Vermelho Sangue
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– Onde está seu envelope? – pergunto ao perceber que Matt só carrega uma das pastas.
– Esse é o meu, você foi suspensa de novo. – Diz ele se afastando e indo em direção a saída do refeitório.
– Como assim suspensa? – pergunto o alcançando.
– Não sei o porquê, você vai ter que ir no Marcellus e perguntar pessoalmente. – Diz ele já passando pela porta.
Olho em volta e pesco alguns olhares curiosos que devolvo com uma carranca, tudo que eu menos preciso nesse momento é de pessoas pensando que eu tenho algum problema. Me dirijo até a ala dos escritórios da direção e entro na sala de Marcellus sem me preocupar em bater na porta, ele está como sempre escondido atrás de um livro empoeirado, com os olhos azuis ávidos por mais informações e o cabelo louro claro já se esbranquiçando pela idade.
– Pode entrar, claro. – Diz debochado sem tirar os olhos do livro.
– Eu fiz alguma coisa errada? – Pergunto me sentando em uma poltrona de frente para sua mesa.
– Espere um minuto, já estou terminando o capítulo ... – Diz ele.
Observo a capa do livro: Mutações Genéticas.
– Eu já li esse, eles morrem no final. – Digo brincando.
– Todos morrem no final minha criança. – Diz ele sério me olhando pela primeira vez desde que entrei no recinto.
– Algum problema? – Pergunto tensa.
– Não chega a ser um problema ainda, é mais uma preocupação.
Avalio sua expressão calma e severa ao mesmo tempo, Marcellus é o comandante da organização da Romênia, foi ele quem me ofereceu o cargo e a estadia após saber do que ocorreu com meus pais.
– Diariamente recebemos jovens órfãos cheios de sede de sangue e com você não foi diferente, mas nós dois sabemos que esses jovens não duram muito, eles se deixam cegar pela raiva e não conseguem passar pelo treinamento, coisa que você conseguiu com uma destreza impressionante e com um emocional praticamente inabalável. – Diz ele olhando no fundo dos meus olhos perdido em lembranças.
– A onde queremos chegar com essa história? – Pergunto enrijecendo.
– O ponto minha querida Lauren é que eu me preocupo com o que essa vida de sangue e batalhas está fazendo com você, todos nós sabemos da sua perfeição nesse quesito mas eu me preocupo com o seu estado emocional. – Diz estreitando os olhos.
– Eu estou ótima Marcellus. – Digo.
– Pela primeira vez eu não acredito nas suas palavras. – Rebate ele. – Entenda que eu estou fazendo isso não só como seu chefe mas também como seu amigo, você interage socialmente?
– Não muito , eu não posso participar de nada que me distraia dos meus objetivos pessoais. – Respondo o olhando fixamente.
– Eu entendo que para você cumprir esse objetivo é muito importante , mas você já se perguntou sobre o depois?
– Depois de quê?
– Qual é o plano de vida para depois da sua vingança? Tenho certeza que nunca se perguntou sobre isso.
– É claro que já pensei sobre isso, vou continuar trabalhando para a organização. – Digo entediada.
– Você não pensa em ter filhos ou um marido? Uma casa com janelas azuis e um jardim bem cuidado?
– Não. – Respondo direta me cansando da conversa.
– Então me perdoe mas eu não posso retirar a suspensão. – Diz ele voltando a ler o livro.
Eu arranco do livro de sua mão e o fecho na mesa.
– Você não pode fazer isso.
– Não só posso como vou, procure ocupar a sua mente com algo que não seja trabalho antes que você se torne uma máquina sem coração tão parecida com os monstros que você odeia. – Diz ele nervoso com uma veia da testa pulsando de raiva.
Engulo minha frustração e saio batendo a porta, ele não pode fazer isso, ele com certeza tem que voltar atrás, ele precisa de mim. Caminho sorrateiramente pelos corredores até entrar no elevador e apertar o botão para o último andar, provavelmente não teria quase ninguém na biblioteca e eu precisava de um lugar longe do agito para me organizar durante esses ... dias? semanas?
O elevador para e eu saio, cumprimento a bibliotecária Sra.Ross com a cabeça e subo as escadas até a última sessão de livros, vou até o divã verde de sempre e acendo a luz da luminária ao me deitar, só então percebo que não peguei livro algum, talvez eu realmente esteja me tornando uma máquina.
Um medo irracional me invade e eu automaticamente olho para minhas unhas quebradas e desiguais, mal me lembro de tê-las pintado algum dia desde que cheguei aqui, vou até o pequeno banheiro de aparência antiga e me encaro no espelho enfeitado, olhos azuis frios e com olheiras, mais pálida do que nunca e com o cabelo ruivo tão sem vida que poderia muito bem ser de plástico, desde quando eu pareço um zumbi? “Desde que você perdeu as únicas pessoas que te amavam” sussurrou uma parte do meu cérebro. Quando vejo que uma lágrima solitária está correndo pela minha bochecha eu não me preocupo em limpa-la, é um sentimento.
Volto para o divã e fico encarando as prateleiras até meu olhar se perder, eu nunca vou conseguir ser uma pessoa normal até conseguir encontrar aquele monstro e dar para ele o mesmo destino dos meus pais, mas talvez eu deva tentar alguma coisa normal para variar, quanto mais rápido eu mostrar para o Marcellus que não sou uma máquina mortífera mais rápido eu vou poder acabar com isso e seguir com minha vida.
Pego o celular do bolso e mando um whatsapp para Matt :
O que gente normal faz a essa hora ??
A resposta vem instantaneamente.
Desde quando você se importa com oq gente normal faz?
Respondo rápido.
Longa história, só responde a pergunta pf !!!
Escrevendo ...
Considerando que é sexta provavelmente vai á uma festa.
Uma festa?
Uma festa?
Escrevendo ...
Sim , acredite, gente normal se diverte !
Penso um pouco na questão da festa, onde eu encontraria uma festa? Eu poderia perguntar a algum dos caçadores que estão de folga.
Obgd . Desliga o celular que você deveria estar em missão. ;)
DND , não enche.
Guardo o celular e vou para o quarto disposta a encontrar alguma roupa que eu possa usar, o que eu usaria no passado? Provavelmente um vestido, mas que eu me lembre eu não tenho nenhum vestido que me sirva, encontro no fundo do armário o vestido que usei no funeral dos meus pais, preto justo e simples, presente da minha mãe, penso no sorriso gentil dela e na dor que eu senti e quase desisto de sair, mas sei que ela iria querer que eu tivesse uma vida feliz.
Percebo que não tenho sapatos de festa então escolho o coturno mais limpo e o calço , por segurança prendo uma faca na parte de dentro, faço um rabo de cavalo improvisado e visto minha jaqueta de couro, eu mais pareço uma roqueira fantasma do que alguém indo para uma festa, mas enfim, foi o melhor que eu pude fazer.
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