Verdade

1 Capítulo único


Notas iniciais
Madrugadas me trazem a esse tipo de pensamento. Eu acordo melhor.

A verdade é que ele não aguentava mais. Todos os dias ele via a hipocrisia, o ódio, a dor e o sofrimento. Ele via as frustrações. Via as tentativas facrassadas e a tristeza estampada nos rostos de desconhecidos que iam e vinham perto de si nos ônibus e calçadas mal cuidadas da cidade chamada maravilhosa. E ele se frustrava, também. Amava e depois não amava, não sabia qual caminho seguir e ninguém, ninguém parecia se importar com seus sentimentos, mesmo que ele soubesse que sim, há quem se importa.

A função dele, na sociedade, era trabalhar. Como estudante, de perseguir conhecimento, mas a raiva crescente de um sistema apodrecido e esquecido de propósito facilmente impedia que ele sentisse uma verdadeira vontade de melhorar. Na família, sua função era estar lá. E ele não estava. Teve a opção de estar e não quis. Não quis e se arrependeu, mas não o suficiente para ser grande coisa.

De vez em quando, ele surtava. Sentia necessidade de chorar e encher a cara. Pegar a garrafa de tequila, vodka ou o que visse pela frente, beber até não conseguir mais, e tanto faz o sabor. Era só tanto peso. E talvez, e ele sabia que sim, o seu objetivo final era chamar atenção de alguém. De alguém próximo. Mostrar que ele estava necessitado... de alguma coisa. Mas será que ele tinha o direito de pedir?

É, será que ele tinha direito de reclamar de coisas consideradas tão superficiais? Afinal, rapaz, há tantos jovens morrendo de fome, morrendo de doenças, tem a África, não tem? E há mulheres em outros países sendo abusadas por seus maridos, há filhos sendo mortos por ousarem dizer que são homos, olha como são pervertidos... Há tanto sofrimento, não? E por que ele devia ficar reclamando de coisas tão corriqueiras?

Infelizmente, para ele, saber de tanto sofrimento que é tão chamado de pior não era suficiente. Ele sabia que tinha gente que sofria mais na própria carne, na própria tristeza. Que pessoas fortes, ele pensava. Que guerreiros. Mas ele era mais resignado que elas, talvez. Não deixaria o mundo, afinal o dia seguinte, ele sabia, traria um outro humor. Era porque ele conseguia seguir em frente e se mergulhar em suas tarefas triviais que o impediam de pensar demais e chegar à conclusão de que estava infeliz.

Não era culpa de ninguém. Não era culpa do rapaz que estava com ele todos os dias, e não era culpa dos amigos que mentiam, fofocavam, e aliás, faziam bem como ele. Ele não era perfeito para julgar. Era mesquinho, ele sabia disso, mesquinho até demais, talvez. Não se entendia. Não entendia muito bem os outros. Ele só sabia que era importante respeitar, respeitar e respeitar, nunca julgar, tentar entender, aprender melhor o que se passava pela cabeça de todos ao redor.

Ele sabia que estava errado em milhares de outras coisas. Seu namorado estava certo em muito. Mas ele gostava de discutir. Tanto. E foi-se percebendo que essa característica estava longe de ser uma qualidade. Ela o mantinha longe dos outros. Ele chateava muitos com seus argumentos bem construídos mas que, se bem pesquisados, poderiam ser desbancados. Mas é claro, pensava, é claro que eu posso vencer essa discussão, afinal somos todos tão ignorantes. E no fim, discussão vencida, duas pessoas irritadas, recompensa nenhuma. Mas ele gostava, fazer o quê?

Cerveja, porque cerveja fazia a cabeça ficar lerda e bagunçada, e ele podia dar uns sorrisos bestas e se entreter com seus cigarros viciados e seriados imbecis. Maconha, é claro, porque o humor levantava e as preocupações saíam correndo. Tudo, tudo momentâneo. E a necessidade de mais. Mas aí vinha a preocupação com dinheiro.

Que babaca, esse rapaz, que babaca. Tanto dinheiro vindo dos pais e ele, por algum motivo, afundando em dívidas de cartões de crédito de banco e de loja. Recebia mais do que muito trabalhador para fazer nada durante o dia. Deixava seus amigos esperando, esquecia de ligar. E toda a confusão, toda a confusão de ter um parceiro que ele amava, sim, amava, mas que não gostava de quem ele gostava.

Ele sentia raiva de seu parceiro com muita frequência. Mas nada importava, porque ele não conseguia mais se ver longe dele. Já tentou mentir para fugir, mas no final não dava certo, ele não poderia, ele não conseguia. Ele não sabia nem como decidir se aquilo tudo era o suficiente, se ele precisava mesmo de mais, e fazia errado de novo e de novo para sentir culpa e esperar o próximo desejo que a apagava. E ele queria que tudo estivesse bem, que essas amizades danificadas fossem resolvidas, as inimizades fossem embora como as preocupações numa fumaça de baseado. Mas não, todos se chateavam, se irritavam, guardavam as cicatrizes. Elas cresciam numa velocidade enorme.

Afinal, ele queria fugir. Para longe. Deixar todos atônitos com sua fuga, sem dar notícias, sem deixar mensagens, sem olhar, nem por um instante, para o que era sua vida. Era um fracasso, tudo aquilo. Um grande, enorme fracasso. E o tempo se arrastava com uma lentidão quase insuportável, tempo este que parecia ser a única ferramenta capaz de mostrar que ele estava errado, que o fracasso era na verdade um processo.

O rapaz se sentia indignado com pessoas que trocaram o coração por um salário de R$ 18.000. Ele se sentia indignado com pessoas ainda piores, que roubavam todos os dias de quem era tão ignorante que não se deixava perceber o engano. Ele se irritava enormemente com quem acreditava em contos de fadas mesmo sendo tão inteligentes. Como seu parceiro. Contos de fadas, é o que é. Nada disso existe, e é óbvio. Foram outros seres humanos, ele pensava, e como pode?

Não há mais o que fazer. Há pessoas feias, há pessoas terríveis, há pessoas boas, estupradores e homofóbicos e machistas e caridosos e bonitos e gostosos e trabalhadores e estudantes e explorados e exploradores. Há vendedores, compradores, drogados, traficantes, professores e viajantes. Há o bom. Há o ruim. Há um quarto mal mobiliado numa casa onde falta a televisão. Não há salário, há salário, há mesada. Há arrependimento e esperança (mas só um pouquinho). Há espinhas. O reconhecimento da hipocrisia dele, desse próprio rapaz. Pobrezinho, tão incrivelmente hipócrita. Tão traidor, tão podre, tão ridículo quanto todas essas pessoas que ele tem o prazer de dizer que repugna pelas ações tão egoístas. E ele, egoísta junto, sem entender o corpo, as razões, desejos e aspirações.

A verdade é que esse rapaz não tinha a menor ideia de onde ia, não sabia se estava em volta das pessoas certas, se deveria ficar nessa cidade ou se merecia tanto de seus pais. Não sabia se ele ou a irmã que mantinha a razão. Não sabia se o curso de faculdade ia valer alguma coisa. Não sabia se daria conta... Conta de nada. Ele não sabia o que pensar. E essa era sua grande frustração, era o que o fazia surtar de tempos em tempos, a pesadíssima percepção ampla demais. Queria eu, ele pensava, ser completamente ignorante... Só a ignorância talvez me trouxesse felicidade.

O país laico é católico e é crente. O político quer a piscina e não prosperidade do Estado. Não se deve confiar nos amigos. Nenhum chefe de trabalho será bom. A certeza de um emprego prazeroso nunca virá. O amor nunca será declarado. A satisfação nunca será plena. A vingança nunca virá. Os sofridos assim serão. A intolerância, ignorância, burrice e feiúra serão constantes. Por toda a vida. Toda a vida desse rapaz.

Mas amanhã, ele sabe, sabe afinal... Amanhã ele acordará com outro humor, e talvez hajam séries novas para assistir.

Notas finais
Espero que gostem.
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!