Vermelho como o Céu [HIATUS]

7 Quarto dia - parte I -


Notas iniciais
Então, gente, desculpa! Eu só quero dizer que o motivo do meu sumiço se chama ENEM e, como muitos devem saber, a 1ª prova foi hoje e a 2ª será amanhã, obviamente. Durante todo esse tempo de preparação, eu realmente não estava entrando aqui. Esse capíltulo só está sendo postado hoje, porque eu diminui o ritmo de estudos nessa última semana. Enfim, assim que o ENEM se for de vez e a segunda fase da UERJ for junto, as postagens voltarão ao seu ritmo normal, espero eu. Beijos e espero que alguém ainda leia isso! Ah, quero agradecer muito aos novos leitores e aos novos acompanhamentos e tal... vou responder vocês agorinha.

Os homens são todos iguais.

Pensam que basta ter nascido da barriga de uma mulher

para saber tudo sobre mulheres.

(Ensaio sobre a Cegueira)

O rosa é o vermelho suavizado com o branco

— Sei que parece que namoramos há um bilhão de anos, mas não foi. Eu posso não ter significado nada para você, mas você significou muito para mim.

E assim se iniciava a minha noite depois de um dia um tanto quanto curioso, para não dizer inusitado em que um cego, sim, um cego havia me feito sobrevoar pelas montanhas do Canadá.

Enquanto arrumava minhas malas, me deparei com essa súbita frase surgida do corredor. A porta fechada do quarto não me dava acesso às pessoas que participavam daquele diálogo, mas suas vozes – já muito conhecidas por mim – não me deixaram ter dúvidas de quem se tratavam.

— O que você quer que eu diga? — A voz masculina parecia questionar com desdém.

— Nada! Eu não espero que você diga nada! Nem espero que você entenda ou que sinta o mesmo que eu. — Por incrível que pareça aquele tom de voz vindo da minha colega de quarto me chocou.

Sim, me chocou e muito, porque demonstrava certa clareza e dignidade que eu julgava impossível existir nela. Afinal, não era segredo para ninguém que Haruno Sakura morria de amores por Uchiha Sasuke. Não era segredo também que tal paixão datava dos mais remotos tempos da nossa infância.

Amor infantil compartilhado, à propósito, do qual eu fiz parte até os 12 anos de idade. Durante algum tempo, eu também fiz parte do grupo esquizofrênico de admiradoras que perseguiam o herdeiro Uchiha para todos os lados, vibrando a cada olhar e a cada monossílabo que ele proferisse.

Era uma falta de amor próprio sem precedentes compartilhada igualmente entre Sakura, Ino e eu. É claro que, por diversas razões, não demorou muito para que eu apagasse da minha vida qualquer possibilidade amorosa. Descobri desde cedo que o amor era somente uma anestesia que fazia com que as pessoas suportassem a realidade cruel da vida.

Assim, deixei os delírios amorosos apenas para as outras desequilibradas que, provavelmente, pelas mais variadas razões também desistiram ou se conformaram com as migalhas oferecidas pelo Uchiha. Comportamento que, por sinal, passei a julgar patético quando voltei a Konoha anos depois.

— Você não tem coragem! — Retirando-me das minhas vagas lembranças, mais uma vez a voz da Haruno ecoava solitária detrás da porta. — Você sempre me achou patética, porque eu sempre tive o que você não tem! Eu nunca tive medo de dizer o que sinto! Eu nunca tive vergonha de parecer ridícula, mesmo sabendo que todos sempre me consideraram uma imbecil, mesmo sabendo que todos sempre me consideraram digna de pena. Mas, no fim, é de pessoas como você que eu tenho pena!

— De mim? — Atordoado, o Uchiha parecia não compreender.

— Sim, de você. Você que é incapaz de sentir, de se entregar. Eu tenho pena de pessoas como você. Mesmo agora, eu não tenho vergonha de dizer o que sinto! Enquanto para você, isso sempre foi uma prova, uma amostra de fraqueza, para mim, isso sempre fez parte de quem eu sou e negar isso seria como negar a mim mesma.

— Sakura...

— Não estou dizendo isso porque quero o que tínhamos de volta! Não! Pelo contrário, eu não quero mais! Eu tirei muita coisa disso, eu aprendi muito com o nosso relacionamento, eu aprendi muito com os seus silêncios. E agora finalmente percebi que quero alguém que acrescente alguma coisa na minha vida, alguém que sonhe comigo, mas acima de tudo, eu quero alguém que não tenha medo. Então, não se preocupe, porque de você não espero nada. Você já me mostrou tudo o que tinha e eu percebi que o que você tem a oferecer não é suficiente, não me satisfaz. Eu mereço mais!

Ao ouvir aquelas últimas palavras, eu admirei Sakura. Admirei-a pela primeira vez em anos.

Assim que a porta se abriu, procurei rapidamente disfarçar minha imprudência e voltei a dobrar minha roupa. Ela se apoiou algum tempo na porta já fechada e chorou. Chorou sem se importar com a minha presença ali. Mas, apesar da clara decepção, eu poderia jurar que havia naquelas lágrimas certo alívio. E naquele segundo, ainda sem saber como reagir diante daquilo, eu a invejei. Sakura não tinha medo de ser quem era e eu a invejei por isso.

De repente, quebrando meu momento de inércia diante daquela situação, batidas à porta chamaram nossa atenção. Enxugando as lágrimas com o dorso da mão, a Haruno abre passagem para Tsunade que, apesar de notar o rosto avermelhado da garota, dirige-se a mim logo de primeira. Percebendo a situação, Sakura não demorou a trancar-se no banheiro me deixando a sós com Tsunade.

— Desarrume as malas! Você ficará conosco até o final da viagem! — decreta de uma única vez.

— Mas depois do que houve... Eu achei que... — Balbuciante, tentava entender do que se tratava aquilo. Afinal, logo depois que retornamos à Montreal, Tsunade fez questão de encher a mim e a Suigetsu com um sermão interminável e havia deixado claro que a minha partida era certa.

— Conversei com sua tia e concluímos que será melhor você ficar!

— Eu... Eu quero ir pra casa! — bufei, tacando o resto da roupa de qualquer jeito na mala.

— Você fica! — Muito serena e sem perder a cabeça como de costume, a Senju me deu as costas e retirou-se sem me dar nenhuma explicação para súbita mudança de planos. No mesmo instante, me joguei frustrada na cama e percebi que alguma coisa estava muito errada. Tsunade nunca voltava atrás.

....

Numa eventual viagem dos meus sonhos, onde eu pudesse desfrutar da minha própria companhia, onde não houvesse grandes aborrecimentos, nem pessoas indesejáveis, eu estaria nesse exato momento no Museu de Arte Contemporânea de Montreal contemplando as pinturas abstratas de Paul – Émile ou admirando a porcelana rara do séc. XVIII. Mas, infelizmente, dada as circunstâncias, tenho que me conformar em só folhear o livro que trago em mãos com todos os museus da cidade. Mais um dia se inicia em Montreal e eu – mais uma vez – não tenho minha vontade respeitada.

Essa viagem para qual fui arrastada — sem dúvida- é totalmente infundada e sem propósito. Onde já se viu uma viagem escolar que não priorize a ida a museus ou pontos turísticos históricos? Konoha Boarding School é a maior piada do século! Que instituição realmente séria e renomada perderia tempo levando seus alunos a uma estúpida partida de hóquei?

— Shizuneeee! — Logo a minha frente, a dirigente do internato mais caro do Japão pronuncia-se aos berros.

— Tsunade — sama! — Esbaforida, a secretária puxa-saco número um surge no meio da longa rua que dá acesso ao estádio.

Argh! Só de olhar para todas essas pessoas a caráter, vestidas com suas ridículas camisas de times, dos quais eu nunca ouvi falar, minha revolta cresce ainda mais. Isso só não é pior do que o estúpido festival porque não há tantas pessoas. Graças a Kami!

— Todos estão perto da bilheteria... — A bajuladora completa ainda sem fôlego. — Achei que a senhora não viria mais.

— Não seja tola, Shizune! Só demorei um pouco porque perdi algum tempo removendo certas pessoas da cama. — A Senju fuzilou-me com o olhar ao lembrar-se do nosso pequeno atrito matinal.

— Eu quero ir pra casa! — esbravejei irritada.

— Karin-chan, tenho certeza de que será muito divertido... — Shizune pronunciou-se, tentando minimizar a tensão existente entre mim e Tsunade.

Antes que eu conseguisse dizer a Shizune que, com certeza, não seria nada divertido ver um bando de marmanjos tentando atirar um estúpido disco preto numa rede, algo se sobressalta sobre o meu corpo. O impacto é tão forte que no mesmo instante eu caio estatelada no chão.

A criatura indesejável lambe-me o rosto de tal maneira que me embrulha o estômago. Não sabia que lobos eram capazes de tamanha demonstração de...

— Argh! Tira essa coisa cima de mim! Sai! — Empurro o asqueroso lobo-guia e levanto-me enfurecida.

— Ei, Wolf, veja só quem está de volta! — Eis que surge a voz responsável por aquela ameaça lupina.

Ele, o causador de todos os meus males desde que cheguei aqui, o ceguinho colorido que – por sinal – hoje está pior do que nunca, vestido com uma camisa laranja e com uma tinta da mesma cor a cobrir a cara.

— Bom, crianças, que bom que vocês todos já estão juntos! — A loira peituda se expressa com o semblante alegre para o restante dos meus colegas de classe que surgem logo depois de ceguinho colorido. — Suigtesu, querido, você tem certeza de que os Bulldogs têm grandes chances?

— Claro! A defesa deles é ótima e o Maurice Richard é o melhor atacante da temporada!

— Bom, então, Shizune e eu temos que resolver algumas coisas.... Nos encontramos aqui em frente quando o jogo terminar.

— A senhora vai embora? Me arrastou até aqui para ir embora? — Eu trincava os dentes de raiva. Estava tão indignada que mais um pouco afundaria a armação dos meus óculos na minha cara.

— Não! Que isso! Imagina! Eu irei para o outro lado do estádio... Sabe, um amigo me convidou para ficar com ele num setor mais reservado.

— E por que não podemos ficar na área vip também, Tsunade-sama? — Kiba, outro colega de turma, perguntou inconformado.

— Porque o outro lado é a parte onde ficam os apostadores. — Naruto disparou cobrindo a boca e tossindo falsamente.

— O quê? Baka! — A diretora furiosa responde à acusação socando o loiro na cabeça. — Sumam da minha frente!

Ao som da última ameaça, todos dispersam rapidamente.

— Ei, então, você continua aqui? — Ele aproxima-se dizendo novamente o óbvio. Odeio pessoas que tentam puxar assunto.

— Pois é! Tsunade mudou de ideia!

— Tsunade mudou de ideia? — Meneou a cabeça de maneira incrédula.

— Quem diria, não?! Acho que o clima frio a deixou meio mole!

— Deve ser excesso de sake! — completou risonho. — Então, você gosta de hóquei?

— Não!

— Ah, qual é? Você conhece o jogo pra dizer com toda certeza que não gosta?

— Tudo que eu sei sobre esse esporte é que um bando de inúteis tenta jogar um disco preto numa rede com um taco de madeira que mais parece uma espátula.

— É, já é um começo! — Ele ri da minha descrição e prossegue em seu falatório:

— Então vamos... Eu te explico o resto — disse, erguendo o braço em minha direção.

— Vamos! — Sem me apoiar nele, eu prossegui mais a frente já apressando o passo.

— Pensei que tínhamos feito progresso, zangado! — Me alfinetou irritante.

— Pois pensou errado!

....

Nada melhor do que bons tampões para evitar participar da histeria coletiva que estava ao meu redor. Pelo menos disso, Tsunade não me privou. Pelo contrário, já conhecendo meu histórico, ela mesma aconselhou que os usasse para me isolar. Só não entendi o motivo de não permitir que eu ficasse sozinha no hotel ou permitir que eu fizesse meu tão esperado passeio, mesmo que fosse sozinha. Se a preocupação dela era que eu tivesse outra crise, a ideia de me trazer a um estádio lotado não me parecia muito inteligente.

Embora eu nunca tenha esperado bom senso de Senju Tsunade, devo confessar que essa atitude – mesmo para ela – era descabida demais. De qualquer jeito, apesar de estar ao lado do barulhento e Inuzuka e da sempre falante Yamanaka, o que estava salvando minha tarde era o prazer de ler um pouco ou, pelo menos, tentar ler sobre os museus e marcos históricos do Canadá. E devo dizer que estava até, relativamente, me saindo bem sucedida na tarefa de ignorar aquele estardalhaço. Afinal, depois de tanto tempo ignorando meus colegas de turma, eu havia adquirido um alto poder de concentração com o passar dos anos.

Contudo, como desde que cheguei aqui meus raros momentos de tranquilidade são sempre quebrados, dessa vez não poderia ser diferente. De súbito, um estrondo, que nem mesmo os tampões de ouvidos são capazes de conter, assusta-me e imediatamente levanto meu semblante para entender o que ocorreu. Assim que volto minha atenção para a pista de gelo, dou de cara com um brutamonte que acabara de ser arremessado contra o vidro da divisória que divide público e jogadores.

O jogador agredido sai cambaleante tentando recuperar o estúpido disco preto que o outro havia lhe roubado. Nesse instante, baixo novamente meu olhar em mais uma tentativa de voltar a me concentrar no meu livro de viagens, mas é impossível. Quando menos espero mais um golpe na divisória de vidro precipita-se bem na minha frente. O jogador, que antes havia arremessado seu oponente, retorna mais uma vez, porém solitário e usando seu taco para esmurrar o vidro.

Ele me olha com ar de poucos amigos e retorna patinando de costas deslizando pelo gelo. E assim iniciou-se minha tortura naquele jogo. Toda vez que eu tentava voltar a minha leitura, o maldito jogador demonstrava sua insatisfação esmurrando o vidro na minha direção. Confesso que aquela situação tornou-se extremamente incomoda a ponto de eu cogitar a possibilidade de sair dali sem me importar com uma possível bronca de Tsunade.

No começo, achei que era coisa da minha cabeça, mas foi entre uma pancada no vidro e outra que eu finalmente percebi: aquele cara havia cismado comigo por algum motivo. Isso ficou ainda mais claro depois que eu jurei tê-lo visto murmurar a seguinte frase: “olho no jogo!” Seu olhar esverdeado parecia recair sobre mim de cinco e cinco minutos. Ele era assustador! O cabelo, um amontoado naturalmente esbranquiçado, aliado à altura descomunal e a palidez incomum, concedia a ele um ar de príncipe de alguma dinastia nórdica perdida.

Quando finalmente percebi que não seria deixada em paz até prestar atenção no maldito jogo, as investidas contra a divisória pararam, mas ele continuava lá me encarando, principalmente, quando era o responsável por acertar o disco preto na rede. E toda vez que o fazia levantava as mãos para o alto como um herói. A plateia, em extremo delírio, o reverenciava como um rei.

Não demorei a perceber que ele era algum tipo de ícone nacional, pois toda vez que marcava ponto a vibração do público era tão grande que quase fazia com que a arquibancada viesse ao chão. Mesmo com os tampões de ouvido, eu conseguia ler facilmente o lábio de cada uma daquelas pessoas que se contorciam em mil expressões faciais diante da figura do ídolo, elas gritavam e clamavam por um único nome: Kimimaro.

....

Quando finalmente o jogo termina, saio às pressas do estádio e sinto um alívio percorrer meu corpo no momento em que me livro dos tampões. Sigo para perto do ônibus que nos levaria de volta ao hotel, antes de todos os meus colegas de classe, e espero ansiosamente pelo momento de ir embora.

— Quer carona, amateur d'art? — Um chamento rouco em francês desperta a minha atenção. Apesar de nos encontramos na parte do Canadá em que esse idioma é – praticamente – o oficial, ainda me sinto fascinada toda vez que escuto um falante da província tão de perto.

— Não! — digo rispidamente e sem compreender ao certo do que havia sido chamada.

A pessoa, por sua vez, continua me encarando do alto de sua moto Harley — Davidson. Por causa do capacete que usa, e devido a escuridão, não consigo ver seu rosto. Aquela altura eu já estava visivelmente assustada e arrependo-me de ter saído do estádio sem esperar pelos outros.

Encaminho-me para o sentido oposto, apressando os passos e sem conseguir disfarçar meu nervosismo.

— Peur? Medo? — Ele acelera a moto em minha direção, fazendo um contorno e parando bem na minha frente.

Já em alerta, preparo-me para agredi-lo se necessário for, mas antes que eu o faça, ele solta mais uma de suas frases, só que dessa vez num idioma que eu consigo entender.

— De onde você é, menina amante de arte?

Suspirei tentando me fazer de desinteressada e continuei a caminhar. Ele, contudo, de maneira insistente continuou a me perseguir lentamente com a moto.

— Karin! — A voz de Naruto, pela primeira vez em anos, me traz tranquilidade. Sim, eu estava segura agora. Naruto, ao lado de todos os outros, era tudo o que eu mais queria.

A bientôt, amateur d'art! Te vejo qualquer dia desses no Museu de Arte Contemporânea! Há uma exposição nova lá que eu ainda não consegui ver... Quem sabe possamos ir juntos?!

Ele saiu cantando pneu com a moto e me deixando atônita diante de um dos momentos mais estranhos da minha vida.

....

— Não sabia que você era do tipo que dava atenção a jogadores de hóquei? — Já dentro do ônibus e a caminho do hotel, Suigetsu senta-se subitamente ao meu lado, retirando-me da análise que eu tentava fazer sobre aquele dia confuso.

— Jogador? — Crispei as sobrancelhas sem compreender.

— Kimimaro! — declarou com certo desdém.

— Aquela aberração? — indago perplexa. — Eu não entendi nada!

— Não entendeu nada, mas estava conversando com ele na saída do estádio!

— Era ele? — Agora, fazia sentido. Só tem maluco nesse país! — Foi ele que começou a puxar assunto do nada! — retomo minha fala indignada. — Eu não sei por que, mas eu tenho esse imã pra gente irritante, sabe?!

— Sei... — declarou estranhamente sem humor.

Permanecemos em silêncio até o hotel e quando finalmente descemos do ônibus, eu tive a ligeira impressão de que ficaria em paz enfim. Doce ilusão. Assim que dei o primeiro passo para minha liberdade, Suigetsu fez questão de me abordar pelo caminho.

— Espera! Preciso falar com você um segundo! — Como sempre acompanhado por seu fiel amigo, ele prostrou-se do meu lado detendo-me.

— O que foi? — Revirei os olhos a contragosto.

— Espera... — pigarreou, meneando a cabeça.

Logo percebi que sua intenção era ter certeza de que todos já haviam entrado para poder começar a falar. Por Kami! Como ele gostava de falar!

— Vocês dois não demorem muito aqui fora, ok? — Shizune ressaltou, piscando para mim e apressando o passo em seguida.

— Nossa, mas ainda estamos no quarto dia e eles já estão discutindo a relação? — Ino expressou-se em voz alta mais a frente.

— Ino!

— Ai, Sakura, não me bate não! O que eu falei demais? Heuin! Vou te contar, hein! Essas ficadas de hoje em dia estão cada vez mais sérias! Por isso, que eu deixo bem claro desde o início que não quero compromisso, porque depois fica nesse estresse aí óh. — A loira apontou, sem pudores, em nossa direção.

— Nós não... — Quando estava prestes a gritar para desmentir aquele absurdo, Suigetsu me deteve novamente, só que dessa vez segurando em meu braço.

— Deixa pra lá!

— O que você quer? Diz logo porque quanto mais demorarmos, maior será a fofoca... — Já começando a me irritar me soltei dele imediatamente.

— O que ele disse? — Disparou do nada.

— Ele?

— Kimimaro! — replicou contrariado. — Sobre o que vocês conversaram?

— Pra quê você quer saber?

— Ele tem um histórico duvidoso! Ele sempre faz isso! Toda temporada ele sai atrás de alguma turista desavisada e inocente. O país todo sabe! — Claramente alterado, disparou de uma única vez. — O que ele disse? — A insistência com que Suigetsu me interrogava começava a me irritar profundamente.

Na verdade, todo ele me irritava. Incrível como a imagem positiva que havia me mostrado no dia anterior se desfez no segundo em que o encontrei de novo. Antes tivesse ido embora e resguardado nosso momento amigável a bordo do balão.

— Disse que qualquer dia desses a gente se encontra no Museu de Arte Contemporânea! — declarei, dando de ombros e sem entender o súbito interesse que ele, o lunático número um, poderia ter na minha “quase conversa” com o lunático número dois.

— Museu? Que idiota! Odeio museus! — completou, torcendo os lábios. — E você aceitou?

— Sei lá, quer dizer, eu tinha que aceitar? Aquilo nem me pareceu um convite! Além do mais, eu nem o conheço! Ele cismou comigo por algum motivo desconhecido!

— Que bom! Porque você também não terá tempo ir a museus! — exclamou autoritário. — Já programei todo o nosso itinerário e ele não inclui nenhum museu idiota!

— Programou todo o nosso itinerário? Idiota? Museu idiota? — Ok. Agora, definitivamente, eu estava prestes a perder a cabeça. — Como alguém pode preferir assistir a uma partida ridícula de hóquei ao invés de ir a um lugar que proporcione enriquecimento cultural? — esbravejei de tal modo que as pessoas próximas ao hotel assustaram-se começando a nos encarar.

Aquela altura o Wolf, de alguma maneira, parecia se colocar entre nós, como se já tentasse evitar um possível desentendimento entre Suigetsu e eu.

— O hóquei faz parte da cultura canadense se você ainda não percebeu! É o esporte mais importante do país! — respondeu, elevando ainda mais o tom de voz e puxando a coleira de Wolf para o lado na tentativa de fazê-lo sair do caminho.

— Quer saber, aquele estranho que falou comigo – por dois minutos – foi o único até agora a se interessar em saber o que eu quero fazer! Porque desde que cheguei aqui eu só tenho sido arrastada por você por toda a parte! Se você acha que eu vou ficar te seguindo para cima e para baixo, você está muito enganado! Nem mesmo aquela maníaca apostadora e beberrona me obrigará a passar mais um segundo sequer ao seu lado!

— Ótimo!

— Pois está ótimo pra mim também!

— Que Bom!

— Ótimo!

Depois daquele consenso acreditei que finalmente estaria livre, mas nada era tão simples assim com Suigetsu.

— Agora dizer que eu não me interessei em saber o que você queria fazer é uma puta mentira! — Insistente, ele prossegue e a cada palavra só faz meu sangue ferver ainda mais. — Logo no primeiro dia eu perguntei o que você gostava de fazer, lembra? Mas você me ignorou completamente e depois me proibiu de fazer qualquer pergunta a respeito.

— Quer saber, isso já foi longe demais! — desconversei, já recomeçando andar e tendo a certeza de que ele ainda estava no meu enlace.

— Quer saber, você é extremamente mimada, mesquinha e... — Puxou-me novamente , me fazendo parar para escutá-lo. — E... E eu não faço a menor questão da sua companhia! Vá a seus malditos museus e divirta-se! — exclamou aos gritos, fazendo com que o Wolf, que já estava irrequieto, começasse a uivar desesperadamente.

Só sei que aquela altura do campeonato minha vontade era socar Suigetsu até a cara dele começar a derreter. Era tanta coisa acumulada dentro de mim, era o fato de ter ido naquela viagem contra a minha vontade, era o fato de não conseguir ter controle sobre as minhas emoções, era o fato de não conseguir seguir em frente com a minha vida.

— Vou me divertir mesmo! Argh! — Fechei o punho e me aproximei dele até ficarmos a centímetros um do outro. — Como alguém em sã consciência pode odiar museus? — gritei descontrolada, retomando a declaração que ele havia feito logo no início da discussão.

— Sim, eu odeio museus! Odeio mesmo! Odeio porque não posso tocar em nada do que está lá, porque tudo que está lá não faz barulho e nem tem como sentir o cheiro...

E assim Suigetsu me desarmou. Me desarmou completamente. No auge da minha revolta, eu – que sempre me julguei tão atenta – não percebi o óbvio.

— Me... Me desculpe! — Muito sem graça e meio gaguejante diante daquela afirmação, senti minha fúria murchar rapidamente.

— Não peça desculpas! — vociferou em alto e bom som. — Eu não preciso da sua pena ou da merda da sua compaixão!

— Gente? — No meio daquele estardalhaço, a voz do meu primo retardado surge do nada me deixando ainda mais constrangida.

— O que foi?! — exclamamos ao mesmo tempo.

— Então, está rolando algo interessante lá dentro. Eu vim aqui pra ver se ces’ querem participar e tal... — Naruto declarou sem graça diante do perceptível clima tenso entre Suigetsu e eu.

— Que coisa interessante, Naruto? — Deixando-me ao pé do caminho, ele seguiu para junto do loiro.

— Noite do desafio! — O retardo número 1 de Konoha expressou-se visivelmente animado. — E preparem-se porque pelo ritmo que a galera está o negócio será legendário! — pronunciou-se, esfregando as mãos com um sorriso malicioso na face.

Notas finais
glossário: amateur d'art : amante de arte Peur : medo A bientôt: até breve! Até o próximo, lindoxxxx. Eu espero que esse mega capítulo (tá muito grande isso) tenha compensado a minha ausência pelo menos um poquinho. (:
Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.