Vermelho
1 Vermelho (único)
Vermelho.
Sim, vermelho era o tom que amava o tom também que odiava. A cor que vestia e somente em si combinava com maestra supremacia. A cor dos olhos que choravam e da boca, de suas paixões irracionais. De todas as incontáveis paixões que em si dilatavam as veias. A cor das rosas dos apaixonados, dos hematomas dos maculados. Era a mesma cor do fogo que queimava, enquanto sorvia o vermelho tinto de uma sangria.
Um vermelho assim devocional de um modo assim feito um pecado carnal. Vermelho dos dias de rancor, vermelho de sangue, ao rubro de amor. Aquele amor que envenena amor que despedaça amor que alimenta amor que não perdoa amor que estilhaça, amor que desdenha é somente o amor que mata. Um amor que não tem ternura que não vem do coração.
Era aquele mesmo vermelho, cor de ira, cor de fome. Vermelho como pecado que tomou a alma exangue, e como nascer ‘plebéia’, vermelho cor de seu sangue.
O vestido armado tão vermelho quanto seus cabelos, de um tom de vermelho conquistador que enche de sensações, aromado de sensualidade de desejo que arde. Vontade lasciva, que queima como a brasa vermelha, que o fogo queimava em sua lareira.
O vermelho de suas íris, o vermelho que lhe cobria a pele em momentos de insanidade, o vermelho dos ventres que abria mesmo contra sua vontade. Vermelho de sangue, vermelho de dor. Vermelho do mesmo fogo que consumira seu amor. E por isso o odiava, mas era aquela cor que a lembrava dele. E por isso a ostentava, com seus sorrisos vermelhos.
E aqueles olhos amarelos, mudando sua vida dramaticamente, com os longos cabelos do mesmo vermelho persistente. O ser sombrio lhe sorria, curvando-se como um criado obediente. O vermelho dela o fascinava e sua mente conturbada lhe seduzia. Ela era uma Dama e uma Vadia. O vermelho fora feito para ela, disto todos sabiam.
Domesticado, devotado, emaranhado pelo vermelho que ela exibia, era seu fiel escravo, seu vassalo para apenas satisfazer suas vontades, seus desejos vermelhos, fosse noite, fosse dia.
O vermelho do sangue das virgens defloradas, o cheiro da carne sendo rasgada, o metálico vermelho adocicado que das feridas vertiam. Ele se deliciava, aquela mulher era uma artista. E com os sentidos despertos, movido pelo vermelho, apenas pelo vermelho roubara-lhe os lábios daquele tom rubro colorido. Sugando-lhe a língua. Vermelho, sua obsessão.
As marcas deixadas pelo desejo manchado eram vermelhas como o seu maior pecado. Entre corpos sem vida faziam aquele amor devasso, seus vermelhos se mesclando, suas intimidades se afundando. Vermelha era a cor de sua vergonha, a cor de seu sexo. Vermelho lhe estampava quando ele lhe empalava gritando ode a si por ser tão perfeita. Por ser... Por ser vermelha.
Vestia o vermelho da morte que carregava, pintava-se com o vermelho que ele tanto adorava, sujava-se de vermelho agora para outro lhe amar. Naquela melodia que de tão devassa deveria ser vermelha, da mesma cor do fogo em que sabia que arderia, quando enfim para o inferno fosse.
E quem diria, que ele o seu vermelho feriria, tirando de suas veias o tom de tamanha idolatria, vermelho estendia-se da ferida, e o seu passado percorria seus olhos vermelhos, cansados. Nunca pudera ser mãe, nunca pudera ser completa mulher. Então, desmanchar-se-ia em vermelho, pois vermelho era seu destino e vermelho seria seu fim. O doce fim, esvaído em um vermelho carmesim.
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