Vencendo desafios
3 Desafio 3 - Mudança
Após o mal fadado jantar e o consolo da minha tia, voltei para a cozinha e recolhi tudo, limpando o necessário. Fui até meu quarto e iniciei a única tarefa restante. Arrumar minhas malas. Separei as roupas rapidamente e as coloquei no interior da mala esperando inutilmente que aquilo não me machucasse emocionalmente. Obviamente uma expectativa inútil. Me culpei novamente por pensar apenas em mim e assumir uma posição tão egoísta. Aquilo seria o melhor para ambos. Ele poderia prosseguir sua vida sem um empecilho e eu o deixaria ser feliz.
Deitei tentando acalmar meus batimentos cardíacos. Abracei meu urso de pelúcia, que com certeza levaria e fechei meus olhos aguardando que o sono viesse. Nunca gostei de bonecas, mas me apaixonei pelo urso com olhos de botões de cores diferentes e braços de retalhos. Acho que ele foi confeccionado com o restante de diversos materiais, e o fato de ele ser tão diferente fez meu coração derreter. Ele também não tinha uma das orelhas peludas, um conjunto de detalhes imperfeitos que o tornavam ainda mais especial. A transição do dia teve algum efeito sobre meus músculos, porque logo adormeci.
Me vi projetada em um campo de futebol enorme. A bola estava em meus pés e eu iniciei uma corrida frenética até o gol. Alguns personagens conhecidos me fitavam da arquibancada. Continuei minha trajetória contornando minhas colegas de time que evaporavam a medida que as deixava pra trás. Peguei impulso com o pé esquerdo e lancei a bola em direção a rede com toda a força restante. Marquei o gol e quando me virei para comemorar meu pai estava na minha frente.
— Conseguiu Lyn... você pode morar com sua mãe...
As palavras dele não faziam sentido e quando tentei alcançá-lo um buraco se abriu sob meus pés. A escuridão me tomava gradativamente enquanto observava meu pai rindo de mim a uma distância cada vez maior. Quando o final aparentemente chegou levantei bruscamente da cama e despertei daquela insanidade ilusória. Olhei o relógio constatando que acordei dois minutos antes dele despertar. Fui para o banheiro, tomei um banho demorado molhando meus cabelos. Fiz minha higiene matinal e iniciei o longo processo de hidratar meus cachos. Amava meu cabelo, entretanto dispensaria rapidamente o trabalho árduo que me causava se tivesse a oportunidade. Escolhi um jeans escuro, uma camisa cinza, um lenço amarelo e meu all star preto. Peguei minha mala, um valise com outros produtos, e uma bolsa de viagem grande onde estavam todo meu material esportivo, inclusive minha bola de futebol. Encontrei minha tia do lado de fora com meu pai, me aguardando. Ela estava feliz e ele sério.
— Vai lá John, tirar foto com a sua menina. Logo logo ela se tornará uma mulher!
Ele andou até mim e desejei que ele interpretasse o meu olhar como um pedido de desculpas. Desconfiei que ele não tivesse dormido pelas olheiras visíveis. Ele abraçou meu ombro e fitou a câmera.
— Sorria Lyn! É um dia glorioso!
Ri com a frase inesperada.
— Vamos levá-la!
Ouvir as palavras dele me trouxera um alívio absoluto. Uma trégua temporário era o que eu necessitava. O momento já possuía um grau de dificuldade sem o teor dramático. A estrada se tornou nossa companheira por um longo tempo e de uma maneira inexplicável o ambiente se tornara agradável assim como os diálogos que se sucederam. Depois de algum tempo a música também fez parte do trajeto e nossas vozes desafinadas se juntaram ao barulho da estrada. Eu considerava expectativas e esperanças uma grande fonte de decepção, porém também adorava o fato de estar errada sobre esses dois assuntos. Aqueles momentos marcaram o início de uma nova fase para mim.
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