está... por ela? Cassandra July é uma megera. — Rachel sussurrou a última parte, fazendo uma careta.

— Ela pode ser uma megera o quanto quiser, contanto que eu possa explorar aquele corpo. — Frannie retorquiu e sorriu para a instrutora, que apenas a ignorou enquanto caminhava até os instrumentos musicais.

— E então? Já sabem qual deles está desafinado? — Cassandra cruzou os braços.

— Há dois desafinados. Os outros dois estão em perfeito estado. Eu empurrei os que precisam ser afinados para a lateral da sala. — Quinn respondeu.

— Há três violinos desafinados. Eu os deixei sobre outro piano. Quando a aula terminar, nós vamos ficar e afinar todos. — Frannie se levantou e se aproximou de Cassandra. — E talvez você queira ficar aqui conosco. — Sugeriu.

Cassandra rolou os olhos ainda de braços cruzados, se permitindo analisar Frannie de forma analítica pela primeira vez. Era linda. Extremamente linda. Sua mandíbula era marcada como a de Quinn, mas diferente dela, o seu sorriso era sempre largo e um tanto pueril, fazendo os seus olhos encolherem um pouco. Olhos esses que eram mais azuis do que um céu desprovido de nuvens. Entretanto, ao contrário do que a transparência deles indicava, havia um mistério nas íris claras, capaz de instigar Cassandra. A forma com a qual se movimentava indicava uma mulher que talvez pudesse ter nascido em uma família abastada, mas parecia ser mais do que isso. Isso intrigava a instrutora.

No entanto, ela ainda a deixava irritadiça com a sua falta de sutileza.

— Ou eu posso encontrar algo melhor para fazer. — Cassandra respondeu, movendo os lábios vagarosamente de maneira proposital para causar em Frannie o efeito atual de encará-los se mexendo, aumentando o seu ego interior. — Ohio, vá para o seu lugar. — Demandou, dando meia-volta e caminhando até o centro da sala.

Rachel bufou.

— Viu? Uma megera. — Ela sussurrou de novo para apenas Quinn ouvir, arrancando dela uma risada rouca que fez o seu coração palpitar e um sorriso involuntário crescer nos seus lábios. — Você pode me ajudar, Quinn? — Pediu.

— Ajudar? Ajudar em quê, exatamente? — Quinn ficou confusa.

— Me ajudar a descer daqui.

— Mas não é tão alto.

— Está com medo de mim? Não é bem grandinha para isso? — Rachel galhofou.

A risada de Frannie, misturada com a provocação de Rachel, fez o rosto de Quinn corar como um tomate fresco, e ela se levantou, ajudando-a com a tarefa de descer do piano.

Rachel sorriu vitoriosa, fitando as suas colegas discretamente, percebendo que elas estavam atentas na cena que se desenrolava, e como uma forma de assegurar sua mentira, ela rodeou o pescoço de Quinn com os braços, colando os corpos em um movimento brusco.

O ato foi tão inesperado que Quinn não soube como reagir, então apenas segurou firmemente a cintura de Rachel para evitar que ela caísse. Estavam próximas. Tão próximas que a judia pôde sentir o perfume natural e suave que emanava da pele pálida, resistindo ao desejo de colar o seu nariz na bochecha de Quinn e aspirar o aroma calmamente.

Estava irremediavelmente atraída por ela. Isso era inegável agora.

Quinn forçou uma tosse, tentando dissipar o desconforto de ter um corpo grudado ao seu. Quase podia sentir o nariz de Rachel raspando contra o seu rosto, e olhando-a, constatou que ela era uma mulher linda. Sua pele bronzeada contrastava com todas as outras pessoas daquele local, e os cabelos longos davam-na um ar adulto.

Ela nunca achou que poderia gostar de garotas. No ensino médio, pensar naquela possibilidade a assustava, porque todos pareciam odiar homossexuais naquele ambiente. No entanto, já achou ter sentido alguma espécie de atração por alguma colega de sala. Só não teve coragem o suficiente para prosseguir, principalmente quanto soube o que os seus pais achavam daquilo. Eles repetiam incessantemente como era um pecado. Quinn se arrependia amargamente de não ter ido contra eles e explorado mais os próprios sentimentos. Ao invés disso, se deixou levar pelas palavras de Noah. Talvez nunca tivesse sofrido o que sofreu, mas não há como prever o futuro. Infelizmente.

No entanto, naquele instante, por uma fração de segundos, Quinn se sentiu outra vez com dezesseis anos, fitando uma garota por mais tempo do que o necessário.

Ela a soltou delicadamente. Rachel era bela e gentil, e não se importaria em ser amiga dela até avançarem naquela relação se não fosse alguém machucada. Imensuravelmente machucada, então não a traria para a sua vida. Não queria contar sobre o seu passado, porque sabia que no momento em que o fizesse, o brilho encantado que ela carregava nas orbes desapareceria. Rachel ainda esperava algo de bom do mundo. Quinn não. Eram diferentes. Como luz e escuridão. Quinn não a apagaria.

Ela sorriu forçadamente e tentou se afastar, mas foi segurada pela mão delicada e quente, que a puxou para plantar um beijo na sua bochecha.

— Obrigada. — Rachel sorriu, andando até estar com os outros alunos e deixando Quinn estática pelo afeto repentino.

Sua bochecha formigava, como se houvesse levado um choque.

Frannie se aproximou. Seus lábios curvados em um sorriso divertido.

— Ela está apaixonada por você.

— O quê? Claro que não. — Quinn afundou as mãos nos bolsos da jaqueta jeans, indo em direção à porta para ir ao banheiro.

A afirmação de Frannie a deixou inerte por um momento, andando lado a lado com a sensação de ser observada por um par de olhos castanhos à medida em que caminhava para a saída. Ela nem mesmo percebeu quando a porta se abriu, fazendo-a se chocar com outra pessoa.

Ela preparou o sorriso forçado e o discurso previsível para se desculpar quando isso acontecia, porém, eles não vieram, porque ao fitar o rosto moreno com cabelos escuros e bem cortados e um sorriso contido, sua expressão congelou, seus movimentos foram interrompidos e ela jurou ter sentido as próprias veias se transformarem em gelo, espalhando a sensação do frio incômodo por todo o seu interior.

Era ele.

O mesmo queixo, o mesmo nariz e os mesmos olhos. Estava mais atlético, vestindo roupas melhores e com os traços mais maduros, mas ainda era ele. A parte final da sua vingança de anos atrás. A parte do quebra-cabeça que havia perdido quando ele foi estudar fora de Ohio.

Brody Weston também a reconheceu, recolhendo o sorriso e deixando que seu rosto perdesse a matiz, ficando mais pálido enquanto ainda a segurava pelo encontro abrupto.

Quinn mal percebeu que suas mãos ainda estavam apoiadas no peito dele quando Frannie a puxou de supetão, encarando-o com tanto ódio que temeu matá-lo ali, na frente de todas as testemunhas que veriam o seu ato de justiça.

— Eu... — A frase morreu na garganta de Brody, porque não sabia o que dizer. Quando soube da morte de Noah, ele foi ao enterro, ouvindo todos os rumores de como o corpo dele estava desfigurado. Depois vieram as mortes de Jake, Biff e Bryan. Não era mais uma coincidência. Todos estavam morrendo. Um por um. De formas assustadoras e, aparentemente, dolorosas. Brody sabia que aquilo poderia ser um padrão. O padrão das mortes dos responsáveis por um estupro coletivo, então sabia que a sua vez chegaria. Ele não hesitou em ir para Nova York estudar artes dramáticas. Era o que gostava. Esperava nunca mais ouvir falar de um Fabray, mas estava vendo duas delas.

— Você... — Quinn murmurou. A voz baixa, calculada e rouca. Era um conjunto de dor, ódio e tristeza. Queria fazê-lo pagar. Queria pegar um daqueles instrumentos musicais e desferi-lo contra Brody até o sangue jorrar da cabeça dele e depois esperá-lo recobrar a consciência para continuar batendo e batendo, deixando-o sentir os próprios ossos quebrando e cada gota do líquido escarlate manchar aquele piso de madeira perfeitamente encerado.

— O que está acontecendo aqui? — A voz de Cassandra pareceu soar distante, enquanto as íris verdes ainda se mantinham fixas nas de Brody, que também a fitava, com pesar, medo e um nervosismo latente.

— Nada... nada demais. — Ele finalmente desviou a sua atenção para a instrutora de dança, tentando sorrir.

— Vocês se conhecem? — Cassandra estava curiosa.

— Somos da mesma cidade, mas não nos víamos há muito tempo. — Foi Frannie quem respondeu, segurando firmemente a mão de Quinn em um gesto discreto de proteção. — E vocês são...

— Ele é meu ex-aluno e amigo. — Cassandra foi sucinta, sorrindo para Brody. Um sorriso aberto e sincero.

Frannie não evitou se sentir frustrada, surpresa e encolerizada com isso. Parecia um sorriso grande demais, com intenções ocultas que fizeram o asco por Brody crescer mais do que achou ser possível.

— Certo. Nós vamos sair agora. — Ela tentou não soar ríspida, mas estava preocupada com Quinn, que ainda não proferia uma palavra sequer, então deixou o ambiente, caminhando com a irmã e sentindo o olhar de Brody nas suas costas.

Não demorou para que a letargia de Quinn chegasse ao fim, exatamente no momento em que a náusea a acertou em cheio, fazendo-a correr até o banheiro feminino daquele andar e despejar todo o café da manhã no vaso sanitário. Sentia a mão de Frannie nos seus cabelos, enquanto a outra afagava as suas costas, mas não sentia o afeto dela, porque estava sangrando internamente de novo depois de ver o homem que poderia tê-la ajudado, mas que preferiu dar as costas e esperar na sala de estar como se estivesse esperando alguém terminar de se vestir para sair. Brody se sentou no sofá, ligou a televisão e assistiu o programa transmitido enquanto seu ato era o corolário de uma garota sendo estuprada no cômodo ao lado. E a omissão, a normalidade como tratou o crime ainda estava impregnado na cabeça de Quinn como uma marca de nascença.

Ela sonhou com o dia em que pudesse fazê-lo sentir a sua dor, e agora poderia concretizar a sua vontade.

Depois de apertar o botão da descarga, ela se sentou no chão frio, sentindo Frannie limpar a sua boca e molhar o seu rosto com a água gelada.

— Quer ir para casa? Não precisamos voltar aqui nunca mais. — Ela perguntou aflita.

— Eu quero ir para casa, mas nós vamos voltar. Precisamos voltar, porque precisaremos agir como se nada tivesse acontecido depois de matá-lo. — Quinn respondeu, se levantando com um pouco de dificuldade. Suas pernas estavam fracas. Ao se olhar no espelho, ela suspirou. Estava abaixo do peso ideal, e suas olheiras pareciam mais fundas do que o habitual. — Estou horrível.

— Você sempre vai ser linda. — Frannie a beijou na têmpora. — Mas precisa se alimentar melhor, e eu vou garantir isso. Vou buscar a minha bolsa e já volto, tudo bem?

Quinn se limitou em assentir, apoiando as mãos na pia e respirando fundo.

Na sala de dança, Cassandra performava com diligência com Brody aferroado nela. Ambos exibiam passos precisos, sensuais e habilidosos. Quase flutuavam no piso liso, e Frannie quase parou para assisti-los, porém, o desejo de matá-lo ainda era forte e recente, temendo realizar sua vontade em público. Não podia, por isso se adiantou em ir pegar a sua bolsa deixada sobre o piano. Estava quase deixando o local outra vez quando Cassandra a chamou após ordenar que a música parasse. Ela tinha um sorriso sarcástico nos lábios.

— Está indo embora?

— Estou. — Frannie se virou para olhá-la, notando o quão agitado Brody ficou novamente. Estava temeroso. E com razão, ela pensou.

— Mas vocês não cumpriram as horas necessárias e precisam afinar os instrumentos.

— Vamos fazer isso amanhã e, se for preciso, poderemos ficar até mais tarde.

— Você sabe que isso vai contra o regulamento, não sabe? Eu poderia falar sobre isso com a reitora Tibideaux. — Cassandra cruzou os braços.

Frannie revirou os olhos.

— Você é uma mulher linda. Eu já devo ter pensado nisso várias vezes desde que a conheci, mas também é tão amarga. — Frannie surpreendeu Cassandra com o seu tom duro. — Você viu o quão mal a minha irmã ficou e nem se deu ao trabalho de perguntar se ela está bem, então não vai me deixar surpresa se falar com a reitora Tibideaux. E isso nem importa para mim. Não quando eu tenho outras coisas para resolver.

Por um momento, seu olhar cruzou com o de Brody, e ele girou nos calcanhares, pegando uma das partituras da sua pasta para folheá-la como se não estivesse se sentindo tão pequeno e tão assustado.

Por fim, Frannie se moveu para ir até a porta, parando apenas quando Cassandra falou.

— Você vai se arrepender por ter falado assim comigo. E a reitora vai saber de tudo.

— Então nesse caso, eu acrescento um pedido sincero para você ir para o inferno. — Frannie se retirou.

Seus passos eram firmes e decididos. Queria chegar logo ao banheiro, mas uma mão a parou no meio do caminho. Era Rachel. Ela tinha um semblante preocupado.

— A Quinn está bem? Ela estava tão pálida e tão estática minutos mais cedo.

— Ela está. Foi apenas uma indisposição.

— Ela parece ter sempre indisposições. Você já a levou ao médico? Pode ser alguma doença. Ela é tão nova. Não pode ter a saúde prejudicada. Se quiser, eu posso...

— Ei, calma! — Frannie riu levemente, achando adorável a forma com a qual Rachel falava. — Eu vou cuidar da Quinn, certo? Mas se quiser o número dela...

— Eu quero! — Rachel se apressou em responder, se recompondo segundos depois. — Eu adoraria.

Frannie sorriu, passando o contato da irmã para a judia, que agradeceu com um sorriso satisfeito e se despediu, retornando até a sala de aula.

Quinn ainda estava na mesma posição quando entrou no banheiro, e o caminho até o apartamento onde moravam foi lento e silencioso.

Ao entrarem, Quinn se sentou no sofá, respirando profundamente.

— Eu sinto como se todo o meu passado viesse à tona.

— Ele não vai vir, porque Brody não vai falar sobre isso. Ele não ousaria estragar a sua vida.

— Mas eu vou fazer isso por ele. Gradativamente, ele vai sentir o medo que eu senti e vai sentir a vida dele se esvair. — Quinn se levantou, andando de um lado para o outro.

— Você acha que há algo entre ele e Cassandra?

— Eu acho...

— Eles namoraram. — Uma voz conhecida ecoou pela sala, fazendo com que as duas mulheres sobressaltassem.

— Marley? — Quinn observou a garota sair da cozinha com um laptop em mãos. — O que diabos está fazendo aqui? Como entrou?

— Eu... tentei ligar, mas o seu celular está desligado, então eu cheguei aqui. Não foi difícil abrir a porta. — Marley sorriu constrangida. — Me desculpem pela invasão.

— E como você sabe que eles namoraram? — Frannie quis saber, ignorando o fato de não conhecer aquela garota e a sua incursão no apartamento.

— Quando não consegui falar com a Quinn, eu liguei para a Santana, e ela mencionou que você estava tentando um emprego em NYADA. Cassandra July é uma das professoras mais conhecidas. Há uma notícia sobre ela e um surto que ocasionou no fim da sua carreira na Broadway. Uma pesquisa mais intensa e eu acabei descobrindo uma das suas redes sociais. Ela é muito reservada, mas há registros do seu namoro com um tal de Brody Weston.

— Então você é como uma stalker? — Quinn arqueou a sobrancelha direita.

— Eu... gosto de procurar sobre a vida das pessoas.. — Marley mordeu o interior da sua bochecha. — Mas se isso ajudar vocês, eu posso ser uma stalker.

— Nos ajudar?

— Sim, ajudá-las a se vingarem de todos que merecerem.

Frannie abriu a boca, sem saber o que dizer, trocando um olhar rápido com Quinn para saber que ela estava igualmente pasma.

— Marley, você só tem dezessete anos. — Quinn disse. — Não pode e nem vai entrar nessa bola de neve. Há coisas realmente sigilosas aqui.

— Eu sei disso, Quinn. Eu pensei nisso desde que você me ajudou e se livrou daquele porco do Paul. Eu voltei para a casa da minha tia naquele mesmo dia, mas não me sinto feliz ali, então eu pedi a emancipação e a recebi dias atrás. Vou ser responsável por mim mesma até completar dezoito anos, algo que não está longe, então eu quero... quero saber se posso ficar aqui, com vocês. Eu ajudo no que for preciso.

— Marley...

— Eu não tenho pais e não tenho irmãos. — Ela continuou. — Eu tentei me aproximar da minha tia, mas ela ainda defende o Paul mesmo depois de ter visto as fotos no celular dele. Eu fui submetida a exames psicológicos, e ela não me acompanhou em nenhum deles. Eu estou sozinha agora. — Fechou os olhos, tentando evitar que lágrimas transbordassem deles.

Quinn a fitou por longos minutos. Embora fosse apenas dois anos mais velha do que Marley, ela não possuía um caminho para trilhar. Contudo, Marley ainda poderia superar tudo e ser o que Quinn não era. Ela não queria que a sua escuridão interna caísse sobre a garota eventualmente, mas também não queria negar ajuda, porque talvez Marley pudesse encontrar em algo pior se a solidão dela se tornasse grande demais.

— Frannie, essa é Marley Rose. Marley, essa é Francine Fabray, minha irmã. Ela dorme no meu quarto, e o sofá vai ser seu.

Marley abriu um sorriso tão grande que Quinn sentiu como se aquele apartamento pequeno em um prédio com vizinhos duvidosos pudesse ser o paraíso para a garota, e o abraço apertado que recebeu foi correspondido, fazendo-a sorrir minimamente.

— Santana não vai gostar de saber que você tomou essa decisão sem consultá-la. — Frannie comentou após Quinn se afastar de Marley.

— Ela vai xingar um pouco e falar mais um pouco, mas no final vai concordar. Ela tem empatia, e isso basta. Não podemos negar ajuda, Frann.

Frannie aquiesceu.

— Então... você pode nos falar o que descobriu agora?

Marley assentiu, buscando o seu laptop com adesivos vermelhos, exatamente como o rosto de Brody ficou ao se reencontrar com Quinn e Frannie, e se sentou no sofá.

...

Quando Rachel saiu de NYADA, ela não esperava encontrar a sua amiga de infância apoiada no próprio carro com um sorriso grande e carinhoso.

O abraço trocado foi caloroso e repleto de saudade. Como sentiu falta dela e da sua amabilidade. Os longos cabelos loiros estavam lisos e adornados por uma tiara azul, fazendo par com o cardigã sobre o vestido que ia até os joelhos. Era tão bonita e tão gentil. Os olhos azuis refletiam todos os seus sentimentos, e Rachel adorava encará-los. Brittany Pierce era a sua melhor amiga desde que iniciou a sua vida na escola. Estudaram juntas em Ohio até terem de se mudar para lugares diferentes. Rachel para Nova York, e Brittany para Vermont. A conexão conquistada entre elas, ao contrário do que se esperava, não se perdeu, e cresceram trocando telefonemas e chamadas de vídeo, com a promessa de que morariam juntas quando concluíssem o ensino médio.

Rachel conseguiu entrar na faculdade primeiro, sempre esperando por Brittany, até mesmo quando iniciou a sua morada solo com Kurt. O quarto dela estava pronto no seu apartamento.

— Oh, meu Deus! O que você está fazendo aqui? Achei que viria apenas no mês que vem.

— Eu decidi vir e trazer algumas coisas. O resto virá no próximo mês. — Brittany ainda sorria. — Vamos? Nós temos muito o que conversar.

— Claro!

Elas entraram no SUV branco com Brittany no banco do motorista, iniciando o trajeto até o trabalho de Rachel enquanto dialogavam efusivamente sobre assuntos, que iam desde o terceiro ano da loira na escola até NYADA. A saudade era evidenciada em cada palavra trocada. Rachel mal conseguia parar de sorrir. Brittany a conhecia melhor do que qualquer pessoa e conseguia entendê-la com maestria.

Quando o carro parou, ambas saltaram para fora e adentraram o Spotlight Diner.

— Berry! — Rachel bufou ao ouvir Santana chamando-a. — Você está atrasad... Brittany?

Santana estancou no meio do restaurante, segurando a bandeja vazia. Ela mantinha a boca levemente aberta. Conversava com Brittany diariamente, mas não se recordava de ter sido comunicada de que ela iria para Nova York.

— Sant? — Brittany sorriu como se tivesse ganhado um presente, e ignorou a perplexidade de Santana para correr e abraçá-la. Rachel parecia ainda mais surpresa ao ver toda a interação delas.

Depois de se livrar do torpor, Santana correspondeu ao afeto, apertando Brittany nos seus braços. Queria conhecê-la pessoalmente e saber se era tão linda e tão doce quanto aparentava ser. Agora estava tendo a confirmação que desejava. Só não esperava conhecê-la trajando o uniforme que tanto odiava.

— Eu não... não sabia que viria hoje. — Ela disse após quebrarem o abraço.

— Eu vim porque estou praticamente formada e queria levar alguns pertences para o apartamento da Rach. Eu ia contar para você e pedir para nos encontrarmos, mas aqui estamos nós.

Santana ainda sorria, mas seu sorriso hesitou quando processou tudo o que Brittany dissera.

— Você e a Berry são amigas?

— Somos melhores amigas. — Rachel respondeu, se aproximando. — E o que vocês são?

— Nós... não temos um rótulo... ainda. — Brittany mordeu os lábios, ficando tímida de repente. — Mas eu espero que possamos ter.

Rachel fingiu um sorriso, se sentindo esmorecer com a possibilidade de ter de ver Santana fora do ambiente de trabalho por ela ser namorada da sua melhor amiga, mas seu rosto se iluminou quando elucubrou sobre Quinn. Se Santana era a pessoa que Brittany sempre falava, então ela não namorava Quinn.

Quinn estava solteira. Isso a deixou feliz. Ridiculamente feliz.

— Então eu acho que podemos marcar aquele jantar para essa semana? — Brittany sugeriu. — Eu sei que a Rach tem um melhor amigo, que tem um namorado, e a Sant tem uma melhor amiga, que tem uma irmã. Todos precisamos nos conhecer melhor. Vou ficar aqui por alguns dias até voltar para Vermont. Depois, me mudarei de uma vez por todas.

Rachel concordou rapidamente. Pensar em um jantar onde provavelmente Quinn estaria a alegrou. Ela nem mesmo se chateou por pensar que aturaria as provocações de Santana. Se Quinn estivesse presente, já era o suficiente.

E Rachel iria garantir que ela estivesse.

Notas finais
Brody... Espero que tenham gostado. Me deem o feedback. Favoritem também. É sempre importante. Boa quarta-feira e uma ótima semana para todos vocês. =D twitter.com/yasagron
Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.