Vermelho Sangue
24 O Pesadelo.
Notas iniciais
CAPÍTULO 24 – O Pesadelo.
Loki tremia, encolhido na banheira. Água. Água vermelha.
Ran soluçava, penteando os cabelos de Loki. A delicada criada sequer tinha palavras, mas não importava. Loki não as ouviria. Agora ele tomava seu primeiro banho após a tragédia. O sangue de Thor pintava a louça alva de um vermelho intenso.
Loki sofria silenciosamente. Não falara uma palavra sequer após aquilo. Frigga encarregou-se de preparar o funeral, Loki não teria forças para fazê-lo.
Ran ajudou Loki a levantar-se, enrolando-o num roupão. Vestiu-o com um manto negro como a morte. O fez beber um copo de hidromel e caminhou com ele, vagarosamente. Chegou até uma grande área aberta, com o grande início de um rio. Havia um imenso corredor de asgardianos, e eles todos observaram Loki chegar, pálido e abatido. Frigga ficou ao seu lado, dando-lhe a mão. Odin estava no centro, inexpressivo. Mas apenas Frigga sabia o quanto o rei gritava de dor.
E lá estava ele. Tranquilo. Belo. O seu barco rodeado de rosas, as que Thor mais gostava. A armadura brilhava com as luzes da noite cheia de estrelas. A expressão calma que Loki tanto amava, quase parecia estar dormindo. Loki, com voz trêmula, perguntou à mãe:
– Será que eu... Posso me despedir dele? – Loki tentava não chorar, mas era inevitável.
O coração de Frigga apertou-se, e ela respondeu.
– Claro, meu menino. Vá.
Loki aproximou-se do barco. A água fria molhava seus pés e a barra de suas roupas longas, mas ele não ligava. Tirou o lenço transparente que cobria o rosto de Thor e deu-lhe um beijo cálido e demorado em sua testa, por fim encostando a sua na dele. Sussurrou:
– Por tudo e para sempre, meu amor. – falou entre lágrimas.
Delicadamente pôs o lenço de volta e afastou-se, voltando para perto de sua mãe, observando o barco velejar.
Frigga deu-lhe o arco e flecha. Loki acendeu sua ponta e respirando fundo, enquanto sentia as lágrimas gelarem pelo vento em seu rosto, ele soltou a flecha.
Foi certeiro. O barco incendiou-se e junto dele, o coração de Loki. Frigga voltou a apertar-lhe a mão, enquanto ambos observavam Thor fazer sua última viagem naquele imenso rio. Enquanto ele chegava perto do penhasco, Odin bateu seu cetro e o barco flutuou, por fim desintegrando-se em luz.
Thor, agora, fazia parte das estrelas.
Loki prendeu a respiração. As lágrimas caiam e ele pressionou fortemente os lábios com as mãos. Frigga o abraçou, entrando novamente no palácio de Asgard.
∞
Frigga acariciava os longos cabelos de Loki num afago materno. O jotun finalmente conseguira cochilar por algum tempo, pois geralmente, quando tentava dormir, acordava com pesadelos, gritando, entre lágrimas.
O jotun suava. Revirava-se, tremendo agitadamente no colo de Frigga.
“Loki. Loki.
Você não é nada. Você nunca terá nada.
Nem mesmo Thor permanecerá com você.
Ele gritou seu nome quando eu o esfaqueei.
Tão puro de coração. Tão ingênuo. Tão apaixonado.
Por uma criatura feito você. Um monstro. Uma experiência mal feita.
Me responda...
Você conseguiu?
Você conseguiu ver?
O brilho da vida apagando-se dos olhos dele...”
Loki acordou gritando, cheio de lágrimas, enquanto Frigga o abraçava forte. Loki tentou se soltar, gritando coisas que não faziam sentido para Frigga.
– Eu sei quem foi, eu sei... Meu Deus, eu sei. – Loki parecia sofrer dizendo as próprias palavras.
Loki foi até o quarto de Sif. Usou magia para pôr a porta abaixo, assustando Sif. A guerreira recuava enquanto Loki se aproximava. O jotun furiosamente envolveu suas mãos no pescoço frágil da guerreira. Loki gritava desesperadamente entre o choro.
– O que você fez? O QUE VOCÊ FEZ? O QUE VOCÊ FALOU COM ELE?! – Loki apertava o pescoço de Sif.
Os olhos de Loki lentamente tornavam-se negros. Seus caninos e unhas cresciam enquanto a ira tomava todo seu juízo. Sif lutava contra a força de Loki, ainda entre lágrimas, enquanto o medo e horror tomavam conta de seu coração quando viu Loki transformar-se. O rosto da bela guerreira ficava lentamente vermelho, enquanto Frigga gritava e tentava fazer Loki parar, mas simplesmente não funcionava. Loki parecia estar possuído, não ligando para nada mais que não fosse Sif.
– Eu... Eu sinto muito! – ela gritava e se debatia, usando o pouco de força do corpo para tentar falar.
– O QUE VOCÊ FALOU COM ELE?! – Loki perguntou entre choro e grito.
Sif debatia-se, procurando por ar, mas ao mesmo tempo, não queria dizer mais uma palavra. Não queria que sua rainha visse aquilo.
Loki levantou a guerreira, deslizando suas costas pela parede do quarto, fazendo-a não mais tocar os pés no chão. Frigga gritou mais entre as lágrimas, implorando para Loki para que parasse.
– O QUE VOCÊ FALOU COM ELE?! – Loki repetiu, ainda mais furioso.
Sif tossiu e por fim disse:
– Era.. Você! – ela falou, chorando.
Loki imediatamente a soltou. A guerreira caiu no chão, tossindo, recobrando o ar enquanto chorava sem parar. Frigga parou por um momento, perplexa com que Sif havia dito.
– Era você... Ele deveria ter matado você! Não o... – Sif sequer conseguia falar entre o choro e grito. – Eu sinto muito! Eu sinto...
Antes que ela pudesse completar, Frigga deu-lhe um forte tapa no rosto, fazendo a guerreira chorar ainda mais alto. Loki caiu no chão, cobrindo o rosto com as mãos, soluçando de choro e Frigga gritou chamando os guardas mais próximos.
– Tirem esta desgraçada daqui. Joguem-na na prisão. – Frigga ordenava, entre o choro de tristeza, raiva e desprezo por Sif.
Sif debateu-se nos braços dos guardas enquanto era arrastada pelos corredores, chorando e gritando “eu sinto muito”.
Loki soluçava no chão e Frigga abraçou-o, ajudando-o a levantar-se.
– Acabou. Está acabado, meu menino. – ela enxugava as lágrimas de Loki com carinho materno.
– Não mãe... Não está. – Loki respondeu, decidido.
Frigga gritou um “não” antes de Loki desintegrar-se de seus braços numa aura negra que gelou o coração da rainha.
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