Vazio
1 Capítulo Único
Vazio. Sinto um tremendo vazio.
Ontem estava apenas com uma dor profunda que eu achava ser da decepção amorosa que estava tendo de novo. Isto não é normal, não é clichê... Não pode ser. Não posso aceitar que a maioria das pessoas no mundo estão com essa angústia carregada no peito de insatisfação, que não tem como botar para fora por simplesmente vivermos numa sociedade de merda: o que você sente é simplesmente fútil ou ridículo. Viver simplesmente da alegria do agora e não pensar na decepção de algumas horas depois é algo mais ridículo do que isso. Alimentar um prazer imediato. Um gozo e largar como se não tivesse nada depois. Ou fingir que tem algo por meses, anos com uma pessoa por este prazer e não sentir nada mais do que bom.
O que eu estava sentido era pior do que isso. Era algo que carrego desde a minha infância. Algo que achei que tinha me livrado há alguns anos, enterrado no passado com todo o limite de viver que tive. O problema é que nunca percebi que ele continuava comigo, escondido, tímido... E agora, resolveu despertar com tudo e me derrubar pro fundo do poço de novo. Eu não posso deixar isso acontecer de novo. Não depois de tudo que eu passei para minha autoestima se erguer e – dificilmente – cair. Tive muito trabalho para aprender me aceitar como eu sou, me amar pelo menos o mínimo possível, ter uma vida... normal.
Mas... O que é normal?
Tenho percebido que metade das pessoas que se sentem como eu – frustradas, esgotadas, presas – estão, de alguma forma, sozinhas. Solidão esta que vive conosco e nem percebemos. Eu falo alto quando estou em grupo, acho que para chamar atenção das pessoas que estão à minha volta, conversando entre si, mas não comigo. É como se eu estivesse aqui por simplesmente estar. Comecei a me perguntar: Por que estou aqui? O que estou fazendo aqui? Quem eu sou?
Eu já tinha respondido estas perguntas há tempos. Em 2015, tinha certeza do que eu estava fazendo: fazer Biblioteconomia, seguir meus sonhos, peitar meus responsáveis depois de todo o esforço pela minha formação... Era algo certo, convicto. Dois anos depois, aqui estou eu, escrevendo e me perguntando para mim mesma o que estou fazendo. Estágio-Faculdade-Casa. É isso que eu queria há dois anos? Era isso que eu pensava para mim?
Chega ser bizarro imaginar que todos os meus amigos estão através de uma tela touchscreen e que posso vê-los através de vídeos, fotos; ouvi-los por áudios... Alimentar minha falta de amigos dessa vidinha que eu me enfurnei. Para quê? Por quê? Eu estagio para ir vê-los, passo de cinco a dez dias com uma pequena felicidade e alimento a Solidão quando retorno para casa.
Engraçado achar que conhecer pessoas novas detonaria com a Solidão. Pena ser mero engano meu. Achei que conversar olhando nos olhos de uma pessoa iria me fazer retornar ao meu passado de Ensino Médio, com amigos que se importavam de alguma forma com a minha existência. Eu era querida de alguma forma. Abraçava e passava todo meu amor e gratidão para os meus amigos. Carinho também. Isso acabou quando o grupo se desfez, foram para a mesma faculdade com cursos diferentes, mas todos enrolados com Estágio-Faculdade-Casa.
É uma coisa impressionante quando você cria uma casca ou uma armadura em volta de si e finge ser forte. Todos te acham forte, incrível, invencível... Falaram até perfeita! Estou longe de ser apenas o forte. Acho até engraçado ouvir isso dos meus amigos. Mal sabe eles que, qualquer frustração, eu enfio a cara no travesseiro do meu quarto trancado e desabo de chorar.
Foi difícil para mim me ver ontem numa roda de amigos, que não era minha, falando alto e ninguém ouvindo o que eu tinha a dizer, assim como era no primeiro, segundo, terceiro, quarto, quinto... Nono ano! Abraçar, beijar no rosto as pessoas e sentir nada. Nem afeto, o toque, carinho... Me sentia gelada, fria. Na hora, achei que era a tal decepção amorosa, que não havia cabimento eu continuar a tentar aquilo. Eu não preciso de relacionamentos amorosos. Tudo uma perda de tempo miserável que desperdicei para tentar agradar um cara que olhou para mim diferente. Ele viu minha existência, descobriu um mínimo de importância. E eu, idiota caí de novo nessa. Seria melhor se fosse isso, ao menos ia passar daqui a umas semanas, supero rápido essas coisas de tanto que quebrei a cara nisso.
Descobri que era um sentimento terrível que só me fazia chorar, querer sair de casa e nunca mais voltar... Me sinto um cadáver andando na rua sentido nada, vendo nada, falando com o nada, fazendo nada. Vivo num lugar que eu não quero viver, fazendo sabe lá Deus o quê.
Solidão me pegou dormindo e me sufocou como se eu não tivesse chance de reagir.
Vazio. Sinto um tremendo vazio.
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