Velvet Touch
20 Desafio
Notas iniciais
Os primeiro raios de sol começavam a invadir o quarto mais tarde do que o habitual. Clara esticou-se preguiçosa e espaçosamente, com liberdade demais, e ainda de olhos fechados tateou pela cama, buscando encontrar o corpo da fotógrafa ao seu lado, mas se deparou apenas com o vazio. Despertou rapidamente, pensando ter perdido a hora e na possibilidade de ter sido deixada para trás pela namorada, afinal, depois do que Marina lhe fizera na noite anterior, não duvidava de mais nada. Abriu os olhos e esquadrinhou o quarto, procurando por sua amada.
Encontrou a figura da fotógrafa completamente alheia a sua presença, sentada na poltrona do outro lado do quarto, olhando atentamente as fotos que faziam parte da exposição no notebook a sua frente, fones de ouvido que ostentavam um volume absurdamente alto, e seu iPod na mão. Clara aproximou-se devagar, movendo-se pelo lado oposto ao de seu campo de visão e a alcançou sem que a outra percebesse sua chegada, parando às suas costas. Tirou um dos fones e colocou as mãos em seus olhos.
_Adivinha quem é... – sussurrou beijando atrás de sua orelha.
_A bandida que roubou o meu pobre coração. Sem dúvida! – respondeu divertida, virando para dar um beijo em seus lábios – Bom dia!
_Bom dia amor! Porque você não me acordou? Já é um milagre que tenha acordado antes que eu – disse dando-lhe mais um selinho – Ainda mais depois do porre que certas pessoas tomaram ontem! – disse deixando a bronca pairar no ar de forma leve, em tom de brincadeira.
_Pois saiba a senhora que precisa de muito mais para me derrubar, tá?! E não te acordei porque está cedo ainda, e você estava dormindo tão bonitinha que fique com dó – riu – Fico ansiosa antes de eventos assim. Não tem jeito! Ainda estou me situando com os críticos no Brasil, e São Paulo, em matéria de arte e cultura, tem um peso muito maior do que o Rio de Janeiro – as palavras saiam um pouco atropeladas, evidenciando a ansiedade da fotógrafa para aquele momento – Então essa exposição é realmente muito importante, e tudo tem que sair impec... – foi interrompida docemente pelos lábios da outra.
_Ei... Você é Marina Meirelles meu amor! – pronunciou seu nome com imponência – Esqueceu? – sentou-se de lado em seu colo, sendo imediatamente abraçada pelos braços brancos e delicados da outra – A mulher que roubou o meu coração! – Clara encarava-a com uma ternura tocante, sustentando um sorriso bobo que só os apaixonados conseguem expressar – A mulher mais linda – beijou sua bochecha demoradamente – Mais inteligente – repetiu o beijo, depositando-o agora em sua testa – Mais carinhosa – beijou sua outra bochecha – E mais sensual desse planeta! – seus olhos passearam por todo o corpo da namorada, pousando o olhar no sorriso malicioso que aparecia involuntariamente em seus lábios.
As duas ficaram em silêncio por alguns segundos, encarando-se, e uma das mãos da fotógrafa dirigiu-se ao rosto da namorada, lhe fazendo um carinho delicado.
_Eu te amo, Marina! – sentiu o corpo da outra inclinar-se para frente, tencionando levar seus lábios ao encontro dos dela, mas com o dedo indicador impediu que a fotógrafa a beijasse naquele momento. Era delicado, e sem dúvida nenhuma das duas queria voltar naquele tema, mas ela precisa concluir o que tinha para dizer – Eu realmente te amo! Eu não trocaria o que temos por nada nesse mundo, você entende isso Marina? Você consegue acreditar em mim? – Clara olhava no fundo de seus olhos de maneira tão intensa, que parecia poder despir a alma da artista sem esforço algum.
_Eu acredito em você, amor! Disse que não duvido do seu amor e não o coloquei a prova em momento algum – contornou os lábios dela com a ponta do dedo indicador – Eu sei que você não está brincando comigo, Clara.
_Preciso que você confie não só no meu amor, mas em mim também – disse mantendo a mesma intensidade no olhar – Eu confesso que você com ciúmes até me envaidece, mas, não podemos ter brigas como a de ontem amor – sua voz baixara sem que percebesse – Não posso sentir você distante de mim daquele jeito de novo – a frase soara como um pedido – Fiquei tão preocupada quando via as horas passando e você não voltava. Um milhão de coisas na minha cabeça... – deixou a frase pairando no ar.
Marina segurou o rosto da assistente nas mãos, devolvendo toda a sinceridade que a outra depositava naquele olhar.
_Clara, me desculpe por ter demorado tanto ontem. Eu não fiz isso por mal, juro – respirou fundo – Quanto a nossa briga, eu odeio ficar nesse tipo de clima tanto quanto você, mas temos que admitir que algo está acontecendo aqui, certo?! – a fotógrafa engoliu em seco, não queria ter de tocar naquele assunto novamente – Eu vi vocês duas chegarem ontem. Ela se sente a vontade demais do seu lado, se sente livre demais para tocar em você, e por mais que ela seja abusada, tem que ter um motivo pra que se sinta nessa liberdade Clara! – viu a assistente baixar o olhar e não soube muito bem como deveria interpretar aquele movimento.
_Marina... Sei que vai soar estranho, mas, esse jeito dela, me lembra muito você! A forma com que agia naquela fase em que tentava me conquistar...
_Ela balança você como você balançou por mim, Clara? Você sente falta de alguma coisa comigo? Eu deixei de ser suficiente pra você? Seja sincera comigo... Por favor! – Marina perguntou engasgada e as palavras quase não saíram de sua boca.
_Não meu amor. Não! – respondeu depressa, tranquilizando-a – Eu não sinto nada por ela, é essa semelhança entre vocês que me atordoa um pouco. Eu admito! – voltara a olhar nos olhos da outra – Mas não passa disso, Marina! Não quero outra pessoa na minha vida.
_Tem certeza disso, Clara?
_Tenho. Você me completa em tudo, meu amor – agora era Clara que tinha o rosto de Marina nas mãos – Você acredita em mim?
Assim que a fotógrafa abriu a boca para responder, seu celular começou a tocar em cima da mesa e Marina aproveitou a deixa para adiar aquela resposta. Olhou no visor do aparelho e o número que piscava ali não constava em sua lista de contatos. Vinha com um DDD 011, indicando que era um número de São Paulo e imaginando que fosse alguém da galeria atendeu rapidamente.
_Alô, Marina? – apesar de não identificar de imediato, a voz do outro lado da linha lhe soava familiar.
_Oi, eu mesma. Quem fala? – perguntou ainda tentando associar a voz a algum rosto.
_É a Renata! Tudo bem? – identificou-se animada.
_Ah, oi! Tudo bem e você Rê? Achei que não fosse ligar hein... – brincou.
_Imagina que ia perder a chance de ir à sua exposição, com convite VIP ainda por cima – riu – E a ressaca? A minha está das brabas, mas até de noite me recomponho! – riu novamente, esbanjando sua simpatia juvenil.
_Ainda bem que eu tenho algum componente no cérebro que me impede de ter esses problemas do dia seguinte! – falou Marina rindo junto com a estudante.
Mesmo que um pouco emburrada por não ter obtido resposta, Clara tinha saído do colo da namorada para lhe dar privacidade ao celular, mas assim que captou aquele “problemas do dia seguinte” seus ouvidos voltaram a atentar-se para a conversa de Marina com a tal de “Rê”.
_Então Rê, manda seu nome completo para mim por SMS, e você vai levar algum acompanhante? Sua maluca, por exemplo? – riu novamente, lembrando-se da conversa que tiveram no bar.
_Que viagem a nossa de ontem né Mari?! – a jovem gargalhava – Vou levar uma amiga que quase caiu para trás quando soube que nos encontramos assim, por acaso. Deixa a maluca em casa, e tô torcendo para que ela fique com ciuminho viu... Preciso me vingar de algum jeito, né?!
_Viagem? Viagem é pouco – divertia-se com a resposta da outra – Sem comentários para ontem à noite! E é sempre bom nos vingarmos um pouquinho dessas mulheres malucas – Marina ouviu a porta do banheiro bater atrás de si – Então me manda os nomes completos de vocês que deixo lá na recepção da galeria como convidadas minha.
_Combinado lindona! Conheço a sua maluca hoje?
_Conhece sim. Com certeza! Até mais tarde Rê...
Despediu-se e desligou o aparelho. Foi em direção ao banheiro, mas Clara havia trancado a porta. Não entendeu bem o que tinha acontecido, mas, decidiu voltar para o que fazia antes de ela acordar. Pegou seu notebook e deitou-se na cama com ele apoiado no colo. Não tinha como negar que sua noite havia sido curta, e o silêncio somado a monotonia de passar fotos na tela do computador a fez adormecer sem que percebesse.
Minutos depois, Clara saiu do banho e deparou-se com a cena de Marina dormindo calmamente ali e não resistiu. Tirou o notebook de seu colo, afastou os óculos que estavam em sua mão pousada ao lado do corpo, e deitou-se sobre ela. Acordou-a com beijos disparados por todo o seu rosto, chamando-a de dorminhoca e a apressando para que pudessem tomar café antes de sair.
Antes de obedecer às ordens de Clara, Marina a agarrou por longos minutos, deixando suas bocas deliciarem-se uma na outra. Depois de a namorada alertar pela milésima vez que iriam se atrasar, correu para uma ducha rápida e pouco tempo depois estava pronta para sair. Desceram até o restaurante do hotel e tomaram um bom café da manhã. O assunto predominante entre elas fora a audiência de separação entre Clara e Cadu, pois, em virtude dos últimos acontecimentos ainda não tinham tocado no assunto.
A assistente contara em detalhes as falas de Cadu assim que chegou ao cartório, provocando espanto e inevitáveis risos da outra. Contou também que o chef havia se sentido mal durante a audiência e que achou que não fossem conseguir assinar os papéis aquele dia, mas que no fim tudo havia saído conforme o esperado, e que agora finalmente era uma mulher livre legalmente. Ficou em dúvida se contava ou não a última parte desse encontro, mas lembrou-se da confusão que acabou sendo o fato de ter decidido não contar quando conhecera Melissa, e resolveu falar tudo de uma vez sobre a discussão em torno da guarda de Ivan. Essa última parte irritara profundamente a namorada, provocando comentários agressivos em relação ao comportamento infantil do chef, que logo foram contidos pelo assédio de algumas pessoas à fotógrafa.
Ficaram ali no restaurante por mais algum tempo, e mesmo que não fosse de maneira absurda, Marina era consideravelmente procurada por outras pessoas no salão. Algumas pediam autógrafos em revistas, outras posavam para fotos e a fotógrafa divertia-se com os olhares fulminantes que Clara lançava a toda e qualquer mulher que se aproximasse demais da namorada. Não era segredo para a mídia nem para o público a orientação sexual da fotógrafa, e Clara tinha a nítida impressão de que todas as mulheres que se aproximavam, o faziam com segundas, terceiras e quartas intenções.
Mesmo sem se dar conta totalmente, seguia atentamente todos os mínimos movimentos faciais de Marina pelo salão, e percebeu de imediato quando seu semblante mudou, passando a assumir uma expressão densa e pesada.
_Bom dia meninas! – ouviu a voz aveludada de Melissa soar às suas costas.
_Bom dia Melissa, tudo bem? – respondeu Marina levantando-se com um sorriso no rosto, impecavelmente impassível e educada. A italiana lhe beijou a face duas vezes, cumprimentando-a. Clara por sua vez, entendeu perfeitamente a postura que Marina assumira naquele momento e não se mexeu, respondendo ao cumprimento apenas com um leve aceno de cabeça.
_Que bom encontrar vocês por aqui há esta hora. Odeio tomar o café da manhã sozinha, e o voo das garotas atrasou... – disse convidando-se a mesa.
_Pois é, a Vi me avisou. É realmente uma pena Mel, mas não poderemos te acompanhar. Estávamos de saída quando você chegou – respondeu Marina falando pelas duas e dando dois passos a frente. Clara não ousou questionar nada, pois via o desafio desdenhoso no olhar de ambas as mulheres. Levantou-se e parou ao lado da namorada, entrelaçando seus dedos aos dela.
_Poxa, que pena então – direcionou o verde de seus olhos para a assistente – Você está linda Clara! – disse medindo-a de cima a baixo e voltando seu olhar para o de Marina, como se a chamasse para uma briga.
_Essa é uma observação um pouco retórica né Mel?! – Marina riu, encarando-a friamente – A Clara nunca ESTÁ linda, ela É linda, o que é bem diferente – virou-se de frente para a namorada, deslizou os dedos por seu rosto, fazendo-lhe um carinho doce – É a única mulher que já acorda assim... Estonteante! – segurou seu queixo com uma das mãos e selou seus lábios demoradamente, deixando Melissa consideravelmente desconfortável.
A italiana pigarreou fraco, e Marina sorriu discretamente nos lábios da namorada. Sem dúvida nenhuma, havia vencido aquele round.
_Bom, vamos começar a trabalhar né?! Tenha um excelente café da manhã Mel! – disse sorridente e irônica.
_Um bom dia para vocês, Mari... – meneou a cabeça, usando da mesma ironia de Marina – Clarinha... – gastou mais um de seus lindos sorrisos em direção a carioca.
_Bom café! – a assistente limitou-se a dizer, antes de virar-se e sair de mãos dadas com a namorada.
Agora aquela briga era oficial. O desafio estava lançado e fora aceito por ambas as jogadoras!
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Melissa ficou ali, observando a saída das duas do hotel e um brilho literalmente malévolo inundou o verde de seus olhos. Marina finalmente havia entrado no jogo, e a italiana estava louca para começar a mostrar suas armas de ataque. Sabia que antes de namorar a fotógrafa, Clara era casada e nunca tinha se envolvido com mulheres, e em sua cabeça, isso facilitava um pouco as coisas para ela, afinal, curiosidade ainda não é pecado e a inexperiência da carioca nesse novo mundo poderia contar a seu favor naquela disputa.
Não sabia exatamente qual era o seu real interesse na dona de casa, mas a única certeza que tinha era a de que ela a havia encantado de uma maneira diferente, desde aquele dia em que seus olhares se cruzaram na cozinha da casa em Santa Teresa. Não era acostumada a não ter o que queria, e se não desse certo por bem, geralmente pesava sua artilharia até que conseguisse por mal. Reconhecia que pela primeira vez, tinha uma adversária a sua altura, afinal de contas, Marina Meirelles não era qualquer uma, mas o relacionamento das duas nunca fora uma questão para os poucos escrúpulos que Melissa considerava quando estava em meio as suas caçadas sexuais.
Não mentiu para Clara quando dissera que havia aproveitado a exposição de sua namorada para marcar de rever alguns amigos na cidade cinza de São Paulo, mas, também não lhe contara toda a verdade. Apesar de não ser pessoalmente, Melissa conhecia sim Marina de outras épocas, e apesar de não ter tido o prazer de encontrar-se com ela nessa fase, sua fama de mulherenga e caçadora a precedia nos bastidores do mundo artístico. Imaginou pela vida pacata que a assistente de fotografia levava, que ela não soubesse de todas as histórias sobre o passado de Marina, e com certeza não era ela que perderia a chance de conta-las, ao melhor estilo Melissa de ser.
Havia se encontrado com algumas amigas na noite anterior, mais precisamente três delas: Thaís, Rebeca e Lívia. Todas eram modelos lindas e estavam em São Paulo para o Fashion Week daquele ano, mas o principal interesse da italiana nas três era o fato de já terem caído na lábia de Marina tempos atrás. Thaís conhecia inclusive Victória, porém não ia muito com a cara da loira, e uma vez que teve problemas e discussões graves com a Marina devido às crises ferrenhas de ciúmes que tinha da antiga professora da fotógrafa, considerava-a o pivô de sua separação. Apesar de tudo, tinha até engatado um caso mais duradouro com Marina, que durou até não muito tempo antes de ela voltar para o Brasil.
Rebeca, por sua vez, era noiva quando deparou-se com os encantos de Marina e não conseguiu resistir. Não tinha rancor nenhum da fotógrafa, muito pelo contrário, recordava-se dela com um carinho que jamais se lembrava do antigo noivo, e tinha até certa gratidão velada por aquela aventura tê-la salvo de um casamento fadado ao fracasso, e ter lhe mostrado sua real orientação sexual. Já Lívia, tinha a história menos impactante das três, era uma garota solteira quando a conheceu em uma exposição nos Estados Unidos, tendo estado apenas duas noites na companhia de Marina. Contudo, era importante para o plano de Melissa mesmo assim, afinal, quantidade nessas horas pesa muito mais do que qualidade.
Pegou seu celular e discou o número de Thaís. Conversou rapidamente com a jovem loira, retomando alguns assuntos bobos que haviam conversado na noite anterior, e confirmou sua presença para o evento daquela noite. Repetiu o mesmo texto para Rebeca e Lívia, nas outras duas ligações que fizera, recebendo a mesma resposta afirmativa em relação à presença de ambas na exposição de Marina.
Sorriu sozinha, pensando em como faria aquilo tudo funcionar sem que nenhuma das envolvidas percebesse seu real interesse na presença de todas naquela noite, e decidiu que simplesmente agiria normalmente. Afinal, Clara podia não saber dos detalhes, mas Marina sabia de casa um deles, e com certeza isso faria algum efeito na charmosa fotógrafa. Ainda sorria para o vazio quando viu a figura de Victória materializar-se a sua frente.
_Oi Mel... Planeta Terra chamando! – brincou a loira.
_Oi linda! – cumprimentou-a sedutoramente, como sempre – Tudo bem meninas? – perguntou a Vanessa e Flavinha que vinham logo atrás – Já está tarde para o café da manhã, mas podemos tomar pelo menos um cafezinho né?!
_Com certeza! Sabe da Marina, Mel?
_Encontrei com ela e a Clarinha aqui mais cedo, mas já foram para a galeria Vic.
_Ai Melissa, você vai mesmo continuar com essa de jogar charminho para a Clara? As duas passaram por cada coisa para chegarem onde estão hoje. Não estrague uma história por capricho seu!
_E se não for só capricho? – perguntou convicta – E se eu estiver realmente interessada nela Vic?
_E esse é o caso? Só vejo desejo quando você olha para ela. Aliás, quando você olha para 90% das mulheres né Mel?! – disse rindo – Vamos combinar que a senhora não perdoa nada que use saias! – a loira agora gargalhava, e apesar de pensativa no que ela mesma havia dito, Melissa a acompanhou no riso.
Vanessa que não tinha ouvido a conversa, e não fazia a menor ideia de qual era a graça, começava a dar sinais de um certo ciúmes, e preferiu concentrar-se em sua conversa com Flavinha, a fim de não deixar transparecer essa novidade para Victória.
_Ai Vic, como você exagera! Meu Deus! Mas, enfim... Vamos falar de outra coisa vai...
Mudaram o rumo da conversa, e Victória agora pedia conselhos sobre qual roupa usar para a noite, afinal, posaria para fotos ao lado de Marina por sua contribuição para a exposição, e além de esse já ser um bom motivo, e a empolgação exagerada por eventos de fotografia ser uma rotina normal em sua vida, queria deixar uma boa impressão com os críticos brasileiros, já que em menos de um mês estaria ali novamente para expor sua arte ao lado da italiana. Vanessa fuzilava Vic com os olhos, mas a loira estava tão animada em sua conversa com Melissa que não chegou a perceber o ciúme da outra.
Melissa, por sua vez, estava presente apenas de corpo, deixando sua mente vagar para perto de Clara, estivesse ela onde quer que fosse. “E se eu estiver realmente interessada nela?” a pergunta que fizera para Vic agora rondava a sua cabeça, sem encontrar resposta boa o suficiente. Apertou os olhos, balançou a cabeça “Não Melissa, você não se apaixona, esqueceu?”. Voltou sua atenção para a mesa e assumiu novamente a sua postura de sempre. Pensou na imagem de Clara mais uma vez, lembrando-se de como estava no dia que a conhecera. Cabelo bagunçado, olhos sonolentos e trajando apenas uma camisa branca, que não tinha cara de ser dela. Numa coisa Marina tinha plena razão, Clara era a única mulher que acordava estonteante daquele jeito.
Um brilho lascivo passou por seus olhos e sem que percebesse, automaticamente umedeceu os lábios com a ponta da língua. Definitivamente, o jogo havia começado!
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Marina viu as horas passarem voando, mas mesmo assim não arredou pé da galeria até certificar-se que mais algumas das suas mudanças de última hora tinham ficado exatamente como gostaria. Clara nunca tinha visto a namorada tão dedicada assim a sua arte, e não tinha como esconder uma ponta de orgulho e até mesmo vaidade em ter sido escolhida por aquela mulher. Além de tudo o que sentia pela amada, a admiração que nutria por quem ela era, ficava absurdamente evidente. Sem dúvida, Marina poderia ter a pessoa que quisesse aos seus pés. Homens ou mulheres. Mas dentre todos no mundo, ela tinha escolhido Clara, e a observando ali, naquele momento, teve mais uma vez a certeza de que fizera a escolha certa quando decidira mudar tudo na sua vida por aquela coisinha pequena e branquela.
Clara olhou no relógio e se viu extremamente atrasada. Tinha prometido buscar sua tia Juliana e seu marido Jairo no aeroporto, e já passava da hora de ter saído de lá.
_Amor... Amoooooooor – chamou por Marina que estava escondida atrás de um painel gigante no piso superior.
_Oi linda – colocou a cabeça para fora, procurando Clara com o olhar.
_Tô atrasada pra buscar a Ju! Nem me liguei na hora
_Vai com o carro amor, eu pego um táxi para o hotel depois. Preciso terminar a marcação do ponto certo desse painel, isso aqui ainda não está bom.
_Como você é chatinha. Já está perfeito isso aí tem horas branquela! – brincou a assistente.
_Perdeu todo o respeito mesmo né?!
_Boba! – mostrou-lhe a língua – Bom, então eu tô indo amor. Se não a Ju me mata! Te vejo daqui a pouco no hotel – jogou um beijo no ar em sua direção.
_Ei... Como assim? – colocou as mãos na altura da cintura, fazendo cara de indignada – Pode vindo aqui pra me dar um beijo, Clara! Não é assim que se dá tchau pra mim não.
Clara riu e subiu rapidamente as escadas, tomou Marina nos braços e lhe deu um beijo demorado, interminável, chamando a atenção e atraindo os olhares de todos os rapazes que ainda finalizam seus trabalhos no local. Minutos depois, a fotógrafa desfez aquele contato, retomando o ar que lhe fora roubado.
_Tá bom assim pra você?! – perguntou maliciosa.
_É, mais ou menos, né?! Mas... Você pode continuar treinando. A prática leva a perfeição amor, não desanima não! – disse forçando uma seriedade em sua voz.
_Abusada! – beijou seus lábios de novo, mas dessa vez o fez de forma rápida – Agora que me atrasei mesmo. Deseje-me sorte, porque se tem um trânsito pior que o do Rio de Janeiro nesse mundo, é o dessa cidade, certeza!
_Amor... Será que ela vai gostar de mim? É a primeira pessoa da sua família que conheço enquanto sua namorada mesmo. Ah... Sei lá... Tô insegura com isso aí – confessou receosa.
_E tem como não te amar Marina? – respondeu sorrindo – Não se preocupe amor, vocês se darão bem. Tenho certeza!
Marina despediu-se da namorada, e pigarreou forte, chamando a atenção dos meninos que curiosamente acompanhavam interessados demais a saída de Clara do ambiente. Terminou de conferir os últimos detalhes junto ao Carlos, definiu como seria sua entrada na casa, músicas, o horário que chegaria, e mais ou menos duas horas após a saída de Clara, estava a caminho da rua.
Demorou até que conseguisse um táxi vazio naquele horário e partiu em direção ao hotel. Procurou por Clara no quarto e encontrou um bilhete em cima da mesinha de canto: “Amor, estou com a Ju, no quarto 2032. Me arrumarei por lá mesmo, então, quando estiver pronta, venha me buscar. Surpresa pra você ;-)”. Achou graça da carinha que deixara no final do recado e partiu para o banho. Demorou-se o suficiente para que seus dedos enrugassem debaixo d’água, e resolveu começar a se arrumar.
O relógio marcava 21h30 quando Marina terminava de pintar os lábios com aquele vermelho que parecia ter vida apenas em sua boca. A exposição tinha ares rústicos e sedutores, e a fotógrafa decidiu que iria a caráter. Vestia um terno cinturado preto risca de giz, calça social justa, camisa branca, gravata tipo slim na mesma cor do terno, e um scarpin também preto, alto. Olhou-se no espelho pela milionésima vez, e ajeitou o nó da gravata, deixando-o um pouco solto, abaixo do colarinho da camisa. Finalmente, considerou-se pronta para sair, e partiu para o quarto 2032.
Mandou uma mensagem para a namorada avisando que estava descendo. Dava passos lentos, atribuídos ao receio do que poderia acontecer nesse encontro com Juliana, mas assim que chegou a porta, Clara girou a maçaneta e lhe roubou o ar, fazendo-a se esquecer de tudo e todos. Trajava um vestido extremamente justo, e consideravelmente curto. Também era preto e seu tecido acabava no meio das coxas bronzeadas da assistente. Marina definitivamente não conseguiu maquiar seu desejo pela namorada, o queixo caído e o olhar penetrante entregava tudo e mais um pouco do que se passava em sua mente.
_Uau! Clara... Você... Meu Deus! – abanou-se.
_Gostou? – seu sorriso era pura malícia.
_Nossa! Vai um pouco além disso, amor.
_É mesmo? – deu dois passos a frente, aproximando sua boca do ouvido da namorada – Isso porque você ainda não viu o que tem debaixo desse vestido, esperando por você mais tarde.
Marina ficou muda por alguns segundos, literalmente de boca aberta. Adorava quando Clara a provocava, e sem dúvida a outra estava querendo lhe dar o troco pela noite passada. Mil e uma coisas, cenas e possibilidades passaram pela cabeça da fotógrafa, e se não estivessem atrasadíssimas para a exposição, sem dúvida nenhuma teria feito amor com Clara naquele mesmo instante. Respirou fundo e sentiu a assistente recuar os dois passos que dera.
_E a senhorita hein?! – Clara bateu palmas – Nunca pensei que um terno pudesse cair tão bem em alguém nessa vida. Apesar de que em você o que é que não fica bem né Marina?! – disse dando-lhe um selinho demorado.
_Hãn... Oi meninas! – era a voz de Ju que vinha da porta – Não querendo atrapalhar esse momento fofo de vocês, mas, estamos um pouquinho atrasadas, não estamos?
Clara corou um pouco por ter sido pega beijando Marina, mas se recompôs logo. Viu Jairo parar ao lado da tia e fez as devidas apresentações.
_Marina, essa é a minha tia Juliana, e o marido dela, o Jairo. Tia, essa é a minha Marina! – o “minha” saiu sem que percebesse ou o processasse conscientemente de fato, mas o sorriso que essa pequena palavrinha provocou nos lábios da namorada fizeram seu constrangimento momentâneo valer a pena.
_Enfim conheço a famosa Marina! – disse Ju simpática, depositando dois beijos no rosto da fotógrafa – É um imenso prazer finalmente te conhecer. Só eu sei o quanto essa daqui falou de você nos últimos meses! – afirmou apontando para Clara e recebendo um olhar de repreensão da sobrinha – Ah, e... Nossa Clara! A mulher é linda mesmo!
_TIA!!! – protestou Clara, começando a parecer um pimentão.
_Muito obrigada Ju! – a fotógrafa divertia-se com o constrangimento da outra – Não sabia que tinha essa fama toda, mas espero que ela não tenha falado muito mal de mim – riu – E o prazer é todo meu em conhecer vocês – apertou a mão de Jairo, que mantinha-se em silêncio e tinha agora uma cara intrigada, parecendo não entender muito bem o porquê de uma mulher estar usando terno e gravata, afinal, aquilo era roupa de homem, né?! Tanto que Ju o obrigara a vestir-se exatamente daquela forma para a noite. Deu de ombros, claramente desistindo de entender.
_Pode deixar que vou te colocar a par de tudo viu Marina?! – riu – E nem adianta vim com essa cara para mim não Clara. É verdade mesmo! Não aguentava mais ouvir Marina naquele apartamento! – gargalhou e a sobrinha escondeu o rosto nas mãos.
_Ai Ju, você acaba comigo. Não acredita nela amor! – quem ria agora era a fotógrafa, e Jairo arregalou os olhos ao ouvi-la chamar a outra de “amor”.
Algumas brincadeiras depois, Marina finalmente soltou o ar. A julgar pela recepção e o primeiro contato, não teria problemas com Juliana e isso aliviava no mínimo 70% de sua tensão e nervosismo. Desceram ao saguão, encontraram Victória, Vanessa e Flavinha as esperando e secretamente, tanto Marina quanto Clara agradeceram por Melissa não estar no grupo.
_Uau! Mas o que é isso minha gente?! Marina, você vai matar uma metade da galeria e a Clara vai matar a outra – disse Vic. A loira usava um vestido prateado longo, combinando perfeitamente com a roupa de Marina. A peça possuía uma fenda lateral que subia até pouco acima do meio de sua coxa, e um decote discreto, mas que prendia o olhar de Vanessa como que por magnetismo. Definitivamente, a francesa estava muito mais bonita do que o normal.
_Vocês que estão maravilhosas meninas. Acho que vou providenciar mais exposições assim, afinal, não é todo dia que vejo vocês nessa super produção! Apesar de serem lindas sempre, é claro! – respondeu Marina direcionando o elogio as três mulheres paradas a sua frente.
_Hum... Saidinha ela hein Clara?! – cochichou Ju para a sobrinha – Já gostei!
_Já gostou tia?! Eu sofro com essa mulher. É o mundo todo querendo ela e você ainda defende? Tô perdida mesmo! – cochichou de volta.
Todos se cumprimentaram adequadamente e depois de apresentações rápidas, seguiram para seus respectivos carros, rumo à galeria de artes.
Nenhuma delas sabia ainda, mas além de uma grande exposição, teriam uma noite longa, tensa, e cheia de surpresas.
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