"SAIA DESSE QUARTO UM POUCO MENINA! CREDO, FICA AI TODO DIA".

Essa é a minha mãe. A mesma mulher que reclama quando eu saio muito.

Mas tudo bem, não levo pro lado pessoal.

Acho que vou chamar a Emma pra sair, a última vez que eu vi ela foi no dia que fomos no parquinho. Dia que criei a minha mal sucedida missão azul laranja.

Pena que, pra variar, ela não responde minhas mensagens. E confesso que tenho um pouco de trauma de aparecer na casa dela sem avisar.

Vou dar uma volta sozinha mesmo.

Nada melhor que ir pra um parquinho sozinha. Não há maior sensação de vazio que isso!!

Pera lá. Tem alguém. Sentado. No. Meu. Gira. Gira.

Me senti invadida, não gostei. Até porque nunca vi ninguém aqui fora eu, Mariana e Emma. E... Pera. Hmm conheço a pessoa. Ok.

Era a Emma.

— Ah ta, por isso que você não me responde. Tá em um parque sozinha — eu disse, fazendo Emma olhar pra trás bruscamente, por causa do susto.

— Meu deus, Carol. Oi. Desculpa por não ter avisado.

— Tudo bem. E você, como está? — eu disse, enquanto me sentava ao seu lado.

— Já estive pior.

— Hmm... Quer brincar? — perguntei, maduramente.

Emma sorriu e se levantou, me pegou pelas mãos e me levantou.

Nada melhor que brincar de pega pega em plenos 18 anos de idade. Pena que eu não aguento correr trinta segundos sem ficar sem ar.

— Eu disse! Você virou uma sedentária. Não consegue me pegar — Emma disse. Não gosto de ser testada.

— Te pegar? Claro que consigo.

Corri como se a minha vida dependesse disso. Funcionou.

Infelizmente eu não tenho freio, eu e Emma voamos pelo parque.

Ela caiu em cima de mim, ficou me encarando.

Emma, não é um bom momento pra ficar em cima de mim, pelo amor de Deus.

— Olá — ela disse, sorrindo.

E veio na minha mente todos os momentos dos meus sonhos em que a gente se encara e acaba se pegando. Normalmente eu evito manter o olhar, mas ELA ESTAVA EM CIMA DE MIM. Ai, ficar por baixo deixa você vulnerável demais.

E normalmente eu também não quero isso. Como se fosse algo errado fazer isso com ela. Estranhamente, não sentia isso agora. Queria até demais.

— Oi — respondi, mais sem graça do que eu desejava.

— Alguém aqui está vermelha — ela disse, com os olhos ainda fixados nos meus.

— E você não está púrpura. Ba dum tss.

E aconteceu o famoso beijo. Presente pra quem, aparentemente, sempre shippou eu e Emma, Sabrina e Mariana, basicamente.

É estranho eu estar achando infinitamente melhor que o beijo do Gabriel? Deve ser porque esse está durando infinitamente mais. Imagino alguém que esteja caminhando inocentemente pela rua e se depara com duas adolescentes fazendo isso em um PARQUINHO.

Parei de pensar nas demais coisas e me foquei em: Emma. Afinal, era ela que estava em cima de mim com a língua na minha boca. Ok, estranho mesmo foi falar isso.

E ela se afastou, voltando a me encarar. Dessa vez estava vermelha também. E tudo que eu conseguia pensar era por que parou?? Parou por que??

Emma se levantou e foi andando. Assim, indo embora. Me deixando jogada no chão.

Me levantei e fui atrás dela. Essa menina anda muito rápido.

— Emma?

Não olhou pra trás.

— EMMA!

E ela se virou. Com aquela carinha de quem está segurando o choro.

— Eu... fiz algo de errado? — perguntei.

— Não, Carol. Não fez — ela respondeu, vindo na minha direção — isso foi perfeito até demais. É eu que não sei lidar.

— Isso tem algo com o vermelho púrpura? — perguntei.

— Sim. Acho que é isso, na verdade.

— Ai. Emma...

— Olha, eu sei que desde o final do passado eu deixei muita coisa sem esclarecimento, tenho que te explicar tudo. Acho que devo contar agora — ela respondeu.

— Sim! Por favor! Eu não aguento essas coisas sendo escondidas de mim por tanto tempo.

— Mas foi por um bom motivo, eu juro. Não é algo que dê pra sair falando. Primeiro, o Gabriel não fez nada de errado! Nunca fez! Me sinto mal por ter dito aquelas coisas pra você, ele é bom até demais. Muito certo. Desculpa por ter atrapalhado isso entre vocês — Emma estava prestes a começar a chorar, eu podia sentir.

— Calma, eu não entendo o porquê disso.

— É que...

— Ta MUITO confuso isso, na verdade. Tudo anda esquisito demais! Eu passo mal todos os dias, não to aguentando. É você me beijando hoje, foi o Gabriel me beijando ontem...

— Foi o QUE? Porra, Carol! — Emma começou a chorar.

Tinha que ser eu pra interromper e falar bosta. Inclusive, acho que o karma veio rápido demais. Senti novamente aquela sensação de facada no abdômen, me ajoelhei no chão. Tava forte demais. Ouvi os passos de Emma, correndo na minha direção. Desmaiei.

Foi diferente de tudo que eu senti até agora. Eu sentia toques em mim. Ouvia vozes, como se eu estivesse em um hospital e os médicos não calavam a boca a minha volta. Senti uma picada no meu braço, algo sendo injetado em mim.

Acordei no sofá de casa. Com a minha mãe sentada do meu lado e Emma no outro sofá.

— Carol? Tudo bem? Emma me ligou dizendo que você desmaiou do nada e fui te buscar — minha mãe disse.

— Acho que sim... — e apaguei, novamente. Seja lá o que está acontecendo comigo, não é bom.

Acordei, de novo, mas dessa vez eu estava na minha cama. Sem Emma por perto.

— Mãe? — eu disse, minha tentativa de gritar foi falha. Mas a minha mãe apareceu na hora na porta do meu quarto.

— Oi filha! Quer que eu te leve no médico? Sinceramente eu não sei o que fazer. Porque quando você era menor você desmaiava sempre, por causa da sua pressão baixa. Eu comprei o remédio que você tomava, quer? Ou posso te levar no mé...

— REMÉDIO! Quero! — respondi. Eu sei que não é igual aos desmaios que eu tinha, mas só de pensar em médico o meu abdômen doía mais ainda.

— E mãe... A Emma foi embora? — perguntei, antes que ela saísse do meu quarto.

— Sim, na verdade eu acabei de chegar em casa, levei ela. Se você tivesse acordado cinco minutos antes...

Que ótimo. Nem pra acordar eu sirvo.

Ainda estou tentando acontecer tudo que aconteceu hoje.