Verbena
2 1º Capitulo
Notas iniciais
1º
Ela lembrava bem do amarelo, se chocando violentamente com o vermelho, dando espaço para o azul invadir. Ela lembrava bem daquele por do sol contra o mar.
Era um por do sol especial. A última vez que vira sua mãe. Ela estava usando aquele vestido verde que deixava sua pele realmente brilhante e seus cabelos loiros conseguiam criar um destaque especial com o mar ao fundo.
O mar. Nossa, como fazia tempo que via o mar. Não pensou que um dia fosse sentir falta dele de alguma forma, mas agora se pegava entrando naquele mar com a sua mãe, impedindo-a de ir embora, correndo atrás dela, nadando atrás dela. Sendo deixada por um borrão de azul esverdeado, amarelo e vermelho.
Um ano, onze meses, dois dias e – Levantou a cabeça para enxergar os ponteiros por cima do travesseiro – exatamente três horas. O mesmo sonho o final de semana inteiro. Não era exatamente algo que pudesse dizer se era verdade ou não. Tinha plena consciência de que a mulher no sonho era sua mãe, já havia visto fotos nos arquivos da assistência social, mas não entendia qualquer ligação que fosse com o mar ou com aquele por do sol em particular. Apenas sabia, que quando tinha esse sonho, algo parecia fora do lugar.
Talvez fosse o lugar. Marshfield não parecia de todo ruim. Fica consideravelmente perto do mar, as pessoas da cidade eram até bem agradavéis, não que fosse fazer alguma amizade permanente, mas nem se importava de comprar maquiagem no mesmo lugar onde era o consultório do dentista. Depois de um tempo, passou a ser prático até.
Aliás, Massachussetes era, até então, o estado que poderia escolher para poder viver. Mas assim, alguma coisa não completava a ideia de realmente viver em algum lugar.
A casa começou a fazer barulho e ela sabia que Ana ou Marcos já estavam acordando para fazer suas respectivas tarefas.
Ana e Marcos eram o casal da vez. Ao longo de seus dezessete anos, já passara por um total de vinte lares adotivos, isso, contando desde que tinha sete anos de idade – não conseguia se lembrar exatamente de quantos anos tinha quando tudo isso começou -. Eles não eram pessoas ruins, muito pelo contrário. Sem contar por Gilda, uma gentil senhora que havia sido sua guardiã quando tinha quinze anos, eles eram aceitavéis para qualquer condição.
Eles haviam lhe dado um quarto só para ela, não tinham filhos, estavam quase sempre trabalhando na doceria na Ocean Street e nas noites de sexta-feira, El poderia escolher o sabor da pizza. Ana era bem mais baixa do que ela, mas possuia braços fortes e estava sempre pronta para trabalhar, com um rosto bem gentil. Já Marcos conseguia ser como um grande urso protetor – possuia até o tamanho de um, contando pela barriga – e é claro, gentil e amoroso.
Seria a gentileza de seus guardiões o grande problema? Não era lá muito fã de gentilezas, pela quantidade de abrigos no qual já passara sua vida, sabia bem que gentileza sempre andava de mãos dadas com um preço.
— Eileen, você vai se atrasar para a escola.
Ah, odiava aquele nome. Apenas permitia que Marcos a chamasse assim, e nem sabia exatamente o porquê.
— Já estou acordando.
Levantou da cama e notou que um pé não estava colorido, deveria ter perdido uma meia pelo caminho do sonho dentro do colchão, mas isso realmente não importava, meia era o que não faltava dentro do seu guarda roupa.
Se havia uma coisa na qual era viciada, eram meias. De todos os tamanhos, de todas as cores, com todos os desenhos, com ponta colorida, com raios, sapos, flores, até mesmo com carrinhos estampados, não se importava. Eram meias. Desde criança talvez, essa obsessessão pelas meias, não conseguia enconstar seus pés no chão e até tentou viver sem meias por um tempo, mas sem as meias, seus pés pareceram duas peças estranhas no seu corpo, então, volte as meias de qualquer cor ou estampa.
— El, já está acordada? O café está na mesa.
Está certo. Era mesmo hora de levantar, mesmo que ir para escola não fosse uma ideia tão atraente assim. Jogou o restante da colcha que estava em seu colo de lado, calçou as pantufas de cobra que Marcos havia lhe dado, dá última visita ao centro da cidade e foi em direção ao banheiro, lavar o rosto para parecer uma pessoa normal, ao menos.
Ah, uma boa noticia, a espinha finalmente havia desaparecido do meio da testa – conferia, enquanto se olhava no espelho. Não gostava muito de espelhos. Sabia que era graças a eles que conseguia se vestir com ao menos uma peça combinando de seu guarda roupa durante o dia a dia, mas a ideia de ficar se adimirando em um pedaço de vidro parecia um tanto quanto repulsa para si mesma, não sentia que essa fosse sua verdadeira forma, mas gostava do louro natural de seu cabelo e de sua pele naturalmente bronzeada.
— Eileen, você vai se atrasar.
Esta certo, está certo. Um banho rápido, escovada de dentes, um pente suave nos cabelos, um novo par de meias (roxas com pequenas abelhinhas amarelas), e enfrentar a próxima fase.
Desceu as escadas até a cozinha devagar. Não sabia porque estava fazendo tanto caso de levantar da cama ou até ficar pronta aquela manha. Os Butler possuiam uma rotina bem natural e ditada pelo curso da noite anterior. Como havia ido dormir cedo, deveria estar bem descansada e pronta para uma segunda feira. Certo?
Entã por que se sentia extremamente cansada e com um pressentimento de que algo seria diferente hoje?
— Ah, finalmente, ai está você – disse Ana sentada na mesa, lendo a seção de obituários no jornal. Ela tinha essa mania estranha de tentar desvendar a vida da pessoa pelo nome, era até bem divertido quando elas ficavam sozinhas em casa. – Hoje é o dia especial das panquecas especiais do Marcos, então sente-se e se prepare para a dor de barriga.
— Hey, eu ouvi isso – Marcos girou com a espatula na mão deixando respingar um pouco de massa pelo chão, o avental branco com o desenho do corpo de uma mulher em biquini, só o fazia mais engraçado.
— Está tudo bem, eu gosto de suas panquecas – Eileen sorriu para ele enquanto bebericava um pouco do suco de manga que estava em cima da mesa – quais são os planos para hoje?
— Ah querida, era exatamente isso que queria lhe falar. Recebemos uma encomenda importante na loja, parece que a noiva quer três bolos em seu casamento, então precisamos correr com tudo, por isso, chegaremos um pouco tarde, teria problema jantar sozinha essa noite?
Jantar sozinha? Sozinha? Naquela casa, logo depois da escola? Ana falou as palavras magicas para o dia de El melhorar.
Se tinha uma coisa que amava no mundo, mais do que meias, era o silêncio.
— Não, está tudo bem, eu esquento alguma coisa no microondas.
O restante do café da manhã seguiu tranquilo, Marcos queimou três panquecas, mas comestivéis, eles terminaram de se arrumar, trancaram a casa e ainda deram uma carona para El – mesmo a escola ficando a vinte minutos da casa.
Marshfield High não era uma escola especificamente grande, mas era grande o suficiente para caber um campo de futebol e uma piscina para os treinos do clube de natação. Então, poderia se dizer que o corredor tinha um espaço considerável. El gostava da escola, quer dizer, no máximo que se possa gostar de estar dentro da escola o tanto quanto possível, ela gostava exatamente, da atmosfera do lugar, era cheio de pessoas e ainda assim, parecia que ninguém era realmente interessado dela. O que era uma coisa boa, já que ela não queria ser interessante para ninguém... Quer dizer...
— Oh, você ainda não superou isso?
A voz de Sue preencheu seus ouvidos e ela saiu do transe.
— Superar o que? Não sei do que você está falando.
Sue parou ao seu lado, encostando-se no armário vizinho e olhou para a terra do outro lado do corredor.
— Você, seriamente precisa, superar essa sua quedinha pela Jane Princesa Walters – Ela disse enquanto remexia no cabelo laranja, a cor da semana.
— Eu não tenho uma queda pela Jane, eu mal a conheço, ela só me disse olá uma vez e tenho quase certeza que ela estava encarando a espinha na minha testa.
— Não? Então porque quando olho para você essa manha, a primeira coisa que assisto é você babar por ela, nessa calça estupidamente branca que ela está usando – Sue remexeu na mochila e tirou um potinho de tinta verde – não dá uma vontade enorme de manchar esse branco insuportável?
— Sue, para. Eu só me distrai olhando para o enfeite do caderno dela, não é exatamente, nada demais. Vem, vamos para a cantina, daqui a pouco a aula irá começar e eu estou precisando de um café.
Sue era a maior vantagem daquela escola, contando com a liberação de caféina na cantina, o ponto alto a qualquer momento do dia -. Ela era divertida, um timing perfeito para soltar qualquer palavrão e por estar no clube de artes, ela dizia que precisava manter juz a sua imagem.
“- Você precisa se libertar mais El, sair dessa sua concha protetora, do que quer que seja – eu super imagino seus cabelos vermelhos, sabia?”
Ela havia dito uma vez. Só por isso, já era o suficiente ficar perto dela pelos dias, o tipo de amizade que lhe dava uma coragem momentânea, que durava alguns segundos, o suficiente para El olhar para Jane do outro lado do corredor.
Jane Walters. Ela não era a Rainha do Baile da escola, nem mesmo a chefe de torcida. Ela não trabalhava com o alto dos clichês, mas seguia a tradição de ter um interesse pela garota mais interessante da escola. Talvez fosse o cabelo castanho caindo nos ombros ou a blusa desbotada do Harry Potter que ela usava nas quartas feiras na aula de Educação Física. Poderia ser um grande número de coisas, mas algo realmente prendia a atenção de El quando se tratava de Jane.
— Você precisa sair dessa McQuintoche, seguir em frente, ainda há bastante peixe no mar, sei lá, dar uma curtida pra frente – Sue falava enquanto estavam na fila do café.
— Sue, pare de me chamar assim, já falei que meu sobrenome é O’Calhaghan, e pela milionésima vez, relaxa, ela nem sabe que eu existo, tenho certeza que quando o ano acabar, eu nem estarei mais aqui, então será uma paixonite de escola e nada mais.
— Alguém ainda irá precisar te levar ao baile, então é melhor você seguir logo em frente – o vulto laranja abaixou para pegar a nota de um dólar que havia escorregado de seu bolso.
Baile? Não havia ideia mais absurda.
— E quem disse que eu irei no baile? Nem em um milhão de anos eu darei a mim mesma o castigo de participar de um evento criado apenas para indicar o quanto os nivéis sociais dessa escola são idiotas.
— Pense na bebida.
— Que bebida. É evento escolar.
— Você é muito ingênua mesmo – ela gargalhava enquanto andavam a caminho da sala de aula – isso é por que você nunca se permitiu ir a um baile, sempre estava de mudança, por nossa sorte, calhou de você ainda estar aqui, isso te obriga, socialmente, como minha amiga, companheira e pokemón, de irmos ao baile para podermos beber, rir e quem sabe – ela apontou para Jane – te dar um pouco de coragem?
El revirou os olhos e sentou em seu lugar dentro de sala. Nas segundas feiras, os três primeiros tempos eram de Literatura, a matéria que Eileen mais se identificava, ainda mais na fase romântica da literátura inglesa. Sue não era uma fã, então se afundava dentro do casaco e pegava no sono na menor oportunidade, nem mesmo o professor ser bonito ajudava o interesse.
— Bom dia, todo mundo. Nós temos um dia um pouco cheio, então preciso que todos vocês estejam com a disposição no máximo para seguirmos trabalho. Vamos. Rápido! Não quero perder tempo. Sue, é com você mesmo. Virem as carteiras em duplas.
— Parece que Ben está com um humor daqueles hoje, não é?
El deu de ombros e virou sua carteira de encontro com a de Sue. Não poderia mentir, precisava de um trabalho que pudesse distrair a cabeça durante a semana.
— Agora, olhem para mim – ele estava no meio da sala, com um jarro de plástico na mão – Não pensem que essa será sua dupla sobre o trabalho que irei passar, suas duplas estão dentro desse pequeno potinho de plástico aqui – as vozes de descontentamento aumentaram – não me interessa, vamos, em ordem alfabetica.
El sabia que tinha um motivo para ter aquela sensação de manhã. Trabalhos em duplas, tortura no sétimo circulo do inferno.
Quando chegou sua vez, o papel chegou a fazer cocegas na ponta de seus dedos quando colocou a mão dentro da pequena jarra. Se não fosse pela manga do suéter ser longa, teria certeza que não teria onde limpar o suor das suas mãos. Olhou para Sue e ela estava sorrindo cruzando os dedos, deu de ombros e abriu o papel.
Não acho que os deuses sejam realmente justos, não é verdade?
— Ótimo, Jane, troque de lugar com Sue por favor, você será a dupla de Eileen.
Enquanto El voltava para seu lugar, passou por Sue, que sorria, parecia até que ela tinha ganhado na loteria.
— Viu? Torcer até que dá certo.
Ele passou por ela inexpressiva. Desde que entrara para a escola, Sue era a única que era amiga mesmo, tirando alguns professores e alunos avulsos, não trocará uma sequer palavra com ninguém, e agora, ela teria que fazer o trabalho do semestre, justamente com aquela que fazia a palma das suas mãos soarem.
Voltou para a sua cadeira e para sua surpresa, ela já estava sentada no lugar. Era impressão, ou ela estava usando uma blusa estampada com o tema da “Sabrina, a Bruxa adolescente?”.
Ok, estava na hora de sentar, se posicionar e se preparar para a torrente de “ah, é...” que sairiam da sua boca.
— Ah, olá El. Tem problema se eu chamá-la de El? Não acho que Eileen combine exatamente com você.
Ela disse isso tão rápido que El não soube nem qual reação se treinar primeiro para responder. E quando a resposta já estava na ponta da lingua, o professor voltou a falar.
— Como vocês já devem saber, nossa matéria está nos levando para um caminho muito bom, mesmo que alguns não prestem bastante atenção, não é mesmo? Mike, não ouse nem ao menos soprar essa bolinha de papel – O braço do menino mal havia se levantado e abaixou rapidamente seguindo do rosto decepcionado –
— Então, como eu ia dizendo, chegamos a uma era da literatura onde a nossa base sera pela trova, ou seja, as lendas contadas nas rodas musicais das festividades gaulesa e irlandesa, uma boa parte da herança da literatura inglesa. Agora, o trabalho de vocês será criar sua própria lenda. Sobre qualquer assunto, referente a aula, pode ser sobre um guerreiro, fadas, seres mágicos, o que quiserem... Mas deverá ser algo relacionado, ok?
— Bom, até que não é um trabalho tão difícil não é?
El apenas acenou para o que Jane dizia. O cabelo dela estava mais brilhante naquela segunda feira.
— Você tem quimíca com a Emily,não é verdade? Amanhã? Teria problema se almoçarmos juntas depois? Poderiamos trocar ideias.
— N-Não. Não tem problema.
— Ótimo! Aqui – ela pegou um pedaço qualquer de papel e anotou um numéro – esse é meu numero, qualquer coisa me manda uma mensagem, que vamos nos falando sobre. A não ser que você já tenha alguma ideia, afinal, seu sobre nome é irlandês não é?
Ela falava incrivelmente rapido, parecia uma maquina de escrever nervosa, pronta para soltar o bip logo depois do espaço e El estava adorando cada segundo.
— Ah, sim. Mas eu realmente não sei o que pensar.
— Tudo bem, não tem problema, nós podemos pensar em alguma coisa, amanhã no almoço. Combinado?
Ela acenou e sorriu para a falta de resposta de El, seria que ela estava com aquela mesma cara de idiota de hoje cedo? Por sorte o celular dela vibrou e a atenção foi desviada. El recebeu uma bola de papel de algum lugar da sal com a letra de Sue rabiscada nele.
“Quando é o casamento?”
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