Notas iniciais
mais uma parte pra vocês. Estamos agora, na metade do caminho. 2020: Mais um capitulo devidamente revisado e alterado. :D

O choque bateu em meu corpo como um soco bem forte e os mesmos sintomas que tive antes voltaram de uma vez só. Quase vomitei ali mesmo tudo estava presente de novo. A expressão no rosto dele era um misto de choque com surpresa, talvez repetisse um pouco da expressão que eu própria estava fazendo. Deveria saber, como advogada, que por mais que as probabilidades fossem quase nulas, ainda existia chance delas acontecerem.

Por um instante, me esqueci completamente de como respirar e de quais eram as técnicas, ensinadas a mim anos antes, de como me acalmar em momentos como esse. Ao que parece, não consegui me recompor rápido o suficiente, mas ele sim. Após a pequena surpresa, ele sorriu de canto entre as poucas lágrimas que escorriam, depressa as limpou e estendeu a mão para mim, me cumprimentando.

− Sou Ronald − disse sorrindo simpático – Mas pode me chamar de Ron.

− Herm... Hermione – repeti, depois de uma breve tossida enquanto estendia minha mão para o cumprimento – Pode me chamar de Mione.

− Pensei que nunca mais a veria − disse me fitando com um sorriso tímido no rosto e apertando a minha mão. Parei por um instante.

− Igualmente – respondi sorrindo e retirando a minha mão da dele, desviando o olhar para o copo logo depois;

− Me desculpe novamente pelo outro dia. Tanto pelo café que derrubei em você quanto pela Lilá. – Então esse era o nome dela?

− Esquece isso.

— Se você diz... Então já esqueci.

Era incrível a rapidez que meu coração batia, e ainda mais maravilhoso como ele me conseguia me pôr nervosa apenas com sua presença e me pôr tão à vontade com sua voz.

− Então o que faz à noite em um parque praticamente vazio e com um café em mãos? − perguntou ele curioso e eu resolvi brincar.

− Sou uma traficante procurada em 26 países e estou à espera de um cliente. − disse enquanto dava mais um gole no líquido quente, tentando parecer natural. O vi arregalar os olhos assustado e como não aguentei, comecei a rir como uma louca – É brincadeira. – Respondi parando de rir aos poucos.

− Devo confessar que me assustou um pouco − disse ele respirando de alívio enquanto voltava a olhar a vista e gargalhando em seguida.

− Eu sei... Devia ter visto a sua cara. Mas veja pelo lado positivo, consegui fazer você rir −disse sorrindo abertamente, tentando olhar para o mesmo ponto que ele, tentando ignorar o que estava sentindo e permanecendo normal.

− Verdade, você conseguiu... Poucos conseguem − disse ele parando de rir e ficando sério. − Mas ainda não entendi o porquê de vir a um parque à noite e num frio desses.

− Faz parte da minha rotina. Andar por aí. Geralmente, vou até o rio Tamisa e me sento em um daqueles banquinhos, sabe? – perguntei e ele assentiu em seguida − Pois é... Todos os dias faço a mesma coisa: assim que chego do meu escritório... bem, não sou uma traficante, sou advogada. Então... eu chego do escritório, tomo um banho rápido, vou para aquela cafeteria onde nos esbarramos, pego meu café – contei mostrando copo em minhas mãos – e vou dar uma volta por aí. Depois, volto para casa, janto, vou dormir e no dia seguinte...

− Tudo recomeça. – Completou ele.

− Exatamente...

− E você não tem medo? − perguntou. Pude sentir seus olhos em mim, o que me deixou um pouco incomodada. Mas ainda não sabia se isso era bom ou ruim.

− Por incrível que pareça, não. − Sorri e dei mais um gole na bebida

− E qual o motivo de fazer isso? é uma forma de você relaxar? − eu assenti positivamente.

− Sim, é como se você saísse da sua rotina um pouco, mas isso faz parte dela. É meio contraditório... Mas é onde eu encontro a minha paz e o silêncio ajuda muito. O que também não faz sentido já que eu moro sozinha – concluí rindo. – Sei lá... – respondi dando de ombros.

− E o café? − perguntou com uma sobrancelha erguida e eu ri.

− É meu vício. Não pode faltar nunca. Faz parte do ritual, sabe? Eu sou praticamente cliente VIP daquela cafeteria. Fora que Londres é fria demais para não se beber nada quentinho − sorri virando o rosto para ele que me fitava curioso.

− Então quer dizer que se a cafeteria fechasse, seria o fim do mundo?

− Pode ter a certeza de que seria... Eu daria o maior barraco. − Dizendo isso ele riu e eu quase me desfiz pela terceira vez naquela conversa.

− Hum... Talvez experimente fazer isso um dia. Pode ser que dê certo comigo − disse ele suspirando aparentemente cansado.

− Você PRECISA fazer isso. Sério. Eu acho que você vai adorar, Ron.

O ruivo ao meu lado nada respondeu, apenas suspirou fundo e sorriu mais uma vez, dessa vez de modo triste, fazendo pairar um silencio entre nós.

− Você parece cansado. Tudo bem? − perguntei com um fio de preocupação na voz, fitando-o. Não queria parecer intrometida. Afinal, éramos estranhos um para o outro. O vi olhando para mim e parecia em dúvida com alguma coisa. Provavelmente não saberia se devia falar ou não.

− Eu sou médico. – Começou, decidindo me contar, enfim − O grande médico da família, Ronald Weasley. Trabalho em um dos melhores hospitais do mundo, que se situa aqui em Londres. − Eu assenti e ele continuou. − Pois bem... Sou pressionado pelo meu pai para ser o melhor, a toda a hora. Sou pressionado pela minha mãe que quer que me case com Lilá o mais rápido possível. Lilá é aquela mulher que estava comigo no outro dia. – disse enquanto me olhava mais uma vez − Eu a amo. – Por algum motivo, aquilo fez meu peito se apertar em uma sensação esquisita − Pelo menos acho que sim, ela foi e é minha única namorada. Eu me casaria com ela com muito o gosto, mas isso só aconteceria se eu não soubesse que ela está comigo só pelo dinheiro e que me trai todos os dias. Ela é a mulher perfeita pra mim aos olhos de meus pais. Meus irmãos fazem a vida deles e raramente nos falamos, foram espertos e saíram da família a tempo de escapar do inferno e agora estão mais felizes que nunca. Meus amigos são completamente falsos, tirando, é claro, meu melhor amigo de infância, Harry. E a conclusão de tudo isso... É que minha vida é uma droga. Acho que não está tudo bem. − Ele parecia distante e ria sarcasticamente enquanto eu estava perplexa.

− Wow... Vida agitada hã! − dei mais um gole no copo em minha mão, para fugir do nervosismo e o vi sorrir de canto. – Juro que não esperava por isso.

− Algum conselho? – Ele perguntou e eu o olhei em todos os cantos de seu rosto antes de responder

− Você quer um conselho de uma estranha? − ergui a sobrancelha e o vi olhar pra baixo e rir brevemente.

− Acredite, você está sendo a minha melhor amiga essa noite. − E voltou a me encarar enquanto eu sorria e dizia o que pensava.

− Eu acho que tudo isso é sua culpa.

− Como assim?

− Bem, me desculpe... Mas é você quem quer estar assim. − pude ver a surpresa no rosto dele, sem saber onde eu queria chegar − É você que faz suas escolhas e mais ninguém. − Parei um pouco para observá-lo e disse − Ouça, se você está farto de ser pressionado pelo seu pai, ponha um basta nisso. Enfrente-o. Diga que não quer ser manipulado e que não quer ser o melhor. Diga que você quer ser apenas você. O que eu acredito que queira.

− Mas não é tão simples assim, você não conhece os meus pais. – Tentou explicar

− Não foi você mesmo quem acabou de dizer que todos os seus irmãos foram viver a vida deles sem querer satisfazer os desejos do seus pais? – perguntei erguendo a sobrancelha. Não esperei uma resposta, apenas continuei. – Fora que, só de olhar para você já sei que, caso queira ser o melhor, você vai ser ainda mais. Afinal, para alguém que está sendo pressionado o tempo inteiro, até que você se deu bem, certo? – Dessa vez, esperei uma resposta. Mas, como ela não veio, apenas respirei fundo e prossegui − Em relação à sua mãe.... bem, ela é sua mãe e eu tenho a certeza de que ela quer o melhor, mas é você que escolhe com quem quer se casar. E Lilá... bem, não sei bem o que dizer... Você quer mesmo continuar com uma pessoa que trai você e que está contigo só por interesse? – questionei-o por fim.

− Não mesmo. − respondeu ele de imediato. − Mas eu a amo. − Completou suspirando com certa impaciência. Mais uma vez, aquelas palavras fizeram meu peito se apertar um pouco mais. Mais uma vez e eu tinha certeza de que pararia de respirar − Veja, a questão com os meus pais você tem total razão. Eu deveria me impor mais e ser mais como os meus irmãos... Talvez eu estivesse em outro caminho agora, não em medicina. Mas eu não sei nem por onde começar. Mas com Lilá é diferente, entende? Estamos juntos a anos... talvez eu nem saiba como seria viver sem ela.

− Hum, eis que o amor volta a atacar, não é? − disse sorrindo de canto enquanto me recompunha – Eu acho que você precise pensar. Tudo que eu consigo pensar depois desse seu discurso é que você quer terminar, mas tem medo.

− Sim... Mas talvez eu devesse terminar mesmo assim. – seu tom de voz era tão baixo que quase não consegui ouvir.

− Você que sabe. Como eu disse, suas escolhas. – Tomei mais um gole do líquido que estava em minhas mãos, me arrependendo logo em seguida, fazendo uma careta. Estava gelado. A sensação no meu peito não ia embora nem por um momento

− Obrigado. − Agradeceu ele sorrindo e me tirando do momento viagem comigo mesma − Me ajudou muito essa noite.

Eu o vi sorrindo para mim mais uma vez. Eu definitivamente não estava gostando do caminho que as coisas estavam tomando. Não sei por que, mas me custou ouvir da boca dele que ele amava a loira da cafeteria. Era como se eu fosse personagem principal de uma daquelas comédias românticas que via, e zombava, sempre na televisão. O que era um completo absurdo, já que esse tipo de coisa não existia. Estava em conflito sério... talvez fosse hora de ligar para a minha terapeuta, depois de anos de alta e verificar a causa de toda essa situação.

− De nada. – Respondi sorrindo de volta. − Às vezes é melhor conversar com um estranho do que com alguém que conhecemos há muito tempo.

− Sim, com certeza. Mas, depois dessa noite, você não é mais uma estranha para mim. – Mais um sintoma: senti minhas pernas fraquejarem um pouco. Sorte a minha que estava apoiada na grade. − Me dá seu celular?

Notas finais
É isso... espero que gostem