Os primeiros indícios da noite começavam a surgir. O céu recebeu uma coloração escura composta por cores afogueadas e o sol se retirava no horizonte, aguardando em meio a um brilho forte e dourado a lua chegar. Uma a uma, as estrelas foram surgindo e se espalharam pelas neblinas noturnas. Findando-se o espetáculo de cores, como que de supetão, a cor negra alastrou-se de norte a sul, mostrando que mais um dia se fora.

Um rapaz alto, corpulento, incrivelmente pálido e vestindo roupas negras que estendiam-se até os seus calcanhares caminhava com a cabeça baixa e as mãos sobre os bolsos de seu manto. Notava-se que este estava com pressa; a cada novo passo, agilizava-se.

Deparou defronte a um portão alto e cheio de detalhes, o mediu de baixo a cima; julgou-o antiquado demais, também pudera, a mansão logo à frente deste portão estava caindo aos pedaços, com vidros quebrados, teias de aranha e um cheiro forte de naftalina sentia-se mesmo ali fora. Parecia ser uma casa abandonada, mas ele sabia que esta hipótese não era verdadeira. Ali naquele grande terreno vivia uma senhora de uns cem anos junto aos seus cem gatos, que perambulavam por todos os cantos, inclusive nas telhas trincadas. Mas o que o bonito jovem, docilmente apelidado de Vermilion – devido aos seus lábios de um vermelho vivo, quase da cor do sangue -, de não mais que vinte ou vinte e dois anos de idade, fazia neste território macabro e deprimente?

Vermilion tentou forçar o portão a fim de abri-lo, mas não obteve bons êxitos. Resolveu pular sobre ele, e, agarrando-se em uma de suas curvas metálicas e enferrujadas, pegou impulso suficiente para fazê-lo. Já podendo pisar sobre o gramado seco do jardim da Senhora Lucinda, desviou o seu olhar para um canteiro de rosas rubras. Apanhou apenas uma, a mais bela, cujas pétalas gotejadas pareciam ser feitas de puro sangue. Fechando os seus olhos cinzentos, sentiu o aroma desta, demonstrando o prazer que sentia naquele momento, a satisfação em estar perante tal nobreza, tal magnificência da natureza! A rosa, cuja beleza infinita encanta tantas pessoas...

Um dos gatos de Lucinda aproximou-se dele, alisando os seus volumosos pêlos alaranjados em seu manto escuro. Recebera um agrado de Vermilion, e então, saiu em disparada com o intuito de perseguir um pequeno camundongo que acabara de sair dentre as moitas.

Vermilion sorriu; colocou a rosa em um dos bolsos e pulou de volta para o outro lado. Por fim, seguiu o seu rumo, e como de praxe, acelerava os seus passos a cada toque de seus calcanhares no asfalto.

Estava ventando muito, o bastante para mover as madeixas negras do rapaz, ou levar ao leste as folhas secas recém caídas das árvores. Abraçando-se a si mesmo com o intuito de aquecer-se, parou ao lado de um candeeiro, cuja lâmpada tremeluzia.

Uma jovem de longos cabelos cacheados aproximava-se de Vermilion, apertando-se em seu casaco de pele. Sorriu assim que o viu, este fez o mesmo. O rapaz enfiou a mão esquerda em seu bolso; a jovem não deixou de notar as veias salientadas nesta.

- Uma rosa... – disse ele, entregando a flor para a bela moça. — ... Para outra rosa, Anette.

Ela pegou a rosa da mão de Vermilion, sem notar que uma das pétalas ficara com ele, sem querer. O instinto do seu humano ao ver esta flor belíssima é sempre o mesmo: levar até as narinas para sentir a sua fragrância inigualável; e fora isso que a jovem fez. Cerrou os seus olhos verdes como uma esmeralda, inspirou com delicadeza e foi exalando o ar aos poucos, liberando discretas nuvens de vapor devido ao frio que fazia.

- Obrigado. – disse ela, sorrindo. – Esta é ainda mais cheirosa do que a de ontem!

- Era a mais bonita do canteiro. – revelou Vermilion, satisfeito com o entusiasmo de sua companheira. – Mas ela precisava pertencer a você, antes que algum moleque travesso a arrancasse e a despedaçasse por pura crueldade.

- Mas um dia isto também acontecerá com esta. – disse Anette, com um brilho diferente em seus olhos.

- Todavia, sempre lembrarás dela de como ela foi, não de como ficou; isto é o importante!

E dita estas palavras encantadoras, Vermilion pegou nas mãos de sua amada. Espantou-se ao notar que não estavam geladas com aquele frio, pelo contrário, possuíam um calor diferente, o calor humano de alguém apaixonado, ou pensava isso.

Ficaram se olhando por um longo tempo. As mãos unidas, aquecendo uma às outras, acariciando-as... Vermilion aproximou os seus lábios finos com os carnudos de Anette e a beijou ternamente.

- Encontro-te amanhã novamente? – indagou Anette, sorridente.

- Não nos veremos mais depois desta noite, meu amor... – respondeu Vermilion, ostentando um semblante deprimente. – Eu sinto muito...

Assim que viu os olhos do rapaz adquirindo uma tonalidade alaranjada como o fogo, Anette só pensou em largar das mãos deste o mais rápido possível. Acabou se ferindo com os espinhos da rosa que estava entre as palmas dos dois, fazendo com que pequenas gotículas de sangue escorressem por seus finos e delicados dedos.

Vermilion a puxou de volta e beijou-a como nunca, mesmo Anette tentando evitá-lo. A jovem sentia algo afiado tocando os seus lábios e, só depois que conseguiu se soltar de Vermilion foi que percebeu os dentes caninos, brancos e afiadíssimos deste. Tamanho fora o seu espanto que nem mesmo conseguiu gritar. Só queria pensar em fugir, mas não tinha forças para tal.

O jovem vampiro agarrou o pescoço da amada, o mordeu e começou a sugar o seu sangue quente. As veias de seu rosto adquiriram uma saliência maior e era possível ver o sangue percorrendo por elas, como num passe de mágica.

Vermilion soltou Anette bruscamente, fazendo com que esta viesse a cair. Limpou o sangue de seus lábios com o manto, aproveitando ao máximo aquele incrível momento. Já podia sentir o seu coração bombeando sangue dentro de si e espalhando-se por suas veias. Pela primeira vez em muitos anos, não estava com as pontas dos dedos frias como o gelo, pelo contrário, subia-lhe uma quentura deliciosa por todo o seu corpo. Sorria de prazer! Erguia os braços e gargalhava por ter quebrado aquela maldição que o consumira durante noventa longos anos! Estava VIVO novamente!

VIVO! VIVO!!!

Entretanto, algo estranho aconteceu. Seus dentes, embora não mais afiados, começaram a amarelar, desviando-se uns dos outros, envelhecendo-se completamente. Seu rosto ardia como o inferno, parecia que o mesmo estava derretendo. Olhou para as mãos, acontecia o mesmo; rugas surgiam-se por todos os dedos, as unhas apodreciam-se e manchas escuras espalhavam-se. Começou a se sentir fraco, com fortes dores, nem mesmo podia enxergar direito. Gritou de angústia! Que tamanho castigo recebera!

Com as costas curvadas, distanciou-se do corpo de Anette cambaleando feito a um bêbado. Ajoelhou-se em frente a uma poça d’água que refletia a lua cheia. Espantou-se com a sua imagem! Não tinha mais aquele belo rosto jovial, nem os seus maravilhosos lábios vermelhos; sua pele estava completamente encarquilhada, assim como os beiços, agora caídos. Desesperou-se! A maldição continuava! Os reflexos dos anos que viveu surgiram em menos de cinco minutos...

Ah!, como ele não gostaria de ter feito aquilo. Neste exato instante, poderia ser o jovem Vermilion apaixonado pela bela Anette, que agora jazia moribunda com uma poça de sangue embaixo de seus volumosos cabelos dourados. Poderia estar vagando pelos cemitérios a procura de novas vítimas, feliz da vida, ou da morte, convenhamos. Mas não! Optou morder aquela que amava, aquela que, segundo a profecia, poderia lhe libertar da maldição vampiresca.

Ao olhar para o corpo de Anette, derramou lágrimas de sangue, literalmente. Tão bela, tão frágil... Agora, prestes a ser vítima da mesma maldição. Se soubesse que ela não o amava como ele a amava, lhe pouparia, mas... era tarde demais!

Com dificuldade, aproximou-se de Anette. Brincou com os seus cachos e sorriu pela última vez antes de cair falecido sobre o corpo dela.

O vento soprou sobre eles, a rosa se desfez, e as pétalas, por sua vez, dançaram no ar maravilhosamente. Uma a uma, pousaram sobre os corpos e quem visse aquela cena, jurava que as pétalas ficaram numa forma peculiar, parecida com um coração, mas aos pedaços.

A qualquer instante, Anette se levantaria para a morte e passaria a recolher vítimas para a sua “sobrevivência”. A qualquer instante, deixaria de ser rosa para se tornar espinho...

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