Vendetta

8 Gokudera


Notas iniciais
Eu cometi um erro com a idade do personagem do "Rafaelle". Ele não é uma criança e sim um adolescente (16~17anos). Eu mudarei os capts anteriores no decorrer desta semana, mas a partir desse capt a idade já está arrumada. Desculpem u.u~

Gokudera

"Então você acredita em mim? Em tudo o que eu disse? Cada palavra?"

"Sim."

"Existe alguma coisa que você queira perguntar, alguma dúvida?"

"Eu acredito que temos de dizer ao Chefe sobre isso."

"Eu disse que não podemos. Alguma outra coisa?"

"Não..."

A pasta foi fechada e Gokudera se colocou de pé. A xícara que estava sobre a mesinha de centro estava vazia, e o café que ele acabara de beber estava delicioso: forte e com pouco açúcar, do jeito exato que ele gostava. "Eu entrarei em contato assim que conseguir outras informações. Qualquer coisa, e eu digo qualquer coisa, não hesite em me ligar. O assunto é de extrema urgência e não temos tempo a perder."

"Ele sabe?" A mulher ergueu a cabeça, mas apenas seu olho esquerdo era visível. O direito estava coberto por um tapa-olho, que naquela manhã possuía o desenho de uma serpente. Na semana anterior havia sido um pentagrama.

"Eu já disse que não diremos nada ao Jyuudaime. Chrome, o assunto é de extrema imp−"

"Eu não me referia ao Chefe." A voz da Guardiã da Névoa saiu baixa, quase um sussurro. Os anos haviam passado, mas o jeito quieto e contido eram traços presentes na personalidade da jovem mulher. "Eu me referia a outra pessoa. Yamamoto Takeshi."

O homem de cabelos prateados fez o possível para permanecer natural, e embora não houvesse motivos para utilizar aquela máscara na frente de Chrome, foi muito difícil não vacilar àquela pergunta. Seus lábios se tornaram uma fina linha e o gosto do café tornou-se amargo em sua boca. Eu não sei de Yamamoto e não me importo. Desde a semana passada eu não sei nada sobre ele. A resposta estava na ponta de sua língua, mas de nada adiantaria brincar de enigmas com alguém que não fazia ideia da real situação. Para a Guardiã da Névoa eles estavam apenas participando de uma investigação secreta. Foi a própria Chrome. Não essa, mas a outra que disse que precisaríamos de Yamamoto. Por mim eu não diria nada. Se dependesse de mim ninguém ficaria sabendo da situação. Entretanto, partiu da própria mulher entrar em contato com o Braço Direito do Décimo. Há três dias Chrome o visitou no escritório e contou o que havia ouvido e visto no futuro. Mesmo sabendo como funcionava a bazuca de dez anos, o Guardião da Tempestade, por um breve momento, quis ser ingênuo o suficiente para acreditar que ninguém mais seria envolvido. Quanto menos gente envolvida, melhor.

"Eu entrarei em contato com Yamamoto Takeshi nos próximos dias." A mentira saiu tão natural que por um segundo ele quase acreditou. "Nesse meio tempo mantenha segredo, e quando eu falo segredo, eu falo segredo. Ninguém poderá saber o que se passou nesta sala."

"Mukuro sabe."

Mukuro sempre sabe, e embora não estivesse presente, Gokudera sabia muito bem que o outro Guardião da Névoa estava tão a par da situação quanto ele. "Exija silêncio daquele idiota. Se algo sair do controle poderá colocar tudo a perder." Tudo? Mas nós não temos nada. Nada! Isso não dará certo.

"Compreendo. Manterei silêncio, mas repense sobre o que eu disse sobre o Chefe. Ele tem o direito de saber e pode ajudar."

"O Jyuudaime não pode ajudar. Coloque-se na situação dele, Dokuro." O homem de cabelos prateados colocou a pasta dentro de sua maleta. "Imagine que alguém diz que no futuro Mukuro morrerá. O que você faria? O que se faz nesse tipo de situação?"

"Você mata a pessoa." A resposta saiu rápida e sem um pingo de hesitação. O Guardião da Tempestade ergueu os olhos, surpreso por ouvir tamanha sinceridade dita através de palavras tão pesadas e duras. Por trás daquele belo e delicado rosto não havia nenhuma expressão que denunciasse o que se passava por sua mente. Chrome parecia ter sido feita em pedra. "Se a pessoa morre no passado ela não pode machucar ninguém no futuro. Se o homem que matará o Chefe dos Cavallone e a futura senhora Sawada morrer, tudo se resolverá."

"Você se esquece que é exatamente isso que estamos tentando evitar?" O Braço Direito do Décimo sentiu os cabelos de sua nuca se arrepiar. Quando a Guardiã da Névoa o procurou, seu recado foi claro: eles deveriam parar Hibari e impedi-lo de matar o homem que, na verdade, não passava de um inofensivo adolescente nesta época. A sugestão feita por Chrome era a mais básica e elementar possível, mas provavelmente a implicação para aquele gesto era séria o suficiente para não ser cometida. Eu não quero nem imaginar o motivo por trás desse pedido. Sempre achei que Hibari fosse louco, mas isso vai além de qualquer possibilidade.

"Você perguntou o que eu faria em tal situação." A jovem de cabelos escuros abaixou os olhos. "Se este fosse o futuro de Mukuro eu faria exatamente o que disse."

E eu acredito em você. Gokudera fez uma polida reverência e Chrome ficou finalmente em pé, acompanhando-o para fora da sala que utilizava como escritório. O local ficava no térreo de um largo sobrado. A casa era residência de Chrome há alguns anos, e apesar de nunca perguntar, ele sabia que Mukuro também morava no local. Uma parte do Guardião da Tempestade estava satisfeito por não encontrar o outro Guardião da Névoa. Toda vez que Mukuro decidia participar as coisas não saiam como esperado, ou algo simplesmente dava errado. Nas reuniões da Família, embora sua presença fosse totalmente irrelevante, vez ou outra ele aparecia, mas geralmente ficava a cargo de Chrome participar desse tipo de evento obrigatório. Pois, apesar de sua quietude, era muito mais fácil lidar com a jovem do que com um psicopata feito Rokudo Mukuro.

Não havia Sol naquela manhã de quinta-feira, apenas um céu nublado e um clima parcialmente fresco para um dia de verão. Gokudera entrou em seu carro e colocou a maleta no banco do passageiro, dando partida e querendo se afastar daquele lugar o mais rápido possível. Intimamente ele não confiava em ilusionistas, e todas as vezes que precisou visitar Chrome, seus sentidos sempre ficavam aguçados, esperando algum tipo de surpresa desagradável. Felizmente, naquele dia nada de anormal aconteceu durante a reunião que tiveram. Os dois repassaram brevemente a conversa que tiveram há três dias, mas não chegaram à conclusão alguma. A ideia principal era parar Hibari, mas ninguém sabia como fazer isso ou quando.

A Guardiã da Névoa mencionou que o problema não era o atual ex-Líder do Comitê Disciplinar, mas sim sua versão futura. Chrome disse que ele estava diferente, mas o quão diferente? Um arrepio na espinha fez o homem de cabelos prateados engolir seco, pensando o que uma experiência como aquela não seria capaz de fazer com uma pessoa. Eu não consigo sequer imaginar como é estar em tal situação, da imagem do Guardião da Nuvem, o Braço Direito pensou em seu próprio Jyuudaime. Eu jamais direi nada. Ele não merece saber disso. O Jyuudaime é gentil demais para esse tipo de situação e provavelmente não fará nada, por mais doloroso que seja. Quando o inevitável pensamento cruzou sua mente, Gokudera estava parado em um semáforo. Não era a primeira vez que ele se pegava pensando no que faria se fosse com ele... se alguém simplesmente brotasse na sua frente e dissesse que Yamamoto morreria no futuro. Eu provavelmente diria o mesmo que Chrome disse. E se eu for pensar sobre isso, que direito eu tenho em parar Hibari? O homem merece sua vingança, assim como eu mereceria se estivesse em seu lugar.

A cor do semáforo mudou para verde, coincidindo com o toque do celular. O aparelho piscou e vibrou por alguns segundos, antes de iniciar uma antiga melodia tocada em piano. O Guardião da Tempestade encarou o visor, voltando a dirigir e fingindo não ter visto. A música parou por alguns instantes, apenas para continuar novamente, demonstrando a insistência da pessoa do outro lado da linha. "Eu não responderei, desista." O homem de cabelos prateados nem se dignou a olhar o aparelho uma segunda vez. Ele sabia muito bem quem estava tentando entrar em contato e, honestamente, era a última pessoa que ele gostaria de falar. Depois da péssima conversa que tiveram na semana anterior, o Braço Direito do Décimo não havia visto Yamamoto novamente. Os dois entravam e saiam em horários diferentes, e embora o moreno tentasse contatá-lo vez ou outra, o Guardião da Tempestade não retornava as ligações e nem fazia questão de recebê-lo. A última coisa que preciso é ouvir o quão feliz ele está com sua futura noiva, quantos filhos querem ter e o quanto ele espera que eu seja feliz. As palavras de Yamamoto ainda o assombravam, e para ser totalmente honesto, Gokudera não sabia se sobreviveria a uma segunda onda de sinceridade por parte do idiota.

Não havia trabalho naquele dia, mas o homem de cabelos prateados não se sentiu inclinado a ir para casa. O caminho escolhido foi o do escritório, e durante os dez minutos que ainda passou dentro do carro, o celular tocou quatro vezes. A quantidade de ligações não atendidas do Guardião da Chuva provavelmente era grande, mas o Braço Direito não fez menção se retornar nenhuma delas. Seu automóvel entrou no estacionamento subterrâneo do prédio, e assim que encarou sua vaga, uma parte de Gokudera desejou ter ficado um pouco mais na casa de Chrome, ou até mesmo ter seguido para seu próprio apartamento. O moreno estava literalmente no meio do caminho. Seus braços estavam cruzados e sua expressão era séria, levemente aborrecida. O Guardião da Tempestade buzinou para que ele saísse, mas ao notar que o idiota não parecia disposto a fazer isso, o homem de cabelos prateados parou o carro. O moreno caminhou até onde ele estava, e pela primeira vez em uma semana o Braço Direito se pegou encarando Yamamoto.

"Nós precisamos conversar." As palavras saíram tão sérias quanto sua expressão. Os olhos negros fitaram o celular no banco do passageiro, e por um instante Gokudera achou que viu decepção naquele belo olhar.

"Se eu tiver tempo." O homem de cabelos prateados moveu o carro até sua vaga, soltando um longo suspiro enquanto pegava sua maleta e celular. O Guardião da Chuva estava parado do lado de fora, e parecia ter falado sério. Os dois se encararam e Gokudera passou ao lado do moreno sem lhe oferecer uma segunda olhada. E, como uma sombra, Yamamoto o seguiu durante toda a extensão do estacionamento, entrando no elevador e finalmente deixando sair um pouco do que estava por trás daqueles belos, e aparentemente furiosos, olhos castanhos.

"Por quê?" Foram as únicas palavras que deixaram seus lábios.

O Braço Direito do Décimo esticou a mão livre da maleta e apertou o portão vermelho no painel do elevador. As luzes piscaram antes que o elevador parasse, e seu rosto virou-se sério na direção de Yamamoto. O Guardião da Chuva não pareceu surpreso, e ainda vestia a expressão que não combinava com sua personalidade. O que você quer ouvir? Quais palavras você quer que eu diga? O homem de cabelos prateados entreabriu os lábios, sentindo uma estranha ânsia de ser totalmente sincero. Eu te amo. EU-TE-AMO. Agora, me odeie. Agora reclame da minha ausência. O peso do silêncio era quase palpável. Eu não quero ouvir que você não se importa que eu durma com homens. Eu não quero saber que você me deseja felicidades e espera que possamos sair todos juntos, felizes e alegres. Eu quero que você se importe. Eu quero que você sinta ciúmes, e me proíba de sair com outras pessoas. Eu quero que você me ame, idiota!

Entretanto, o que o Guardião da Tempestade realmente disse foi algo totalmente diferente...

"Nós subiremos e iremos para minha sala. Sem conversas, sem reclamações, sem nada. Eu preciso contar algo extremamente importante e preciso de sua ajuda para lidar com isso."

O moreno abaixou os olhos, mas não respondeu. Gokudera apertou novamente o botão vermelho, encarando a porta do elevador quando ele começou a se mover novamente.

As conversas não voltaram a acontecer. Os dois caminharam lado a lado pelos corredores, mas quando chegou ao escritório do Braço Direito, o Guardião da Chuva ofereceu preferência, entrando em seguida e fechando a porta.

"Dino Cavallone e Kyoko morrerão no futuro." As palavras saíram naturais, como se aquela fosse uma conversa corriqueira. "Eu recebi a notícia do futuro, através de Chrome. Ela é intermediária de... mim?" Aquilo não soou certo ou bem colocado, mas serviria. "Nós precisamos evitar que isso aconteça e eu quero saber se posso contar com a sua ajuda."

As palavras foram ditas de costas, então o homem de cabelos prateados não sabia o que o rosto de Yamamoto mostrava, mas a maneira como a respiração do moreno mudara dava margem para várias interpretações. Quando seu corpo virou-se, o Guardião da Tempestade viu o quão surpreso o homem próximo à porta estava, e se perguntou se sua expressão, no momento em que Chrome lhe contou tudo aquilo, havia sido parecida. O Guardião da Chuva passou a mão direita nos cabelos escuros como era de costume quando algo imprevisto acontecia, e Gokudera sorriu triste ao prever que ele andaria em círculos em seguida e então sentaria na poltrona da direita antes de se virar para ele e perguntar se aquilo era verdade. Quando tudo isso aconteceu e a voz de Yamamoto chegou aos seus ouvidos, o Braço Direito sentiu o peito apertado por perceber o quão bem conhecia aquela pessoa e o quanto a amava. E ele não faz ideia de nada disso... idiota. Eu sei tudo sobre você, mas você não sabe nada sobre mim.

"C-Como faremos isso? Quero dizer, como evitar que isso aconteça?"

"De acordo com Chrome a chave está em Hibari, não o desse tempo, mas o do futuro. Aparentemente ele voltará para esta época e tentará matar o responsável por... essas fatalidades."

Os olhos do Guardião da Chuva estavam arregalados e era visível a maneira como ele tentava digerir aquelas informações. O homem de cabelos prateados aproximou-se da poltrona, trazendo sua maleta em mãos e sentando-se em frente ao homem que, até mesmo naquele momento tão impróprio, fazia seu corpo vibrar. "Eu sei que é difícil pedir que acredite em mim e que−"

"Eu acredito em você." A resposta saiu rápida e natural. Não havia naqueles olhos nenhum sinal de dúvida. "Eu só não sei como ajudar. De quem foi o plano?"

Nosso. O Guardião da Tempestade gostaria de dizer. Uma das coisas que soube através de Chrome, quando a jovem visitou o futuro, foi que o plano havia sido pensado por ele −, ou melhor, sua versão futura − e Yamamoto. "Você mesmo falou comigo," foram as exatas palavras da Guardiã da Névoa, "você parece um pouco mais velho e menos rabugento, mas continua sendo a pessoa que é. Você me deu esses arquivos e disse que precisaríamos trabalhar juntos.”.

"Parece que eu, você e Chrome estamos trabalhando juntos no futuro." A resposta saiu a contragosto. Se ele me perguntar sobre o futuro eu não terei nada a dizer. Gokudera sentiu um arrepio na espinha. Ele não havia perguntado nada à Chrome sobre o futuro e tinha medo que o moreno começasse a fazer perguntas cujas respostas ele não queria ouvir. A única coisa que sei sobre o futuro é que Yamamoto estará casado e feliz. E eu não preciso que o idiota saiba disso. Eu não preciso que ele estrague a minha droga de presente com seu futuro perfeito.

Entretanto, as perguntas não vieram e Yamamoto apenas meneou a cabeça mostrando que entendia. O Braço Direito do Décimo abriu a maleta e entregou os envelopes e arquivos que possuía, e por uma hora os dois amigos conversaram sobre o conteúdo de todos aqueles importantes papéis. O Guardião da Chuva ouviu a tudo, olhos sérios e perguntas relevantes. As dúvidas que o homem de cabelos prateados e a Guardiã da Névoa se fizeram naquela manhã acabaram reaparecendo através dos lábios do moreno. E, ao final, a mais peculiar e também esperada observação chegou aos ouvidos de Gokudera:

"Tsuna não pode saber de nada disso, Gokudera." Yamamoto devolveu o último envelope para o homem sentado à sua frente. "Ele não pode saber sobre Dino e muito menos sobre Kyoko. Ele não entenderá e o futuro se repetirá porque ele não fará nada. Infelizmente ele não fará nada."

"O que você faria?" A pergunta deixou os lábios do Guardião da Tempestade antes que ele pudesse pensar. O que você faria se sua amada Yurika fosse vítima desses monstros?

"Eu não sei." O moreno levantou-se e passou novamente as mãos pelos cabelos. Aquela era a décima vez somente naquela última hora. "Eu sinceramente não sei."

O Braço Direito fechou a pasta contendo os envelopes e ficou em pé, cruzando a pequena sala e indo até sua mesa. Uma das gavetas foi puxada e a pasta guardada. A senha de seis dígitos foi digitada e um leve click foi ouvido. O futuro em dez arquivos e guardado em uma gaveta. O quão irônico isso soa? Yamamoto caminhou até a saída do escritório, mas antes de abrir a porta seu corpo voltou um pouco e a expressão séria desapareceu de seu rosto, dando lugar ao meio sorriso habitual.

"Desculpe se pareci um pouco... grosseiro no estacionamento. Eu não sabia que você tinha algo tão importante nas mãos e agi de maneira egoísta."

Por favor, não essa conversa. Gokudera abaixou os olhos e apenas deu de ombros. "Mantenha a discrição, Yamamoto. Ninguém deve saber de nada e daremos um passo de cada vez."

"Eu sei."

O Guardião da Chuva sorriu de canto e acenou antes de sair. O barulho da porta fechada trouxe a tranquilidade que o homem de cabelos prateados tanto precisava. Seus pés caminharam até a porta e sua mão girou a chave, garantindo que ninguém entraria ou sairia daquele lugar. As cortinas do escritório foram abaixadas e finalmente o Guardião da Tempestade pôde respirar aliviado. Seu corpo jogou-se sobre a poltrona que havia acomodado Yamamoto até poucos minutos e sua nuca pendeu-se para trás, apoiando-se na parte alta, permitindo que ele encarasse o teto. A escuridão trouxe a estranha sensação de calmaria, e enquanto ouvia ao silêncio Gokudera fechou os olhos e respirou fundo, soltando a gravata escura de seu pescoço, sabendo que se arrependeria do que faria, mas que era inevitável.

O escritório inteiro cheirava ao perfume do moreno. Gokudera conhecia a colônia, e era a mesma que ele havia dado ao Guardião da Chuva quando ambos estavam ainda no colégio. Aquele foi um inusitado presente de aniversário, mas que arrancou um doce e sincero sorriso dos lábios do idiota. Desde então, não importasse onde estivesse, sempre que o Braço Direito sentia aquele doce e amadeirado cheiro, sua mente automaticamente remetia a figura do moreno. E naquele começo de tarde não seria diferente. O cheiro invadiu seu nariz, fazendo seu corpo tremer e esquentar-se. Seu coração batia mais rápido e seu cérebro repassava a última hora, lembrando-o da maneira como eles estiveram próximos, e quantas vezes suas mãos se tocaram ao passarem e repassarem papéis. A voz rouca e sedutora do Guardião da Chuva percorreu seu corpo, convidativa e cheia de segredos e fantasias. Então, qual o problema em adicionar mais uma a lista? Por quantas vezes o moreno não foi vítima daqueles momentos tão íntimos? Os olhos verdes se entreabriram, coincidindo com o barulho do zíper de sua calça. Suas pernas se afastaram e um tímido e satisfeito sorriso cruzou seus lábios ao ver Yamamoto ajoelhado entre suas pernas.

As mãos que subiam por sua perna eram grandes e levemente morenas. Elas puxaram com certa força a calça escura, fazendo-a descer até os tornozelos. Gokudera não fez menção alguma de pará-lo, apenas observando o Guardião da Chuva inclinar-se sobre ele. Os lábios tocaram as pontas de suas orelhas, mordiscando-as devagar e sussurrando doces e sórdidas palavras que o fizeram se arrepiar. Atrevidos e inesperados beijos desceram por seu pescoço, trilhando uma fina linha de saliva que desceu por seu peito pálido após a camisa branca ter sido aberta. Quando o moreno mordiscou seu mamilo direito, o homem de cabelos prateados tentou omitir um gemido baixo, mas que acabou escapando apesar de sua tentativa. O moreno ergueu os olhos negros e um maldoso meio sorriso cruzou seus lábios enquanto ele passava a dar atenção ao mamilo da esquerda.

A tortura durou longos minutos. O Guardião da Tempestade sentiu as pernas se contorcerem em antecipação, esperando que Yamamoto descesse um pouco mais com aqueles beijos. O Guardião da Chuva apenas ria dele. Erguendo aqueles belos olhos e sorrindo como se tivesse todo o tempo do mundo. "T-Takeshi..." A voz do Braço Direito era apenas um fio. Seu rosto estava vermelho e seus olhos enxergavam tudo de maneira embaçada. "Por favor..."

E novamente o moreno apenas riu, mas dessa vez havia algo diferente em seus olhos. Yamamoto segurou a ereção do Guardião da Tempestade, e somente aquele toque arrancou um gemido de puro deleite dos lábios de Gokudera. O moreno subiu e desceu a mão algumas vezes, e quando finalmente seu rosto abaixou-se e a temperatura de sua língua envolveu o membro em suas mãos, o homem de cabelos prateados precisou morder os lábios ou teria gritado de prazer.

Não havia nada como fantasiar com Yamamoto. Sua mente esquecia totalmente o local e que aquilo não era real; que aquilo jamais aconteceria. A realidade dava lugar a algo melhor, menos doloroso e muito mais feliz. Ali, perdido em seus pensamentos e fantasias, o Braço Direito do Décimo podia sentir-se amado e desejado por aquele homem. E por alguns minutos, tudo o que ele conhecia era a falsa sensação de ser envolvido pelo Guardião da Chuva. A mão que o masturbava, a língua que lhe oferecia prazer, os doces sorrisos, os sedutores olhares... tudo não passava de mentiras, uma projeção, um truque que sua mente lhe proporcionava para que ele sobrevivesse à triste realidade. Os gemidos eram omitidos pela mão em sua boca, mas o suor que escorria por seu peito e abdômen era real, assim como o orgasmo que chegou após alguns minutos. A mentira, porém, apareceu quando os olhos verdes se abriram e Gokudera encarou seu próprio clímax em sua mão direita. Seus lábios estavam entreabertos, sua respiração descompassada e embora seu coração batesse rápido por causa da excitação, não havia felicidade. Não havia nada.

O escritório estava vazio e escuro. Yamamoto não estava ali. Ele estava sozinho, de novo; assim como esteve sozinho durante todas as vezes que repetiu aquele ato.

As lágrimas que deixaram seus olhos foram seguidas por um soluço tão desesperador que foi acompanhado por um leve acesso de tosse. O Guardião da Tempestade limpou sua mão com o lenço que estava dentro de um dos bolsos de sua calça e tornou-se novamente apresentável. As lágrimas, entretanto, não pararam de escorrer e acabaram fazendo-o sentar-se outra vez na poltrona. O cheiro do moreno – que até poucos minutos havia sido seu refúgio – agora só o deixava ainda mais angustiado e desesperado. Gokudera estava cansado. Cansado de viver uma situação completamente humilhante e que no final não o levaria a lugar algum. Não havia espaço ou lugar para ele na vida do Guardião da Chuva. O Braço Direito nunca sairia da posição de amigo, ele sabia. Quanto mais alimentasse aqueles sentimentos mais sofrimento o acompanharia. Eu quero deixá-lo ir. Eu quero que ele me odeie, que me deteste. Ele deveria ter se afastado quando soube que eu durmo com homens. Ele deveria ter dito que sentia asco e que me odiava. Eu sobreviveria. Eu e Chrome resolveríamos essa maldita situação. Nós não precisamos dele. Eu não preciso dele. Mentiras. Ele havia contado todas. O único problema é que elas não se transformaram em verdades.

O momento de Gokudera passou após alguns minutos e ele deixou seu escritório, seguindo até o banheiro para limpar-se propriamente. Não havia sinal do moreno pelos corredores, então ele decidiu que poderia transitar livremente sem correr o risco de ser abordado por uma onda de perguntas que mais pareciam saídas de um interrogatório. O homem de cabelos prateados retornou ao estacionamento e sentou-se novamente em seu carro. Seu estômago o lembrou de que ele precisava daquela refeição, mas o Guardião da Tempestade passou direto pelo centro comercial, virando à direita e pegando a rodovia. Os melhores restaurantes estavam no centro de Namimori, mas ali também se encontrava a chance de esbarrar em algum conhecido, ou até mesmo aquele que ele não queria ver. E, honestamente, aquele risco Gokudera não correria. Não naquele dia.

O restaurante escolhido ficava afastado, mas a comida era boa e o preço acessível. Sua escolha foi um suculento prato de yakisoba. O tempero estava no ponto, o macarrão bem cozido, mas sem parecer ensopado; os legumes bem temperadores, e por uma hora o Braço Direito aproveitou sua refeição como se o mundo pudesse esperar por aquele pequeno prazer. A sobremesa foi comprada na doceria que ficava ao lado, e o homem de cabelos prateados só retornou ao veículo após devorar um delicioso e fresco sundae de morangos. Bem alimentado e com a cabeça arejada, o Guardião da Tempestade deu partida no carro e seguiu através do caminho que o levaria ao centro de Namimori outra vez. Havia um lugar que ele precisava ir, uma pessoa que precisava ver e um sincero pedido de desculpas que ele precisava oferecer. A única pergunta era se a pessoa em si se dignaria a recebê-lo.

x

Masayoshi o recebeu com a mesma expressão séria, o mesmo par de óculos e a mesma cortesia de todas as visitas anteriores. Gokudera sentiu-se novamente com 16 anos, totalmente inexperiente e tímido sob o olhar daquele homem. Seus lábios se entreabriram, mas nada saiu de sua boca. As pontas de seus sapatos batiam no degrau da pequenina escada, e por mais que soubesse bem o motivo que o levou até ali, o Braço Direito não sabia por onde começar.

"Entre." A voz do moreno soou baixa. "Eu fiz café."

O homem de cabelos prateados agradeceu e deu um passo à frente. Seus sapatos ficaram na entrada, e ele sentiu-se desconfortável em caminhar pelo caríssimo piso que forrava toda a extensão da sala de estar. Sobre a mesinha de centro estava um laptop e os sofás cheios de papéis. Ele está trabalhando. Ele deve estar extremamente ocupado. Eu não tenho o direito de atrapalhar a vida desse homem. A xícara de café foi oferecida, e isso o trouxe de volta a realidade. "Obrigado."

O líquido desceu quente por sua garganta. A temperatura estava ideal, assim como o gosto forte e levemente açucarado. Masayoshi sentou-se em um dos braços do sofá e o Guardião da Tempestade viu naquele gesto a chance de dizer aquilo que o levou até ali.

"Aquele homem." A voz do moreno o impossibilitou de começar. "Você gosta daquele homem, correto?"

"Sim." A resposta era óbvia. Eu amo aquele homem há muito tempo.

"Você veio aqui terminar de maneira limpa, não?"

"Sim."

"Obrigado." Masayoshi esboçou um triste meio sorriso antes de dar um gole em sua xícara. "Você está dormindo com ele?"

"Não." Gokudera riu sem graça. Ouvir outra pessoa dizer aquilo soava ainda mais impossível do que suas próprias fantasias. "Ele não sente o mesmo. Ele ficará noivo e se casará provavelmente em breve. Ele não sabe dos meus sentimentos."

O homem encarou o fundo de sua xícara e pareceu ponderar por alguns segundos. Seus dedos giraram a peça de porcelana, mas antes de levá-la até os lábios, sua voz voltou a cruzar a sala. "Eu não me importo que durma comigo pensando em outra pessoa. Eu gosto de você, gosto do seu corpo, da sua personalidade, e acredito que temos algumas afinidades aqui e ali. Então, se eu disser que não quero terminar, você reconsideraria?"

"Não." O Braço Direito havia terminado seu café. Seus pés caminharam pelo piso, mas sem som por causa das meias brancas que ele usava. A xícara foi pousada na peça de madeira encostada à parede e ele parou entre as pernas de Masayoshi. "Você merece alguém que durma com você pensando em você." O homem de cabelos prateados retirou a xícara das mãos do moreno e a colocou ao lado da sua. "Eu não mereço uma segunda chance e não estou pedindo por isso. Você esteve lá por mim quando eu mais precisei e por isso eu sempre serei grato, mas eu não posso continuar fazendo isso. Não comigo, e não com você."

"E se eu disser que me apaixonei por você?" Masayoshi subiu as mãos pelas pernas do Guardião da Tempestade, segurando firme a cintura do homem entre suas pernas.

"Eu lhe chamarei de mentiroso."

"Você dormiria com este mentiroso uma última vez?"

"Não."

"E quanto a um beijo? Um último beijo?"

Os lábios se encontraram no meio do caminho e entre as últimas palavras. O beijo iniciou intenso, com Gokudera invadindo os lábios do homem que fora seu amante pelos últimos meses e que havia lhe oferecido tanto, mas sem pedir absolutamente nada em troca. Até aquele momento ele não sabia o quão sensível e desejoso de contato humano ele estava. Apenas ao sentir-se desejado e apalpado foi que o Braço Direito entendeu que aquela despedida jamais poderia ser feita com apenas um beijo. O moreno o puxou pela perna, fazendo-o sentar-se sobre seu colo e aquele gesto arrancou um gemido baixo dos lábios do Guardião da Tempestade ao sentir a ereção embaixo de seu quadril. Seu corpo tremia e ansiava por contato, e a cada segundo se tornava mais difícil não ceder. Masayoshi o conhecia. Conhecia seus pontos fracos, onde deveria tocar para conseguir uma reação, que palavras usar para fazê-lo ficar. Aqueles meses o salvaram de uma queda muito maior e muito mais profunda e por tudo isso ele seria eternamente agradecido.

Gokudera interrompeu o beijo, colocando a ponta de seus dedos sobre os lábios do homem embaixo de seu colo. Aquele simples gesto lhe custou toda a força de vontade que seu corpo possuía, e ele não soube dizer como conseguiu fazer suas pernas lhe obedecerem, mantendo-o em pé e se afastando passo depois de passo, até que ambos estivessem separados por uma distância segura.

"Eu quero você." A voz de Masayoshi soou rouca. A ereção sob sua calça era extremamente visível. "Você me quer também."

"Eu quero, mas eu não posso." O Braço Direito colocou a franja atrás da orelha. Seu cabelo havia crescido nas últimas semanas. "Se eu dormir com você agora eu não conseguirei ir embora."

"Então não vá. Esta casa é grande o suficiente para duas pessoas."

"A outra pessoa não serei eu, sinto muito." A razão retornava aos poucos.

"Você merece mais do que um cara que não sabe dos seus sentimentos, Hayato."

"Ele é mais do que eu mereço, na verdade." O Guardião da Tempestade sorriu triste. Ele é tudo o que eu sempre quis. "Obrigado pelo café. Estava delicioso."

Gokudera deu as costas e seguiu pelo corredor, parando apenas para recolocar os sapatos. O céu ainda estava nublado quando ele ganhou a rua, mas as nuvens em seu coração haviam desaparecido. Em anos aquela era a primeira vez que ele conseguia enxergar-se de verdade, e aquela sensação o deixou incrivelmente leve. O carro desceu a rua e virou à esquerda e em poucos minutos ele estava novamente rumo ao escritório. Havia trabalho a ser feito, um futuro a ser mudado e uma vida a ser vivida. Havia coisas muito maiores e mais importantes do que seu drama pessoal e, no fundo, o Braço Direito sabia que não conseguiria realizar aquele plano enquanto sua vida pessoal estivesse aquela bagunça. Eu preciso colocar as coisas em seus devidos lugares. Eu preciso deixá-lo ir embora. Sua vaga no estacionamento foi preenchida por seu carro, e pela segunda vez naquele dia o homem de cabelos prateados entrava no elevador e fazia aquele mesmo caminho. Seus pés cruzaram os corredores, enquanto sua mente repassava o que ele sabia sobre o plano, tentando ter alguma ideia de como dar o próximo passo. Hibari. Nós temos de falar com Hibari. O dessa época. O Hibari de agora. A realização de que o Guardião da Nuvem poderia ser a chave para o sucesso o fez sorrir triunfante. O Jyuudaime não merece passar por isso, nem o próprio Hibari. Ninguém merece passar por esse tipo de situação.

A porta de sua sala foi aberta e o Guardião da Tempestade ficou levemente surpreso por ver Yamamoto o esperando. O moreno estava recostado à sua mesa e sorriu ao vê-lo entrar.

"Eu passei para convidá-lo para almoçar, mas você já havia deixado o prédio."

"Eu tinha assuntos para resolver." A voz de Gokudera saiu nem alta nem baixa. Aquela era a primeira vez que ele conversava com o Guardião da Chuva sem tremer. Por que antes parecia tão difícil?

"Entendo."

O Braço Direito levantou os olhos. A expressão no rosto de Yamamoto havia se tornado um pouco dura.

"É relacionado àquele homem que encontrei quando fui visitar seu apartamento?"

A princípio, o homem de cabelos prateados ergueu as sobrancelhas, mas não respondeu. Ele poderia simplesmente dizer que aquilo não era assunto para ser tratado entre eles, mas isso seria injusto. Mesmo que não pedisse para ouvir, durante todos aqueles anos o Guardião da Tempestade escutou a basicamente tudo o que o moreno disse sobre seus relacionamentos. E talvez isso fosse algo positivo. Talvez falar sobre o assunto o ajudasse a esquecer.

"Sim, mas não quero falar sobre isso no momento. Temos coisas muito mais relevantes para tratarmos." Gokudera retirou o terno e o deixou sobre a cadeira.

"Você o ama?"

A pergunta pegou o Braço Direito de surpresa, mas nada o surpreenderia mais do que a expressão no rosto de Yamamoto. O sorriso fácil e amigável que o recebeu até poucos segundos havia desaparecido, e naquele momento o homem de cabelos prateados ficou confuso. Por que o idiota queria saber? Que diferença faria se ele estivesse ou não apaixonado? O Guardião da Tempestade inclinou-se e digitou a senha da gaveta, retirando sua pasta e a colocando sobre a mesa. Se eu não fizer isso eu nunca terei paz. Eu preciso me concentrar nesse assunto. Eu preciso deixá-lo ir. Eu preciso esquecê-lo.

"Eu tive algumas ideias que talvez nos ajudem com o plano." Gokudera abriu um dos arquivos e o empurrou sobre a mesa, na direção de sua companhia. Seus olhos verdes se ergueram, recebendo em troca dois sérios olhos castanhos. O moreno inclinou-se, apoiando a mão sobre a pasta e mostrando que queria sua resposta.

“Eu te fiz uma pergunta, Gokudera.”

“Por que você quer saber?” Os lábios do Guardião da Tempestade mal se moveram. Pense na missão. Você não tem tempo de lidar com esse tipo de coisa agora. Chega, Hayato. Chega de viver nas sombras desse homem. Você merece mais. Você merece mais do que migalhas. O Braço Direito abaixou os olhos e umedeceu os lábios. Quando ele voltou a encarar o homem à sua frente, seus lábios formaram um triste meio sorriso. Adeus, Yamamoto.

"Não, eu não o amo.” Gokudera podia sentir o peso ser retirado de suas costas. Seu coração se tornava mais leve. “Por que a pessoa que eu sempre amei é você, Yamamoto."

Continua...