Verde e Prata (Scorpius Malfoy/Albus S. Potter)
1 Capítulo Único.
O salão comunal da Sonserina estava quase completamente vazio. As brasas crepitavam preguiçosas na lareira, projetando sombras dançantes nas paredes de pedra úmida, enquanto o som distante da água sussurrando nos encanamentos contribuía para uma sensação de recolhimento abafado, típica das noites mais silenciosas de Hogwarts.
Albus Severus Potter estava afundado em uma poltrona de couro escuro, com os cotovelos apoiados nos joelhos e as mãos entrelaçadas sob o queixo. Os olhos — verdes como os do pai, mas mais sombrios sob a luz vacilante do fogo — estavam fixos em uma figura do outro lado da sala.
Scorpius Malfoy.
Ele estava encostado junto à janela encantada que revelava as profundezas escuras do Lago Negro. A luz azulada refletida pela água dava ao seu rosto um aspecto quase etéreo, como se não pertencesse inteiramente àquele lugar. Os cabelos loiros estavam ligeiramente bagunçados, e os olhos — de um cinza metálico que parecia brilhar prateado à luz da lareira — fitavam o nada com uma expressão que oscilava entre o cansaço e o devaneio.
Havia algo nos ombros tensos, na maneira como os braços cruzavam o peito, que falava de uma inquietação que Albus conhecia bem demais. Era o tipo de silêncio que não vinha da paz, mas da guerra travada por dentro.
Albus se levantou.
Cada passo que dava em direção a Scorpius parecia puxado por algo mais antigo que os dois, mais forte que o medo que os paralisava. Com as mãos afundadas nos bolsos do robe, ele parou a menos de um metro de distância, o coração martelando no peito como se tentasse se fazer ouvir.
— Você não conseguiu dormir também? — murmurou, tentando soar casual, embora a voz saísse mais baixa do que imaginava.
Scorpius desviou o olhar da janela, encarando-o.
Os olhos dele eram lindamente frios, como a superfície de um lago prestes a congelar — e, ainda assim, havia calor ali. Um brilho que apenas Albus parecia ser capaz de ver.
— Não — disse ele, com simplicidade. — Estava pensando.
Albus respirou fundo. A luz da lareira tingia os contornos do rosto de Scorpius em tons dourados e prateados, e naquele momento, ele teve certeza de que jamais conseguiria olhar para outra pessoa do mesmo jeito.
— Pensando em quê?
Scorpius hesitou, e por um instante pareceu procurar as palavras entre as brasas da lareira. Quando respondeu, sua voz era mais baixa do que o habitual, como se dissesse algo que não queria que o castelo ouvisse.
— Você sente como se… algo estivesse mudando? — disse, por fim. — Tipo… entre nós?
Albus sentiu o mundo parar por um instante.
Era aquilo.
Era finalmente aquilo.
— Sim — sussurrou, sem conseguir mais mentir. — Eu sinto isso o tempo todo.
Scorpius mordeu o lábio, hesitando. E Albus, que o conhecia bem demais, viu que ele estava lutando contra as próprias emoções. Scorpius sempre foi o lado mais emocional, nunca teve medo de dizer nada do que estava sentindo. Mas agora… agora havia algo frágil ali. Algo que só aparecia quando estavam sozinhos.
— Às vezes eu me pergunto… — começou Scorpius, a voz embargada — se você sente o mesmo que eu. Porque se sentir, isso muda tudo. E se não sentir… bom, eu prefiro não descobrir.
Albus sentiu os olhos arderem. Ele queria gritar que sentia, que estava sentindo desde o terceiro ano, desde aquela vez em que se esconderam juntos na biblioteca para fugir do monitor, e Scorpius segurou sua mão por tempo demais. Desde que percebeu que a única coisa que fazia sentido em Hogwarts era estar perto dele.
Mas tudo o que conseguiu fazer foi dar mais um passo. E outro. Até que estivesse tão perto que podia sentir a respiração dele.
— Eu sinto, Scorpius.
A confissão saiu como um sopro, mas foi o suficiente. O suficiente para fazer o loiro fechar os olhos por um segundo, como se estivesse aliviado por não estar mais sozinho naquele sentimento.
— Você me deixa maluco — disse, rindo de leve, como se ainda estivesse tentando se proteger atrás do humor. — Maluco de verdade. Às vezes eu odeio o quanto gosto de você.
Albus sorriu.
— Eu também. Não o "odiar", mas o resto. Eu… nunca soube explicar isso. Nunca tive coragem. E você sempre foi tão…
— Intocável? — completou Scorpius, com um olhar doce.
— Brilhante. — Albus corrigiu, olhando para ele como se só agora pudesse dizer tudo que sempre quis. — Confiante. Confuso. Perfeito, do jeito mais irritante possível.
Scorpius riu, e a risada foi como uma faísca naquele momento tenso. Mas, logo em seguida, o riso morreu nos lábios. Eles estavam tão perto que era impossível ignorar. As palavras não bastavam mais.
Mas o medo ainda estava ali, entre eles.
— Se a gente se beijar agora… — murmurou Scorpius, a voz quase quebrando — …Não tem mais volta.
— Eu não quero voltar — respondeu Albus.
Scorpius hesitou por um segundo a mais. Mas o que os impedia já não era mais a dúvida — era o medo.
O medo de serem quem eram.
Filhos de nomes pesados.
Esperados para carregar heranças, não para quebrar padrões.
Esperados para esconder sentimentos, não vivê-los.
O medo de que, lá fora, aquilo que nascia em segredo pudesse se transformar em algo perigoso demais para existir à luz do dia.
Mas ali…
Na penumbra da Sonserina…
Entre o olhar verde de Albus;
E o olhar cinzento prateado de Scorpius…
Eles podiam ser só dois garotos.
Apenas isso.
E foi isso que foram.
Albus estendeu a mão.
Scorpius segurou.
O mundo ainda era complicado.
O medo ainda estava ali.
Mas não naquele momento…
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