Vazios
1 Capítulo 1
Todo dia, por mais despercebido que passe, escrevemos um diário.
O mais engraçado é que fazemos isso com o código mais difícil de interpretar: os atos.
Mais engraçado talvez seja que tudo, mesmo que você ignore pela rotina, faz parte da sua história e que você leva todos aqueles detalhes pequenos consigo e nem se dá conta.
A porta verde, o burburinho incômodo, a parada de ônibus, aquela pessoa que você vê todo dia, sente vontade de cumprimentar, mas não tem coragem de dizer um único “olá?”.
Um bater na tecla pode ser o cair de uma lágrima, um sorriso tão largo que comprime as bochechas e, por mais amargo ou doce que pareça na hora, talvez nem seja lembrado no futuro. Isso dos nossos sentimentos algo vazio?
O cérebro, toda noite, tem a missão de apagar quase tudo da nossa mente, sobra muito pouco. E, a cada sono, essas lembranças restantes vão ficando mais distantes e menos nítidas, ao ponto de nos perguntarmos “Isso realmente aconteceu?”
De repente, nos damos conta que nós nascemos há 17, 18 anos, mas é como se mal tivéssemos vivido 10. É como se, no lugar de pessoas, locais, estabelecimentos e objetos, houvesse enormes vazios.
Por outro lado, já imaginou se você sentasse em uma cadeira para relatar tudo o que acontece? Não tomaria todo o seu tempo? Mais cedo ou mais tarde, você notaria que passou a tarde inteira escrevendo uma folha em branco.
Como, então, resolver esse paradoxo? Escolher entre esquecer tudo e não ter nada para lembrar?
Solução?
Viva.
Bons momentos se marcam sozinhos.
E para que guardar lágrimas amargas?
Viver é muito mais difícil do que registrar, mas estamos todos aqui, colegas, professores e funcionários tentando fazer não só isso passar, mas também ser algo bom.
Você já imaginou, alguma vez na sua vida, ter vazios tão especiais?
Talvez nos esqueçamos, nos mudemos, nós mudemos, mas, se algum dia voltarmos para esse mesmo local... Viveremos como vivemos até agora.
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