Verdades de um passado escondido
2 A última carta
Notas iniciais
Luana entrou na casa bem devagar. Ela sabia que deveria ser rápida, sua mãe Daiana estava esperando. Elas, o seu pai Igor e seu irmão Flávio iam viajar de volta para o Rio, onde moravam. Tinham vindo para o interior do Paraná para o enterro de seu avô, Mário. Mesmo assim, caminhou lentamente até a sala. Algo estava errado.
Luana percebeu o quanto sua avó ficou abalada e não sairia da cidade sem ver como ela estava. Se bem que a casa dos seus avós ficava praticamente no meio do nada, o vizinho mais próximo morava a 2km de distância. Mesmo assim, o casarão de dois andares pertencia ao município de Gralha Azul.
No dia anterior, sua avó, Priscila, garantiu a todos que ficaria bem sozinha e por isso a casa estava vazia. Luana andou da sala para cozinha chamando a avó.
Nenhuma resposta.
Ela sentiu um aperto no peito e ficou com medo de subir a escada até o segundo andar onde ficavam os quartos.
Gritou para seu irmão mais velho Flávio que tinha trazido ela até ali de moto e estava esperando no lado de fora. Num segundo ele estava no seu lado. Juntos eles subiram as escadas.
Luana chamou a avó novamente, mas não obteve resposta. Eles entraram no quarto da vó. A cama estava arrumada e a porta que dava na sacada estava aberta. Lá estavam duas cadeiras de praia e deitada numa delas estava o corpo inerte da avó dos garotos.
Flávio e Luana chegaram mais perto, desta vez Flávio chamou pela avó. Ela nem se mexeu. Luana pegou na mão da vó.
Estava fria.
Luana fechou os olhos com força, tentando conter as lágrimas e deixou ser abraçada pelo irmão. Quando Flávio se deu conta, também estava chorando. Ele conteve as lágrimas e olhou para a avó. Ela estava sorrindo.
– Veja Luana, ela está feliz. Aposto que está com o vovô agora.
– Ela devia estar pensando nele- Ela disse, sorrindo em meio as lágrimas.
– É, devia mesmo- ele concordou- Acho melhor eu avisar a Daiana.
– Tá -ela respondeu se sentando na cama enquanto Flávio pegava o celular.
Ela suspirou triste tentando aceitar que sua avó se fora. Sua mãe Daiana não era exatamente um excelente exemplo de mãe. Tanto que seu irmão nem a chamava de mãe. Sua avó Priscila, ao contrário era extremamente carinhosa, amorosa e paciente. Sentiria muito a sua falta.
Luana observou bem o quarto dos avó. Tudo bem organizado, como sempre. Algo sobre a mesa no cantinho do cômodo lhe chamou a atenção. Uma folha toda escrita em uma caligrafia que, mesmo de longe, parecia perfeita.
Luana pegou a folha e começou a ler. Ficou surpresa com o que estava escrito.
Flávio desligou o celular.
– Daqui a pouco o pai e a Daiana chegam- ele disse.
– Flávio, você precisa ver isso, disse Luana passando a folha para ele.
– E o que é isso? -Perguntou.
– Veja só, ela disse e ele leu o papel.
Assim estava escrito:
Essa é minha última carta. Sei que meus netos irão ficar mais desconsolados do que qualquer outra pessoa, mesmo assim, hoje eu vou partir.
Há tempo já eu escrevi um testamento, onde divido todas as minhas propriedades e bens e onde também está escrita a verdade. A verdade que só eu e Mário conhecíamos.
O testamento, devidamente registrado no pequeno cartório de Gralha Azul e assinado pelas testemunhas necessárias, está nas mãos de meu advogado e amigo Odair Kalvolkis Filho.
O testamento é cerrado, ou seja, será aberto e lido apenas depois de minha morte mas decidi avisá-los antes que saibam por outras pessoas.
Antes de terminar, quero fazer um pedido que não se encontra em meu testamento: Flávio, Luana, meus queridos, descubram a verdade e terminem o que eu não consegui fazer.
Esse é meu último pedido.
Priscila Maria Ferreira
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