Vergonha
1 VERGONHA
Beira a meia noite. Por trás das luzes de uma cidade viva, há um sociedade doente. Ford Corcel Ii Hobby 1980. Os integrantes desta vida noturna não se importam com o seu carro, após longas tragadas para algumas tantas batidas, só querem ver a cor e o cheiro do dinheiro verde. Ou vira leite ou três gramas de pó, rezam todas as noites para Jesus e agradecem pregando Ele numa cruz.
Cavam fundo suas fossas, e não esperam respingos, uma chuva de prata é o melhor líquido para uma noite.
Atolo o boné, e dirijo com luz baixa, um veículo rebaixado feito o seu dono se iguala ao asfalto sórdido. Meu olho direito arde, sinto o cheiro do meu suor e engasgo com a saliva, procuro fazer o mínimo de barulho possível, ainda assim presencio alguém me fitando no abismo da madrugada.
Faço a curva e chego no museu, artifícios, obras, todos os desejos e necessidades resumidas em pessoas sem curvas.
Alguns preferem a chuva dourada, lembram da infância quando o choramingar das nuvens causava resfriados, e a mãe mandava entrar, nervosa enxugava, desesperada pela saúde.
Os Dionísios produzem-se para ganhar trocados, esses são os verdadeiros moradores de rua, ordenam esmolas em troca de seus orifícios. E dormem em uma sarjeta, drogados ou assolados por um pileque que distancia-se do homérico.
Corpos e mais corpos perambulando pelas calçadas, rodando bolsas e não deixando a peruca cair, devem manter o papel, o predatismo sexual deve ser o animal no topo da cadeia. Passo pelos cadáveres a venda. Pisco, hesito, e sem sorrir, espero ouvir a oferta. Com uma voz desengonçada, que nada simula uma voz verídica, apenas usando o dedo indicador... Adentra meu carro. Partimos para um apartamento barato, usado para esses atos mirabolantes.
O tic-tac do relógio pregado no teto encheu-me de angústia, enquanto saliva e pelos se misturavam a minha textura, sentia nojo do meu corpo, da minha vida, uma ânsia por mudança me invadiu, logo esvaiu-se. Expeli, contorcendo-me. O orgasmo é um veneno numa crise de abstinência.
Deixei o “sereno” na rua, igualando-me a um fugitivo não querendo ser reconhecido, ouvi um “boa noite”, o silêncio da vergonha foi a melhor solução.
Havia perdido a hora, porém nada me fazia ir mais rápido, chegando em casa, abri a porta devagar, suando frio, através da fresta de uma das portas, vi minha bela menina dormir com seus cinco anos de juventude, na porta ao lado, com o abajur aceso pelo seu medo, hibernava o meu garoto. Na surdina, subi as escadas, abri a porta e esperei o último pingo de suor frio tintar o chão, feito uma donzela adormecida, Lúcia estava no quinto sono, retirei minha roupa, joguei-a ao chão, cobri-me, alojei-me entre suas coxas, e fechei os olhos, simulei o sono e mordendo os lábios, esperando sangrá-los, vesti o cinto de Cilício, vesti a arcaica carapuça, e mesmo sabendo o quão danoso o vício se mostrava, lastimei-me por ter me entregado pela milésima vez ao meu sepulcro. Penetrando meu instrumento com infelicidade, infidelidade e um fedor mascado, com hálito de cigarro.
Não é oculto para ninguém, todos temos os nossos segredos, e por trás de máscaras o pássaro negro almeja voar. Quando decidir soltar, ponha em cheque que apenas o mais forte sobreviverá. Quando um predador tem um filhote aleijado, ele não cuida e nina-o, alimentasse de sua carne. Seja a sua cura ou o seu próprio tumor.
FIM
07/11/14
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