Notas iniciais
Meu Deus, depois de tanta demora finalmente mais um novo capítulo! Quero agradecer aos leitores que comentam aos que acompanham na encolha, enfim. Obrigada mesmo! Ah, escutem a última sequência ao som de Heartbeats, de Jose Gonzalez: http://www.youtube.com/watch?v=s4_4abCWw-w

Os cegos sempre estão rodeados de

uma resplandecente brancura,

como o sol dentro de um nevoeiro

(Ensaio sobre a cegueira)

O vermelho é uma cor primária.

Abraçada as minhas próprias pernas, eu chorava. Em posição fetal em cima da cama, eu tentava de alguma maneira me sentir segura, mas era inútil. Eu tinha medo. Eu tinha tanto medo. Minhas mãos ainda tremiam e eu me sentia enjoada e perdida. Não me lembrava ao certo o que havia acontecido na noite passada, só me lembrava de que tive uma crise bem no meio do festival e assim que cheguei ao chalé vomitei desenfreadamente. O choro me veio à garganta e não consegui controlá-lo. Foi nesse momento que vejo surgir pela porta Suigetsu ao lado de seu lobo-guia estúpido.

— O que está fazendo aqui? Vá embora! Eu quero ficar sozinha, por favor.

— Eu sinto muito por ontem! Deveria ter te escutado... Quero compensar o que fiz! Venha! Vamos comigo! — Ele estende a mão em minha direção.

— Qual foi a parte do “quero ficar sozinha” que você não entendeu?

— Karin! Venha comigo! Levante-se dessa cama anda!

— Me deixa em paz! Merda!

— Karin! Levante-se agora!

— Não, não... não... Eu não posso! Eu não posso me levantar. Eu já tentei. Eu já tentei. Eu não consigo! Me sinto tonta toda vez que eu tento. Satisfeito? Era isso que você queria ouvir? — Eu não consegui me segurar mais e explodi de raiva e lágrimas.

— Karin, é por isso que estou aqui! Não tenha medo! Eu guiarei você!

A última frase me parecia tão familiar. Sim, eu já havia escutado isso. Ontem à noite, ele havia me dito a mesma coisa. No meio daquilo tudo, sem que eu pudesse esperar, Wolf começou a movimentar-se como se pedisse para Suigetsu soltá-lo.

Assim que ele o liberou, ele veio em minha direção e pôs a cabeça apoiada nas minhas pernas que agora estavam cruzadas em borboleta sobre a cama. Ele ficou lá me olhando através daquela iris de um amarelo meio esverdeado, gemendo baixinho como se estivesse triste só por minha causa.

Não sei explicar, mas não tive nenhum receio em ter Wolf apoiando a cabeça em minhas pernas. Normalmente, eu evitaria qualquer tipo de contato, mas o dele não me causou nenhum efeito negativo. Pelo contrário, aceitei aquela demonstração de afeto de bom grado e comecei a acariciá-lo de leve, sentindo a textura gostosa de seu pêlo que conseguia ser áspera e macia ao mesmo tempo.

— Vamos! Eu te guiarei! — A voz de Suigetsu era firme e decidida e antes que eu pudesse negar, ele estava grudado a minha cama estendo-me o braço.

Olhei para o Wolf novamente como se pedisse a opinião dele. Eu só podia estar ficando louca mesmo. Onde é que já se viu pedir opinião para um animal? A loucura se agravou ainda mais quando o Wolf, aparentemente, irritado com a minha demora fincou os caninos na calça de moletom que eu usava me puxando para fora da cama.

Meio titubeante, mas cedendo àqueles olhos amarelados e pedintes do estúpido lobo-guia, segurei de leve no braço de Suigetsu.

— Isso! Isso mesmo! — disse de maneira encorajadora.

Aos poucos, coloquei o pé direito para fora da cama. Contudo, assim que fiz isso senti uma tontura me pegar jeito. Essa sensação desesperadora quase me fez recuar, mas Wolf não permitiu, continuando a me puxar pela calça.

— Eu não posso!

— Sim, você pode! — Suigetsu era terrivelmente insistente. Sua persistência e sua voz tão confiante me fez dar o próximo passo, colocando agora o pé esquerdo para fora da cama.

E lá estava eu, com os dois pés sobre o chão, mas ainda sentada na cama e segurando o braço de Suigetsu que permanecia meio curvado de frente para mim.

— Agora se levante!

Fechei os olhos, respirei fundo e me levantei. O triste e era que mesmo me apoiando nele, a tontura continuou. Mas antes que eu caísse, Suigestu interveio.

— Segure em mim! — Foi tudo o que ele disse.

Ele poderia ter simplesmente me segurado, mas não o fez. Instintivamente, ele já sabia que eu me sentiria mais segura desse jeito.

....

— Meninos, arrumem suas malas! Nós voltaremos hoje mesmo para Montreal!

— Mas já, Shizune? — interrogou Temari decepcionada, sendo acompanhada por outras vozes que não estavam de acordo com a súbita partida.

— Sim, meninos, não podemos permanecer um minuto a mais nesse lugar! — rebateu nervosa. Como eu faria para conter essa mal comida, mal humorada de uma figa?

Já havia mandado uma mensagem via whatsapp para Naruto dizendo exatamente o que o maluco do Suigetsu havia me dito. Agora o mais difícil dessa história toda seria distrair Shizune. A mulher parecia um cão de guarda sempre pronta a acabar com qualquer diversão.

Tinha que fazer alguma coisa antes que Shizune descobrisse o repentino sumiço de Suigetsu, Karin e Naruto. Meus olhos percorreram todas as possibilidades dos que estavam sentados à mesa. Foi então que me prendi nele. Estava lá... com aquela cara de idiota afrescalhado ajeitando aquele cabelo idiota ensebado de gel. Ele deve gastar um pote por dia naquela crina de cavalo. Coloquei a minha melhor cara de choro e finalmente surgi na grande sala pondo-me de frente para a mesa de café da manhã e apontando em direção a ele.

— Sasuke-kun — chamei-o, forçando uma voz chorosa. — Por quê? Por que fez aquilo comigo ontem à noite?

Ele me olhou atônito como se eu fosse alguma desequilibrada.

— O que foi, garota? – questionou, olhando para mim confuso.

— Você sabe muito bem do que estou falando! Ontem à noite... Ontem à noite, você me levou para um motel e fizemos amor apaixonadamente e depois quando voltamos você disse que não tinha passado de uma “coisa de momento”.

— O que? Mais o que é isso? Vocês dois fizeram o que? — Shizune arregalou os olhos chocada. —Vocês sabem muito bem quais são as regras do colégio!

— Sakura, como assim? — No meio da confusão, ouvi a voz de Hinata me interrogando perplexa.

— Ela enlouqueceu, Shizune! Não dormimos juntos! — Ele levantou-se revoltado e colocou-se na minha frente indignado. — O que deu em você, sua maluca? — Veio para cima de mim com tudo. Por um minuto achei até que fosse me esganar.

— Sim, dormimos juntos! Diga a verdade, Sasuke-kun!

— Diga a verdade você! Sua doente! — Aproximou-se mais me pegando pelo pulso.

— O que vai fazer? Vai me bater! Bate! Pode bater! — Fiz minha melhor atuação de atriz de novela mexicana. — Mas, por favor, pense que se eu estiver grávida, você estará batendo também no seu filho. No Carlos Daniel ou quem sabe na pequena Paulina! — Sempre gostei dos nomes dos personagens de novelas mexicanas. Nada melhor do que um nome composto para dar mais drama ainda a qualquer situação. Por isso fiz questão de chorar bastante entortando bem a boca e fazendo a minha melhor cara de Maria do Bairro.

— Caralho! Você fumou quantas maconhas? — Agora, ele me sacudia pelos ombros espantado com a minha brilhante atuação.

— Uchiha Sasuke! Solte-a agora mesmo! — Shizune ordenou, puxando-o para que ele me soltasse. Enquanto eu me jogava nos braços de Tenten chorando copiosamente e segurando a barriga.

— Tenten, o que vai ser de mim? O que vai ser de mim, amiga? O que vai ser desse filho que carrego em meu ventre?

Todos a nossa volta estavam chocados e olhavam para o Uchiha como se ele fosse o mais cafajeste dos homens. Pronto. Com aquele circo armado eu tive a certeza de que Shizune se ocuparia por muito tempo nos dando um de seus intermináveis sermões e que demoraria muito para se dar conta do sumiço dos outros três.

....

Passado os primeiros momentos de tensão, finalmente Karin havia conseguido se arrumar sozinha e sair do quarto. Eu a esperava do lado de fora do chalé ao lado de Wolf. Assim que seu perfume cítrico tomou conta do lugar, soube que ela havia chegado. E, desse modo, aproveitando a ajuda de Sakura para distrair Shizune (não sei o que a garota fez, mas com certeza foi algo que envolveu muitos gritos e choros), saí com Karin dali em direção a outro chalé mais recluso, um chalé de velhos amigos que eu conhecia muito bem.

— Para onde estamos indo? — perguntou quando já estávamos na metade do caminho.

— Você não confia em mim?

— Eu só não quero ter problemas e...

— Fique tranquila!

— Finalmente! E aí Karin? Como está? — A voz de Naruto tomou conta do lugar.

— Melhor! — respondeu se m graça e surpresa com a presença de Naruto ali.

— Fiz o que me pediu! Genma reclamou um pouco, mas disse só para tomar cuidado.

— Ele está aí?

— Não! Encontrei com ele por sorte na hora em que estava saindo com a esposa.

— Ok. Vamos! — Estendi meu braço mais uma vez para que ela se apoiasse nele. — Naruto! Fique com Wolf, sim. Desculpe, velho amigo, mas não posso te levar nessa. — Dou a coleira para Naruto e acaricio-o atrás das orelhas. Ele protesta um pouco gemendo baixinho, mas sei que — no fundo — compreende a situação. — Karin, agora você vai ter que me ajudar! Me guie até a garagem nos fundos da casa.

— Pra quê isso?

— Não fique assustada! Só me guie até os fundos da casa!

— Ok. — Mesmo contrariada, ela segura em meu braço me arrastando até a garagem. — O que significa isso? — Pelo seu tom de voz, sei que acabamos de chegar onde eu queria.

— Bom, é exatamente o que está vendo? — Deixo um sorriso de canto escapar de meus lábios.

— Um balão?

— Sim, um balão!

— Mas...

— Você não se sente segura em terra, então, talvez se sinta melhor no ar.

— Eu não vou subir nisso!

— Ah, vai sim!

— Você sabe pilotar essa coisa?

— Não tem grandes mistérios!

— Mas você é...

— Cego! É... Sou desde que nasci. Mas tenho duas mãos, uma boa audição, um bom olfato.

— Suigetsu!

— Confia em mim! — Foi trabalhoso, mas finalmente consegui convencê-la e adentramos o balão.

Aos poucos, fui sentindo que ganhamos altitude pelo modo como o vento passou a comandar o curso do balão. Karin permanecia calada. E, infelizmente, para mim aquele silêncio era indecifrável, pois imerso nele, eu não poderia adivinhar se ela estava ou não gostando do passeio.

— Que Monte é aquele? — Esboçou sua curiosidade me enchendo de alegria por escutar sua voz.

— Bom, eu acredito que...

— Que idiotice a minha! — manifestou-se antes que eu conseguisse falar. — Como você poderia saber! Me desculpe!

— Pelo rumo do vento, eu acho que estamos próximos do Mont Mégantic — disse, deixando-me guiar pela sensação da brisa que batia em nossos corpos. — Pretendo voltar aqui mais uma vez antes de voltar pra casa. Esse lugar é propício a um dos maiores fenômenos da terra!

— Como você...

— Apesar de cego, eu sei o que é norte, sul, leste e oeste! — Falei, apontando para cada uma das direções que citei.

We had divine sense

To know what to say

Tínhamos um sentido divino

Para saber o que dizer

— Você é incrível! Obrigada por me trazer aqui! — A voz dela realmente parecia mais serena. Toda a tensão que ela apresentava no início dessa pequena aventura parecia ter se esvaído. — É tudo tão lindo! Eu queria ficar aqui em cima pra sempre.

De repente, sinto os fios de seus cabelos baterem no meu rosto por causa do vento e mais uma vez a curiosidade de apreender um pouco mais de como ela é recai sobre mim. Quem poderia me culpar? O cheiro cítrico dela misturava-se pelos ares montanhosos e preenchia todo o lugar. Ela dominava tudo e naquele momento começava a me dominar também.

— Sei que perguntas de todos os tipos foram terminantemente proibidas, mas se você me responder uma única pergunta, eu prometo que nunca mais pergunto nada!

— Vai... Pergunta! — falou meio a contragosto, mas com um tom de voz meio brincalhão.

— De que cor são os seus cabelos?

— Pra quê você quer saber? Você não pode vê-los.

— Por favor, só me responde isso!

— São vermelhos! Eu sou ruiva!

— Vermelhos, claro, não poderia ser outra cor. Vermelho, cor primária por excelência. Aquela que não precisa se unir a nenhuma outra cor para ser o que é. Ela existe por si mesma, independente e forte. Vermelho como o céu!

Ten days of perfect tunes

The colors red and blue

We had a promise made

Dez dias de sinfonias perfeitas

As cores vermelha e azul

Tínhamos uma promessa feita

— Mas o céu é azul e não vermelho! — afirma convicta. — Além do mais, se você é cego desde nascença saber disso ou não, não faz a menor diferença.

— Claro que faz! Eu não preciso ver para entender sobre as cores ou para percebê-las.

— Ah, é... E como você as “percebe”? — questiona com um certo deboche na voz.

— Através do sistema de blocos de composição!

— Blocos de quê?

— Até o final da viagem, eu farei você entender. O mais importante nesse momento é compreender que cada indivíduo tem o seu ponto de vista sobre o mundo. É por isso que para mim, agora e para todo o sempre o céu será vermelho e toda vez que alguma brisa bater no meu rosto, ela trará consigo o cheiro de acerola com laranja. Tudo depende da percepção que se tem do mundo.

Passamos um bom tempo ainda no balão, vagando pelo ar sem rumo. Karin não disse mais nada durante o resto do passeio e eu também não. Pela primeira vez, eu não tinha nada a dizer. O tempo, o vento e o céu já haviam nos dito tudo que precisamos saber aquele dia.

To call for hands of above

To lean on

Wouldn't be good enough

Para chamar as mãos de lá de cima

Para nos apoiarmos

Não seria bom o bastante

Notas finais
Espero que tenham gostado! Até mais. (: