Verdadeiros Audaciosos
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Notas iniciais
Tobias.
Como deixar essa garota escapar? Como poderia eu não me apaixonar por tudo nela?
Estou pensando no que devo fazer, se tenho o direito de querer essa garota, que parece tão frágil, mas tem uma força que ainda não encontrei dentro de mim.
Tris. Me pego pensando nela enquanto observo as câmeras. O lugar onde antes eu tinha tanta paz, hoje tem me deixado ansioso.
Depois de ter exposto os planos de Max e Jeanine com os arquivos que peguei no computador dele, as coisas ficaram bem sérias. Primeiro não acreditaram em mim, e eu cheguei a ser expulso da facção, por traição. Fiquei uns dias com minha mãe e os sem facção, mas não me adaptei aquele lugar e aos seus ideais, e acabei saindo a vagar pela cidade.
Depois, quando começaram a implantar os chips nas pessoas, dizendo que era pra controle da população, Zeke, Shauna e Tori deram o grito, dizendo que tinha alguma coisa naquilo. Todos os membros ficaram alarmados e fizeram alguns exames, descobrindo o soro da simulação modificado nas seringas. A partir daí, investigaram os arquivos de Max, e descobriram sobre o ataque à Abnegação, mas Jeanine foi mais rápida e ativou os Audaciosos que já tinham recebido o soro. Eles partiram para o ataque na calada da noite. Por sorte eu estava rodando pela cidade e percebi os movimentos estranhos, fui direto até a Audácia pedir reforços para conter o ataque.
Quando chegamos à Abnegação, uma boa parte da facção estava de joelhos sobre suas calçadas, com armas apontadas para a cabeça. Alguns jaziam mortos em suas portas.
Alguns audaciosos foram abatidos por nós, e outros contidos. Mas o estrago já tinha sido feito. Famílias destruídas, alguns líderes mortos.
Jeanine e Max foram detidos e destituídos de seus postos de destaque, assim como muitos dos membros do conselho. Mas contra Eric nada pode ser feito, pois não foi provada sua participação em nenhum dos atos. Somente foi retirada dele a autoridade de treinar os iniciados, pela maneira covarde como estava conduzindo as preparações. Tori e Harrison foram escolhidos pelos audaciosos para assumirem o poder, deixando assim uma vaga em aberto, para ser preenchida posteriormente.
Quanto a mim, fui readmitido a Audácia, condecorado por bravura e restituído a meu antigo cargo.
A turma de iniciado que resistiu ao último treinamento terá sua formatura essa tarde, e tenho decisões importantes a tomar. De que forma devo agir com ela? Devo continuar fingindo que entre nós não há nada por enquanto? Ou devo me agarrar a ela no meio de todos e não soltar mais? Não sei que decisões tomar, nem qual ela esperaria que eu tomasse.
– Acho que você deveria descansar um pouco. – Diz Gus, me tirando de meus devaneios.
– Estou bem. Daqui a uma hora já termino meu turno.
– Sério Quatro, pode ir descansar. Afinal, daqui a pouco sua turma de iniciados se formará, e receio que pelo menos alguns deles gostariam de sua presença.
Com um pouco de alívio, desligo meu computador e vou em direção a meu apartamento. Os corredores estão vazios e só há algumas pessoas em volta do abismo.
Deito em minha cama e fico pensando em tudo o que aconteceu e em como vou fazer para tirar Eric do poder, ou em como vou observar seus passos de agora em diante. Escuto uma batida na porta. Mando entrar, e me aparece uma Tori um tanto quanto abatida, com um riso que não chega aos seus olhos.
– Posso falar com você um instante? – Ela pergunta meio sem graça.
– Claro, sou todos ouvidos. – retribuo seu sorriso.
– Vou direto ao assunto. Precisamos de um líder para preencher o espaço vazio. E em uma conversa com Harrison, chegamos à conclusão de que você é o melhor indicado para o cargo. Já que foi graças a você que descobrimos todas as falcatruas cometidas pela antiga liderança e ainda graças a você conseguimos deter o ataque de Jeanine. Juntando isso ao fato de que você já foi indicado ao cargo, e não aceitou por não concordar com a maneira como a Audácia estava sendo conduzida e ao fato de que ficará mais fácil para controlar Eric e suas ações, – ela dá um suspiro – temos que concordar que você é mesmo o mais qualificado, e resta saber se você está interessado. Você está?
– Bom Tori, estava mesmo pensando em como manteria um olho no Eric. Mas não sei se deveria aceitar sua proposta, em que ela implicaria?
– Digamos que você continua supervisionando os iniciados. Não como instrutor, claro, mas coordenando os ritos de inicialização, de forma a termos de volta a Audácia da maneira que foi idealizada, e para a qual você se inscreveu.
– Bom, isso era o que eu queria fazer na primeira vez que Max me procurou.
– Pois é, Quatro. Sabemos disso pois que as câmeras dele foram abertas, e tivemos acesso ao que se passou por lá nos últimos anos.
– Mas ainda fica uma pergunta no ar. Qual será a posição da Audácia em casos de divergência? – Tinha que fazer essa pergunta. Eu sei que em Tori posso confiar para falar sobre isso. Afinal, George, seu irmão foi morto por ser divergente. Da mesma forma que Amar, que também era seu amigo, jogados no fundo do abismo. E ela me ajudou a esconder minha divergência, assim também como a de Tris.
Dessa vez o sorriso chega a seus olhos, apesar de eu ainda notar o cansaço instalado neles.
– Sabia que você tocaria nesse assunto.
– Como não tocar? – eu rio exasperado.
– Pois é. Esse assunto ainda fica sendo sigilo. Pois apesar de concordarmos que os divergentes devem viver, ainda temos que escondê-los do resto da população. E apesar de Cara e Caleb serem um pouco mais sensatos com relação as decisões cabíveis à Erudição, ainda não confio nos eruditos. Por isso eu e George os deixamos e escolhemos a Audácia. Para ficar longe de seus olhares tiranos quanto à Divergentes.
– Mas e as outras facções? Talvez elas ficassem do nosso lado.
– As demais facções deveriam ter a mesma posição que a nossa, mas como sugerir isso a elas? E se arriscarmos tudo o que podemos construir aqui na Audácia?
– Você tem razão. Então nos resta coordenar os Divergentes para que escondam ao máximo sua situação, para que não apontem isso em suas simulações.
– Basicamente isso. O mesmo que Amar fez com você.
– E eu e você fizemos com Tris. – Eu digo. Confessando a ela com um sorriso sincero que eu sei o quanto ela ajudou a pequena, e o quanto eu fico feliz por isso.
Ela me devolve o olhar, me especulando. Procurando por aquilo que sem querer estou deixando transparecer.
– Sabe, você deveria agarrar essa menina pra você, antes que outro faça isso. Percebo o quanto você cresceu e se tornou acessível simplesmente por estar apaixonado por ela. – Eu endureço minhas feições.
– Você está me chamando de molenga, Tori? – Ela nega com a cabeça. – Pois parece que está. – finjo uma carranca.
– Estar apaixonado nada tem a ver com ser mole. Você pode entender isso muito bem.
– Sim, eu posso entender. E parece que você também consegue entender isso. – dou um sorriso cumplice pra ela. Ou ela acha que não percebi seus flertes com o Harrison.
– Bom, mudando de assunto: você aceita a proposta? É pegar ou... pegar. – ela ri.
Esperta, mudando de assunto convenientemente, mais durona que muitos audaciosos que eu conheço.
Penso nos prós e nos contras. Tem a vantagem de eu ficar de olho no Eric, modelar as escolha de novos audaciosos, premiando a bravura e desencorajando a covardia. Contra o tempo que será dispensado a isso, se ficarei sobrecarregado. E também tem o fato de ter que me encontrar com Marcus, caso eu precise ir às reuniões dos conselhos da cidade. Mas esse medo já foi superado, Tris me ajudou a superá-lo.
– Ok. Eu topo. Tá na hora de ver a Audácia como ela verdadeiramente deve ser. – eu falo com convicção.
– Ótimo, pensei que você fosse dar um pouco mais de trabalho, mas sabia que essa seria sua decisão. – ela caminha em direção à porta. – Te vejo daqui a pouco na formatura. – e fecha a porta ao sair.
Volto a cair na cama, dessa vez com um sorriso fixo no rosto. A maioria das minhas preocupações já não me atormentam mais.
Só falta uma coisa para que elas desapareçam. Eu vou em direção ao banheiro, para tomar uma ducha. Eu vou resolvê-las o mais rápido possível. Afinal, devo pensar no que a Tori me falou, e não deixar outro tentar tomar o meu lugar no coração da pequena.
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