Venam - Nascidos para morrer
2 Mudanças
Notas iniciais
Prendo meu cabelo castanho escuro em um rabo de cavalo alto. Como é primavera, não está tão frio, então coloco um short desfiado com uma meia calça preta por baixo, uma blusa preta qualquer, calço meu tênis de cano alto e pego minhas três bolsas.
Meu pai e eu estamos nos mudando para Norwich, segundo ele vou adorar nossa nova casa: fica a duas quadras da estação e a cidade abriga a biblioteca Millennium, que particularmente sou apaixonada.
Desço as escadas e o encontro me esperando no hall com os cabelos bagunçados e os óculos tortos – como sempre –, cheio de malas e com um homem baixinho a seu lado, provavelmente aquele que levará a mudança.
Não ligo para a mudança, para dizer a verdade, mas imagino como será sair do centro movimentado de Londres para ir morar em uma cidade pacata. Vou sentir falta do barulho constante de passos, vozes e veículos. Vou sentir falta de morar perto – não que alguém more realmente perto – da Torre do Relógio, que abriga o Big Ben.
A casa nova fica ao lado de uma Kingdom Hall. É menor do que a que estava acostumada, possui uma fachada de tijolos marrons, janelas e porta brancas, e um gramado na área da frente.
Na parte de baixo há o de sempre: sala, cozinha e um quarto com banheiro sob a escada que faz com que eu me lembre de Harry Potter. No segundo andar um corredor minúsculo que leva para mais dois quartos e outro banheiro. E por fim, subindo por uma escada quase vertical, chego até meu quarto no telhado. Eu sempre quis ter um quarto no telhado.
– O que achou? – ele pergunta sorrindo.
– É aconchegante. – Sorrio de volta. – Eu sempre quis...
– Ter um quarto no telhado – meu pai completa balançando a cabeça e rindo. – Preciso organizar os móveis e preparar umas aulas, por que não explora a casa?
– Não faço mais isso desde meus doze anos, pai.
Dou-lhe um beijo na bochecha e subo para meu quarto.
Meu pai é professor de biologia e, como esse é o país onde mais se valoriza essa profissão, sempre tivemos dinheiro de sobra. A escolha de vir morar aqui não foi por falta dele, meu pai só queria um pouco de paz. Talvez a movimentação o faça se lembrar de mamãe, não sei.
Minha mãe era uma bailarina conhecida no mundo quase todo, adorava multidões e poluições sonoras e visuais. Seus movimentos eram graciosos, o corpo leve como uma brisa, os passos firmes como se fossem movidos por mãos gigantes. Pelo menos é o que me dizem. Ela morreu enquanto me dava à luz. E não, eu não vou fazer nenhum drama por isso.
No outro dia, acordo cedo, a fim de fazer algo para meu pai, que deve ter ficado acordado até tarde preparando aulas.
Pego os pãezinhos. Frito ovos e bacon. Bato leite com achocolatado no liquidificador. Arrumo a mesa e pronto.
– Bom dia, Fia.
Lanço um olhar irritado na direção dele. Sempre odiei apelidos.
Depois de tomarmos café animados, demorando em uma conversa idiota, percebo que já são oito horas. Me arrumo rapidamente com o uniforme – saia de prega, meia alta branca, sapatilha preta, blusa social com gravata também preta e um casaco azul marinho — e encontro meu pai no seu “bebê”, uma BMW 640d vermelha.
Nove horas em ponto estou na porta da escola nova. A fachada, também de tijolinhos marrons, parece convidativa e me deixa uma sensação de lar.
Durante o dia, me surpreendo com algumas coisas. Primeiro, os professores parecem completamente malucos. Segundo, além das matérias comuns, tenho aulas de espanhol, português brasileiro, alemão e holandês. Terceiro, as aulas extras são todas do que eu chamaria de habilidades de sobrevivência e luta.
Acho que não vão rolar aulas extras pra colocar no meu currículo esse ano.
Os dias passam mais rapidamente do que posso imaginar, antes que eu perceba a escola está consumindo todo o meu tempo. Não lembro mais de ligar para meus amigos, não fui ainda a Millennium, não vejo meu pai direito. Os professores aplicam atividades cada vez mais complicadas, e os de geografia e história em especial parecem querer nos levar para a guerra, com tantos trabalhos envolvendo estratégia.
– Feliz aniversário! – meu pai diz animado em uma manhã.
Eu não notei que já estamos em novembro. Eu não notei que é meu aniversário de 16 anos.
Dou um sorriso e agradeço, sentando pra comer o bolo de chocolate – provavelmente suíço – e aproveitando para colocar a conversa em dia com ele.
– Você parece cansado.
– Muitas aulas. – Ele sorri. – Os alunos estão adorando o método de aulas que desenvolvi, não resisto a fazer palestras extras.
Assinto com a cabeça, ele é paranoico com essas coisas mesmo.
– E você? Como anda a escola?
– Lá é... Diferente – digo franzindo o cenho. – Não dá pra explicar muito bem sem que se esteja lá.
Há algo de errado hoje. E não são só os seguranças que estão postados em vários pontos da escola, mas o ar parece carregado, os professores estão agitados e alguns olham determinados alunos com interesse anormal.
Às quinze horas, não somos liberados. Encaro o soldado que está diante da sala, esperando que ele explique logo porque está atrasando meu café da tarde.
Ele aponta para três alunos na minha turma, incluindo eu, e faz menção para que o sigamos. Solto um suspiro alto e me levanto, jogando a mochila nas costas.
Assim que saio para o corredor, porém, um par de braços me agarra e quando abro a boca para gritar, sinto o cheiro forte de clorofórmio no pano que está sob meu rosto.
O mundo escurece, a escola some, e tudo parece se consumir.
Sinto uma cama fofa, um travesseiro macio e uma colcha de piquet. Não entendo isso. Se eu fui sequestrada...
Como fui sequestrada dentro de uma escola cheia de soldados? Abro os olhos, só para encontrar outro par me encarando.
– Bom dia, Sofia Kalt Schmerzen.
Droga, eu não queria ter aprendido alemão naquela maldita escola. Meus sobrenomes podem ser bonitos e de duas famílias tipicamente alemãs, mas quem quer ter o nome “Sofia Afta”?
– Bom dia – digo mal humorada.
– Sou o soldado Idioot, e serei seu mestre.
Idioot? Sério? Desde quando fiquei tão revoltada? Ah é, desde que me colocaram pra cheirar uma droga de pano com clorofórmio!
– E porque exatamente eu preciso de um mestre? – pergunto sentando-me.
– Por que você foi escolhida para matar.
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