Vermillus
6 Capítulo 6 - Vermelho como os olhos da caveira...
Notas iniciais
Dois dias tinham se passado desde a ligação de Frannie, e o relógio marcava nove horas da manhã quando Quinn pisou fundo no freio enquanto simultaneamente puxava o freio de mão, fazendo o velho Datsun Go com a tintura cinza descascada parar na frente da Penn Station bruscamente, arremessando o seu corpo contra o volante, que foi segurado pelo cinto de segurança.
Ela suspirou, saltando para fora do veículo enquanto ouvia o rangido familiar ecoar quando a porta foi aberta e fechada, e se reclinou na lataria. Odiava aquele carro. Estava caindo aos pedaços, e já havia perdido a conta de quantas vezes ele se recusou a ligar. Precisavam de outro, mas não possuíam dinheiro suficiente. Gastaram todas as economias comprando-o em um leilão de carros usados por cinco mil dólares quando ninguém mais se interessou por ele.
Contudo, aquilo não importava agora. Não quando Frannie estava prestes a sair depois de um ano e meio da prisão. Quinn observou ansiosamente a irmã caminhar no instante em que saiu da estação.
Ela vestia uma calça jeans justa e desbotada de lavagem clara com alguns rasgos e uma regata branca sob uma jaqueta escura. Eram os mesmos trajes que estava usando quando foi presa. A única diferença notável eram os cabelos, que estavam maiores e exibiam algumas mechas vermelhas.
Quando já estavam a poucos passos de distância, Quinn correu até ela, pulando para abraçá-la e sendo retribuída com fervor. Estava feliz de tê-la livre, e mais do que isso, tê-la consigo para que pudesse sentir que sua família estava completa outra vez.
— Eu senti tanto sua falta. Senti falta de abraçar você. É incrível como aqueles idiotas não permitem um abraço mais longo nas visitas. — Frannie disse após se separarem e segurou o rosto de Quinn, analisando cada detalhe dele. — Você parece mais feliz. O que aconteceu? — Arqueou a sobrancelha em um gesto conhecido.
— Eu estou feliz por você estar aqui. É só isso. — Quinn mentiu, dando de ombros enquanto sorria. Um sorriso grande e animado. — Podemos ir agora?
Frannie assentiu, ainda desconfiada, porque sabia que a felicidade de Quinn não era apenas por vê-la, mas seguiu até o carro com ela.
— Vocês ainda usam essa lata velha? Eu achei que ele não viveria por tanto tempo. — Frannie abriu e fechou a porta algumas vezes, alegre por ouvir aquele ruído desagradável.
— Nós não temos dinheiro para comprar outro. Você sabe disso. — Quinn entrou no veículo, sendo espelhada pela irmã. — Quando conseguiu isso? Eu gostei da cor. — Apontou para os cabelos de Frannie após pôr o cinto de segurança. O tom escarlate chamava atenção.
— Digamos que eu fiz amizades na prisão, então tive de fazer isso para me socializar, e isso também. — Frannie subiu a manga da jaqueta, mostrando o antebraço direito coberto por tatuagens.
Eram os mesmos desenhos em preto e branco que Frannie ostentava há anos, mas Quinn fitou a única específica que ela apontava. Era uma caveira com os olhos opacos pintados de vermelho.
— Uma... gangue? Você entrou em uma gangue lá dentro? — Quinn inquiriu surpresa e recebeu uma risada como resposta.
— Se você está no inferno, precisa abraçar o diabo, certo? Eu saí porque fiz bons contatos, caso contrário, ainda passaria mais sete meses por ter feito um crime pequeno. — Frannie apoiou a cabeça no assento.
— Você estava com aquelas pessoas quando eles assaltaram o banco. Teve sorte por ter sido acusada como cúmplice e não ser reincidente, mas quase matou uma colega de cela por causa de um insulto. — Quinn a recordou.
— Ela xingou você. Ela viu o meu caderno pessoal, onde eu anotava tudo, e debochou da sua dor. Aquela desgraçada merecia morrer, e eu ainda tive de queimar o caderno depois. Foi uma pena eles terem me segurado. Ninguém pode tocar no seu nome perto de mim daquela forma. — Os olhos azuis ganharam um brilho de raiva, e Quinn segurou a mão dela delicadamente, como sempre fazia quando Frannie estava encolerizada.
— Você não vai me contar os contatos que fez para sair antes? — Quinn perguntou, mas suspirou diante do silêncio dela. — Frannie...
— Não se preocupe com isso. — Ela foi concisa. — Não é relevante.
— É relevante para mim.
— Você está agindo como a mamãe, e nós não gostamos dela.
— Talvez porque eu precise ser assim às vezes.
— Não vai mais precisar. Eu estou aqui agora e sou a mais velha. Vou cuidar de você. — Frannie a fitou. — Eu senti sua falta. Você não sentiu a minha?
— É claro que eu senti. — Quinn revirou os olhos com um sorriso e se deixou ser puxada para outro abraço.
Era incrível e até assustador como Frannie tinha mudado depois da adolescência. Ela sempre gostava de vestidos rodados e tiaras nos cabelos loiros, que eram tão bem penteados quanto as suas roupas eram alinhadas. Isso durou até os vinte e dois anos, quando viu de perto a sua irmã ser violentada e sofrer com a recusa dos pais em ajudá-la. O modo como tinha alugado o galpão para as mortes e planejado tudo fez com que uma nova personalidade surgisse e parte de si morresse com a de Quinn quando ela sofreu aquele crime brutal. Frannie presenciou o assassinato de todos e conseguiu sumir com os corpos. E havia gostado. Gostou de vê-los sofrendo, chorando e implorando por suas vidas enquanto ria ao lado de Quinn. Depois disso, passou a usar calças rasgadas, coturnos e jaquetas, e a pele foi marcada por tatuagens. Frannie tinha se transformado, e largou a faculdade de direito para ir morar em Nova York. Entretanto, acabou sendo presa por um descuido.
Mas, independentemente de toda a sua frieza, ela ainda poderia ser facilmente atingida se Quinn fosse atingida, e não deixaria que ninguém a machucasse novamente.
— Eu matei um homem. — Quinn disse após alguns minutos.
— O quê? — Frannie indagou, achando não ter ouvido direito.
— Eu matei um homem que iria estuprar a minha... amiga. — Quinn suspirou. — Nos conhecemos em um grupo de apoio. Ela só tem dezessete anos, e o tio prometeu que a estupraria antes de sair para o trabalho. Eu a encontrei na rua completamente perdida e a levei para o meu apartamento, então fui atrás dele e o matei.
Quinn se sentiu mais leve por ter dito tudo isso. Não conseguiu contar para Santana, embora ela soubesse de tudo o que fizera no passado.
— Você... droga, Quinn! Como você o matou? Onde está o corpo? — Frannie estava atônita.
Quinn começou a narrar todo o acontecido detalhadamente, desde a ida à loja de Paul até a maneira como derreteu o corpo dele no ácido fluorídrico, enterrando o container de plástico em um terreno abandonado em Rockland County.
À medida em que toda a história era contada, Frannie ficava ainda mais surpresa. Quinn foi inteligente e meticulosa com todos os detalhes. Sabia que ela tinha ajudado a matar o ex-namorado de Santana, mas não tinham conversado se isso se repetiria no futuro.
— Eu concordo que ele mereceu e que vai arder no inferno por isso. Mas o que você fez foi arriscado. Sabe disso, não sabe?
— Eu não poderia ficar de braços cruzados. Ela estava em um beco sem saída.
— Tudo bem, mas se houver uma próxima vez, quero que me procure. Eu conheço um lugar ideal onde podemos ter os materiais certos sem precisar comprá-los.
— O que...
— Eu conheço alguém, que conhece alguém, e essa pessoa pode nos ajudar caso seja necessário.
Quinn negou com a cabeça.
— Eu não quero você presa pela segunda vez.
— E eu não vou. Tudo é muito confiável, então apenas relaxe. Agora vamos sair daqui. Podemos ir no Spotlight Dinner? Quero comer aquelas panquecas deliciosas. — Frannie pediu.
Quinn assentiu, ainda que estivesse receosa, e ligou o carro, agradecendo por ele ter funcionado. Em poucos minutos, já estava na avenida, indo em direção ao restaurante.
...
— Vamos, Berry! Será que você ainda não conseguiu atingir um ritmo mais rápido aqui? — Santana ralhou, segurando a bandeja em uma das mãos e alguns cardápios na outra, entregando-os em algumas mesas e voltando para a cozinha logo depois.
— Será que ela nunca vai parar de falar assim comigo? — Rachel inquiriu para Kurt, chateada por sempre receber repreensões.
— Ela deve ser assim com todos. Nós precisamos nos acostumar. — Ele respondeu, anotando alguns pedidos no bloco pequeno.
— Ela não é assim com a Quinn. — Rachel retrucou em um tom mais baixo, mas o suficiente para Kurt ouvir e virar a cabeça na direção dela, fitando-a.
— Você ainda não tirou ela da cabeça? Mesmo depois daquele fora?
— Ela poderia estar estressada naquele dia. — Rachel tentou justificar, e Kurt negou com a cabeça.
— Mesmo estando estressada, ela não tinha o direito de tratá-la daquela forma. Foi muita grosseria. — Ele retornou para a cozinha, deixando os pedidos com o cozinheiro.
Rachel suspirou. Ela sabia que Kurt estava certo, e para piorar, não recebera um único arrependimento vindo de Quinn, porque ela não foi mais ao Spotlight Dinner. Sentia falta de admirá-la.
Por fim, Rachel deixou as refeições nas mesas designadas e se retirou educadamente, ao mesmo tempo em que chegavam mais clientes. Após anotar mais pedidos, ela tentou ir para a cozinha, entretanto, Kurt apareceu na sua frente.
— Em falar no diabo... — Ele apontou com a cabeça para a porta, e Rachel girou nos calcanhares, fitando Quinn entrar no estabelecimento ao lado de outra loira com mechas vermelhas no cabelo. Eram extremamente parecidas, principalmente os traços do rosto. — Ela parece uma versão mais velha e mais badass da sua paixão platônica.
— Ela não é minha...
— Puta merda, Fabray! — Santana saiu da cozinha rapidamente. Estava surpresa. Ela praticamente correu até as duas loiras e abraçou a mais velha.
O afeto trocado e os sorrisos abertos deixaram claro o quanto se conheciam, e foram caminhando até uma das mesas enquanto conversavam animadamente, despertando a curiosidade dos dois amigos, que observavam tudo.
— Aquela deve ser a cunhada dela. — Kurt disse, provocando Rachel sobre o fato de Quinn e Santana namorarem.
Ela rolou os olhos com isso, mas os abriu consideravelmente quando Quinn falou algo para as outras duas mulheres e caminhou na sua direção.
Cada passo era um aumento significativo nas batidas do seu coração, que decidiu ricochetear com força dentro do seu tórax.
Quinn afundou as mãos nos bolsos do cardigã ao parar na frente de Rachel.
— Oi, nós podemos conversar? — Ela pediu timidamente, diferente do tom duro usado quando deu ênfase no quanto não gostava de receber os olhares de Rachel.
Kurt queria ficar e ouvir todo o diálogo, mas se retirou em segundos, deixando-as sozinhas e voltando para o trabalho.
— Eu não sei. Não está no horário da minha pausa. — Rachel tentou soar indiferente.
— Vai ser rápido. Eu prometo.
Ela apenas assentiu e a seguiu até saírem do restaurante.
— Eu gostaria de me desculpar pelo outro dia. Fui estúpida, eu sei, e não sou assim normalmente, mas eu estava um pouco mal com algumas coisas e descontei em você. — Quinn disse, intercalando o seu peso nas duas pernas em um sinal claro de nervosismo.
— Ainda que estivesse mal, você não tinha o direito de ser tão ríspida. — Rachel usou o argumento de Kurt.
— Eu sei e sinto muito por isso. Eu não sou grossa dessa forma, então me perdoe, Rachel.
— Como você sabe o meu nome?
— Eu perguntei para Santana. Então estou perdoada?
— Depende.
— Depende? Depende do quê? — Quinn ficou confusa.
— Se você aceitar sair comigo, então sim, está perdoada. — Rachel propôs.
— Sair? Com você? — Quinn indagou um pouco inerte pela sentença inesperada e recebeu o aceno positivo como resposta. — Não. Eu não quero sair com alguém no momento.
— Podemos sair apenas como duas conhecidas, Quinn. — Rachel cruzou os braços.
— Eu não quero, Rachel.
— Então não está perdoada. — Ela deu meia-volta, mas a mão de Quinn no seu braço a fez encará-la novamente.
— Por que você não pode simplesmente aceitar o meu perdão para que possamos ficar bem? — Quinn estava começando a se irritar.
— Porque eu me interessei por você, não vou negar, porém, mais do que isso, eu queria conhecê-la.
— Eu agradeço por isso, Rachel, mas realmente vou negar. O problema não é você. Sou eu.
— Esse discurso é tão clichê, Quinn. Eu achei que você teria uma resposta melhor. — Rachel puxou o braço, embora houvesse gostado do toque. Não era bruto. Era suave, assim como a voz dela. — De qualquer forma, eu não aceito o seu perdão. — Entrou no restaurante, deixando-a estática na calçada.
Quinn demorou cerca de dois minutos para repassar tudo o que acabara de acontecer, e quando o fez fez, Frannie saiu do Spotlight Dinner.
— O que a baixinha bonita queria? Vocês estão tendo algo? — Ela sorriu de forma maliciosa.
— O quê? Claro que não!
— Você fala como se fosse um crime namorar alguém.
— E é. Para mim. Eu não consigo fazer isso.
— Você precisa conseguir, ou então ter sobrevivido naquele dia fatídico não adiantou nada, porque você está morta por dentro. — Frannie contestou.
— Não é tão fácil quanto parece, Frannie. — Quinn trincou a mandíbula contrariada.
— Não é, mas você pode superar isso com alguém. Essa garçonete está interessada em você, não é?
— Como... como você sabe?
— Ela não parava de olhar na nossa direção quando chegamos, e algo me diz que o motivo era você. — Frannie sorriu.
— Será que você pode parar com isso? — Quinn revirou os olhos. — Ela é teimosa e extremamente irritante. Eu fui dura com ela dias atrás e agora vim me desculpar, mas não consegui, porque não aceitei um convite para sair. É ridículo. — Cuspiu as palavras.
— E você está tendo essa reação explosiva por alguém que mal conhece? — Frannie passou o braço ao redor dos ombros da irmã, entrando no restaurante novamente em seguida.
— O que quer dizer com isso?
— Quero dizer que a linha tênue que separa a dor de um trauma da superação é alguém que pode ajudá-la a se libertar da sua prisão emocional, e se até agora você não conseguiu a sua liberdade comigo ou com Santana, é porque precisa de outra pessoa, e essa pessoa pode ser essa garota.
— Desde quando você entende sobre isso?
Frannie riu.
— Desde que eu me preocupo com a sua felicidade, ou seja, sempre.
Quinn balançou a cabeça em negação, achando a resposta da mais velha totalmente tresloucada, e quando se sentou na mesa com ela, seus olhos caíram sobre Rachel, que atendia os clientes.
— Ela parece ser quente. — Frannie murmurou próxima ao seu ouvido.
— Vá para o inferno. — Quinn sentiu seu rosto corar, ficando vermelho como os olhos da caveira da tatuagem de Frannie, que ria ao seu lado.
— Eu estive nele, Quinnie. Eu estive nele.
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