Como eu ia te falando, Cecília, eu passei o dia inteiro no hospital. Eu podia ter me contaminado? Podia. Eu estava bem protegida com uma máscara N95, mas meu pai não, ele estava com máscara de TNT, daquelas bem vagabundas. Acontece, que ele não ia conseguir respirar com uma máscara igual a minha. Ah, menina, isso tudo é um horror! É tudo tão abusivo! Mas, daí, eu penso: e a vida é o quê? Um raio, não é? Um raio que cai e acabou, a gente já virou história. Quantas pessoas já não foram para baixo da terra nesses últimos meses? E foi por isso que eu pensei: se a minha vida tiver que acabar aqui, vai acabar aqui. Eu não vou poder mudar isso, porque eu não tenho esse poder. Vai simplesmente chegar a hora e a minha vida já era. Foi-se.

Meu pai é um homem de oitenta e cinco anos, que teve uma vida que a gente conhece bem. O que ele fez ou deixou de fazer é uma questão dele. Eu não vou julgar. Eu acho que não posso julgar a vida de ninguém. Eu só faço as coisas de acordo com o que a minha consciência manda. Se eu tenho que obedecer a alguma coisa neste mundo, eu obedeço à minha consciência. Só! Você me entende? Então, a minha consciência manda que eu faça as coisas para ele do jeito que eu tenho feito. Ele merece? Ele não merece? Eu não quero julgar isso. Ele foi um bom pai? Não, não foi um bom pai. Ele é uma pessoa que faz coisas agradáveis? Não, ele não faz coisas agradáveis. Mas isso é com ele, isso é um problema dele com o universo. Comigo, a coisa é com a minha consciência.

Então, eu levei ele pro hospital, fiz o que tinha que fazer, voltei pra casa muito pensativa, porque eu estava preocupada com o pessoal aqui em casa. Fiquei contando no calendário os dias, tive uma semana péssima por causa disso. Talvez eu tenha sido contaminada, eu não sei ainda. Só teria certeza se fizesse o teste, mas não fiz. Fiquei uns dias me sentindo mal, mas depois passou. Eu achei que tive febre uns três dias, mas também podia ser psicológico, entende? Pegava o termômetro e ficava medindo a temperatura, mas não deu nada. Então, deixei passar. Quando foi... eu fui lá no dia 13 de junho, no dia 27 de junho, eu comecei a me sentir mais tranquila, porque aí já tinham passado os quatorze dias da quarentena. E como eu não tinha nenhum sintoma, comecei a me sentir melhor. É isso, o que tiver que ser será. Já ouvi comentários sobre um novo vírus que está se espalhando. Poxa, a gente não está colhendo nada do que a gente não plantou. Se está aí, é porque a gente plantou isso. Então, quem tiver que morrer por causa do erro de boa parte do planeta, vai morrer. Infelizmente, é assim. E eu acredito que a gente vai e a gente renasce. Se não terminou a tarefa nesta vida, termina na próxima. Vai deixar um buraco no coração de muita gente, vai ser um sofrimento, vai ter que passar por todas as fases do luto, coisa que não é fácil para ninguém, mas faz parte da vida isso daí e é uma coisa muito assim realista, eu encaro isso com muito realismo, porque é assim mesmo. Se é assim com os outros, por que comigo vai ser diferente, não é? Eu estou refletindo muito, todos os dias, porque o que eu mais tenho agora é tempo para refletir. Eu estou lendo três livros ao mesmo tempo! Se eu não enlouquecer, vou sair dessa bem legal. Então, tudo bem.

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Você disse bem: “a gente não tem que...” e não tem mesmo! Quando meu pai estava naquele estado crítico, eu fiquei num dilema muito grande: avisar meu irmão ou não avisar? É pai dele também, então eu pensei, pois é, eu vivo pensando, acho que é o que eu faço melhor na vida: “se eu não avisar e meu pai morrer, eu vou ficar mal, porque eu acho que meu irmão deveria saber, pelo menos deveria ser avisado. Então, o que eu fiz? Entrei em contato com a figura e sabe o que ele me disse? “Ah, que pena! Infelizmente, eu não posso fazer nada. Eu não posso ir até aí, porque eu estou doente”. O pai dele corria o risco de morrer e é isso que ele me diz? E ele continuou: “Eu estou na cama e não tenho ninguém para cuidar de mim”. Aí, diante disso, eu disse: “Ok. Eu só liguei, porque eu acho que é uma obrigação minha te avisar”. Não fiquei com raiva dele, porque eu não quero mais cultivar raiva de ninguém.

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E eu acho que as pessoas são limitadas emocionalmente e a gente não pode cobrar delas coisas que elas não têm para dar. O meu irmão não tem nada para dar, eu vou cobrar o que dele? É seu pai... você tem que... não, eu não vou cobrar absolutamente nada dele. “Eu só liguei pra você, porque eu achei que era o certo a fazer. O resto, eu não tô pedindo nada pra você, se tiver que fazer, eu vou fazer. Este contato, era só pra te dar o recado”. E ele nunca mais perguntou do meu pai, entende? Cada um dá aquilo que tem e se não tem pra dar, vai fazer o quê? Forçar o oco, o vazio? Eu sinto muito por ele, eu tenho pena do meu irmão, a verdade é essa. Porque ele tem 42 anos, mas é uma criança e ser criança com essa idade, acho que é a pior coisa que pode acontecer para um ser humano, sabe? Eu tenho pena dele, em compensação, eu comigo estou em paz. Estou aqui fazendo minhas reflexões... acho que esse é o lado bom de ficar no isolamento. A gente pode pensar muito e só ser interrompida pelo telefone. Senão, nada interrompe, nada, ninguém nem toca a campainha, não tem ninguém na rua, está uma paz assim ótima. Boa pra ler, que é o que eu estou aproveitando pra fazer e pra pensar. Então, tudo bem. A vida é bonita, a gente aprende, é uma escola exigente, uma escola que tira a nossa pele mesmo. Sabe, eu acho que a vida não é coisa pra gente fraca, não dá para ser fraco, se você quer ter uma vida de verdade, você tem que ser forte, porque a vida é impaciente com pessoas que ela considera fracas.

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Equilíbrio de fato eu ainda não tenho, mas eu vou chegar lá. Hoje eu sinto que tenho mais facilidade de lidar com as minhas emoções, com os meus pensamentos, sabe? A chave para isso acontecer é o desabafo. Desabafar é terapia também, não é? O problema é que a gente tem que ter uma vítima para nos escutar, mas é uma terapia. Na minha vida, eu já usei muito o recurso do ouvido alheio. Eu aluguei demais o ouvido de algumas pessoas. Então, acho que foi por isso que eu não carreguei tanto problema a vida toda. Eu descarregava no ouvido da Fátima, eu descarregava no ouvido da Rita, da Paula e de mais algumas outras pessoas por aí, inclusive no seu também, Cecília. Vocês aguentaram bem o tranco, então, eu vou ser eternamente grata por todos esses ouvidos, porque eles aguentaram muita coisa, mais que isso, eles salvaram a minha vida.

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Eu não sou uma pessoa religiosa, Cecília, mas também não sou ateia, eu tenho lá minhas crenças: a lei da ação e da reação, a constituição setenária do homem e por aí vai. E, na questão do afeto, às vezes, a pessoa é tão fechada para demonstrar carinho, ela tem tantas barreiras e parece que ela é fria, que ela não ama ninguém, não ama nada. Às vezes, essa pessoa demonstra muito afeto por um bicho, ela tem um gato ou um cachorro e ela ama esse bichinho incondicionalmente. Ou então, ela tem um vasinho de planta e dedica todo amor dela para essa planta. Isso é um exercício para aprender a amar, é uma lição de casa de aprender como é que se ama. O dia que ela dominar esse afeto que ela tem pelo bichinho ou afeto que ela tem pela planta, ela consegue transferir esse carinho para um ser humano, sabia?

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Ah, Cecília, eu agradeço pela dica do curso, mas eu estou numa fase bem esquisita da minha vida. Teve uma época que eu quis fazer muitos cursos, estudar muitas coisas ao mesmo tempo, mas isso mudou radicalmente. Agora, eu estou buscando a famosa paz interior rsrsrs. Acho que estou ficando velha, minha amiga, só pode ser. Eu peguei uma birra de gurus em geral. Parei um pouco para prestar atenção à minha volta e só ouvia gente falando em prosperidade o tempo todo. Isso me deu ranço e eu me perguntei se era aquele tipo de coisa que eu queria para mim. A resposta foi não. De todas as técnicas que aprendi, a única que ficou foi o Reiki, mas para enviar energia positiva para o planeta, entende? Não sei aonde isso vai chegar, mas sei que não quero mais lidar com egos. Cansei de verdade. Desculpe pelo desabafo! O importante é a paz interior e agora eu sinto que ela está aqui: dentro de mim. Gratidão por me escutar, Cecília. Beijos.

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