Vermelho sangue
1 Capítulo único
Notas iniciais
Vermelho.
Os lábios tingidos enfeitiçavam qualquer um que lhe pousasse o olhar, foi o primeiro detalhe que notaram com a chegada de Marina. Sua face delicada e pálida contrastava com os carnudos lábios vermelhos, era uma combinação intensa e perigosa. Não parecia certo, não estava certo.
A dona dos lábios avermelhados era agora minha colega de trabalho, somos modelos da mesma agência.
Sempre tive um desempenho excepcional no meu trabalho. É um ambiente agitado difícil de se manter, um clima competitivo reinava em ambientes desse tipo.Mas para alguém no auge de sua carreira como eu, aquilo não era muito problema.
Isto é, até a chegada dela.
Marina passeava pelos corredores cumprimentando a todos, sua simpatia era outro fator que rapidamente cativava as pessoas. Além de claro sua beleza, seus cachos acobreados dançavam sob suas costas conforme andava, os olhos amendoados eram emoldurados por longos cílios pretos. E sua boca...era objeto de suspiros, carnuda e toda vermelha.
- Bom dia Clarisse! – A voz suave de Marina se dirigia a mim.
-Bom dia.
-Não está animada para o ensaio amanhã? Nunca visitei a ponte estaiada antes, estou ansiosa!
- Acredite em mim não tem nada de mais nela. — Respondi impaciente, havia me esquecido que iríamos trabalhar juntas para um ensaio fotográfico na ponte estaiada na noite seguinte.
- Meu namorado também nunca visitou a ponte, afinal, ele veio pra São Paulo há pouco tempo atrás. Acho que vou levar ele amanhã...não tem problema não é? — A animação em sua voz era patética, aquela situação era tão comum, só uma novata como ela para ficar tão animada com um simples ensaio fotográfico sob uma ponte.
- Acho que tudo bem se você avisar o pessoal antes.
- Ah que bom! Ele vai ficar bem animado e...- Marina continuou sua fala empolgada, minha mente já havia se extraviado do diálogo, tudo que via agora eram aqueles lábios vermelhos se movendo incessantemente, aquele movimento me irritava profundamente.
Quando me dei por conta Marina estava acenando sua mão frente a meu rosto buscando algum resquício de minha atenção.
- Clarisse está tudo bem? Por um momento você parecia distraída... — O tom de preocupação na voz de Marina era evidente. — Ai meu deus, a sua mão esta sangrando!
Minhas unhas perfuraram a pele da palma de minha mão enquanto mantive o pulso fechado, fiquei surpresa com o ato inconsciente. Um filete vermelho sangue escorria pela palma de minha mão, um vermelho hipnotizante, o mesmo vermelho do batom de Marina.
- Você esta tremendo Clarisse, tem certeza que está bem? — A voz de Marina me fez retomar minha postura. Porem minha mente continuava inquieta.
-Sim, eu... Vou ao banheiro me limpar. — Disse rapidamente enquanto me afastava dela.
A noite seguinte chegou rapidamente, me encontra já na ponte estaiada, o local do ensaio fotográfico. A equipe ainda preparava os equipamentos enquanto eu recebia todos os cuidados com a maquiagem, vestuário, etc. Em uma tenda improvisada, a maquiadora acabava de me arrumar, quando uma das ajudantes apareceu na porta com uma fisionomia um tanto preocupada.
- Vocês viram a Marina? Ela não chegou, não atende o celular e logo o ensaio começara! — A ajudante remexia seu cabelo de maneira frustrada. — Bom, vou continuar procurando-a. Se a virem me avise.
Assenti com a cabeça e minutos depois sai da tenda, pela agitação da equipe percebi que Marina ainda não havia chegado. Que irresponsável, pelo menos agora irão ver que ela não vale tudo isso. Posso dar conta sozinha desse ensaio tranquilamente.
A ausência de Marina parecia retirar um peso de mim. Resolvi caminhar pela ponte enquanto a novata não chegada, quando olhei para trás a equipe e os equipamentos já pareciam distantes.Um choro me chamou a atenção enquanto caminhava, fui procurar a fonte do som e me surpreendi a achar Marina chorando atrás de uma das grandes hastes da ponte.
- Clarisse...? — Disse entre soluços. — Ah, eu já estou indo para o ensaio... E-eu acabei me atrasando e...- Marina desatou a chorar novamente no meio da fala.
- O que aconteceu? — Ver ela naquele estado despertava uma curiosidade estranha em mim.
- Antes de vir para cá eu passei na casa do meu namorado, eu até comentei com você que iria leva-lo. Chegando na casa dele eu... Eu o encontrei com outra! — As palavras saíam com esforço de sua boca. — Eu fiz um escândalo... Ele tentava me acalmar mas nada iria adiantar... Eu ainda não consigo acreditar que ele fez isso comigo! — Agora a tristeza dava lugar a ira em sua fala, um misto de angustia e raiva. — Foi por isso que me atrasei até aqui! Por isso que estou aqui chorando nessa situação patética! Por causa daquele maldito!
Marina gesticulava de modo frustrado enquanto falava, parecia incapaz de digerir o turbilhão de sentimentos que sentia naquele momento. Em uma dessas agitações sua pequena bolsa tiracolo caiu, despejando pelo asfalto da ponte os pertences de Marina. Agachei-me para ajudar a recolher os objetos, quando um em particular me chamou a atenção.
Um batom vermelho.
Senti meu corpo começar a tremer e a escuridão invadir minha mente até ficar totalmente inconsciente.
Quando retomei o controle da minha mente vi que estava em pé no meio da ponte, meus braços e roupa estavam machados de vermelho. Por mais que tentasse me lembrar do que aconteceu anteriormente não conseguia recorrer a nada. Tudo que sentia de diferente era um volume no bolso da minha calça, para minha surpresa era um batom vermelho.
Notei que a equipe toda olhava para o rio abaixo da ponte, uma expressão de horror estampada em seus rostos. Quando olhei para baixo algo boiava nas águas escuras do rio Pinheiros.
O corpo inerte de Marina.
Me afastei rapidamente da beirada da ponte e tropecei em algo, um espelho que havia caído da bolsa de Marina. Meus dedos tremiam enquanto olhava para o pequeno objeto.
O meu reflexo com o batom vermelho de Marina.
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