Vazio
1 Oneshot
Notas iniciais
Sentia o nariz sangrar, e não tentava impedir que ele continuasse. Só pensava nas últimas vinte e quatro horas. Vinte e quatro horas essas, que compunham mais um dia entre dezenas de centenas de milhares. Um dia completamente igual a todos os outros e ao mesmo tempo, completamente diferentes. Por um lado... O Sol nascera e depois de pusera como em todos os outros dias, sendo causa de saudade e desprezo de pessoas, como sempre. Por outro... Estrelas morriam e nasciam, namoros começavam, ganhavam-se e perdiam-se apostas. Pessoas choravam, pessoas sorriam. Pessoas morriam. Por esses e outros motivos, ele se sentia um medíocre ser dispensável entre tantos. E sabia que ela concordava com isso.
É... Tantas pessoas no mundo, e tantas outras mais fortes que ele. Havia pessoas pobres, que moravam embaixo de viadutos, vendendo balas todos os dias da semana sob o Sol quente e indesejável — e que, ainda assim, fazia-se indispensável — querendo viver mais um dia, ter mais um prato de comida — ou mais um maço de cigarros, garrafa de cerveja. Mas, mesmo assim, viviam. Continuavam, apesar dos apesares. Sentiam-se felizes e tristes. No entanto, para ele as coisas não eram assim. Se, normalmente, a vida se compensa, com momentos de risos e de lágrimas, a dele era sempre, sempre de lágrimas.
Incrível foi quando ele notou que não adiantava mais persistir. Sentia-se cansado. Não tinha mais esperanças de se reerguer, de uma mão salvadora puxando-o para a superfície. Pegou o canivete que, embora fosse um objeto inanimado, era para ele um feliz ente ansioso para cumprir seu objetivo em suas mãos... Um ente que teve êxito. Seu ombro direito sangrava sem cessar. E a dor era reprimida facilmente, como as pernas formigando abaixo de seu corpo também eram ignoradas.
Tais trapos em que ele se vestia eram dignos de pobres... E ainda tinha mente, raciocínio para pensar algo assim. Suspirou admirado. E depois se lembrou mais uma vez, depois de tantas, dela dizendo o que mais temia. Não o amava, nunca o amaria. Nem ao menos gostava dele. Ele sentia-se como alguém que simplesmente existia, não vivia. E como já lera antes, — e agora entendia perfeitamente — não se deve esperar por uma salvação, quando já há a certeza de que jamais virá.
Seus amigos o consideravam uma obrigação, e tinha certeza disso. Ele era um fardo, aquele amigo deprimido e irritante que não gostariam de ter conhecido, mas agora que conheceram, já era. Seus remédios já não saciavam sua tristeza, buraco negro que só fazia crescer e se concentrar — afinal, quanto mais denso, mais puxa as coisas em sua volta para o fim. Já não conseguia sorrir falsamente... Não conseguia fingir que estava tudo bem. Pois então, que cesse seu sofrimento. Cortou o outro ombro o mais fundo que pôde, e agora já não mexia, já não sentia seu braço esquerdo.
Sua irmã... Pessoa em que tanto confiava. A garota julgava lágrimas de um menino frescura, não se importava com o porquê de estarem sendo derramadas. E sua mãe, no auge da ignorância, só se preocupava com seus problemas de trabalho... A confusão crescente em seu próprio filho não era visível, ante seus próprios problemas medíocres que a ofuscavam.
A compreensão era doce. Doce como o mais caro dos vinhos misturado ao mais mortal dos venenos: Humanos não são felizes, nunca alcançarão a felicidade. Não são felizes a partir de quando podem pensar, a partir de quando têm consciência de seus atos. Atos que julgam errôneos ou corretos... No fim das contas, todos estão sempre buscando a felicidade impossível, inalcançável... E ainda existem os pseudo-superiores que dizem não correr mais atrás disso. Os que dizem ter aceitado o fato de a felicidade estar nos momentos. Esses, na verdade, acham que assim acabarão felizes por aceitar tais fatos... Bobagem. O problema mesmo é quando nem os momentos felizes existem mais. Tudo é triste, tudo é ódio.
E ele riu de sua própria situação. Risada baixinha, que acabava com suas últimas energias. Odiava entender o que sentia. Sabia o que tinha que fazer para melhorar dali pra frente... Só que não queria fazer isso, repugnava a possibilidade. O ódio puxava seus pés para o fundo negro do seu futuro. Não queria viver para assisti-lo. Dilacerou uma das pernas, com um gemido fraco, praticamente inaudível. Afinal, não tinha forças para reproduzir um som sequer. Sua voz havia sido sufocada, ninguém mais a ouviria.
Por mais que os humanos sintam-se tristes e numa direção sem volta, a família ou os amigos sempre são consolo. Para ele, não. Ele havia chegado num ponto onde a família era odiada, os amigos eram odiados, — e, segundo ele, o odiavam também — e nada mais restava para que quisesse continuar. Já havia adiado tanto seus problemas que eles acabaram por consumi-lo.
Sabia que qualquer pessoa desconhecida que visse o que fez graças àquilo o consideraria dramático demais por convencer-se de que perdê-la era seu fim. Mas nunca pedira a opinião de mais ninguém... E para ele, estar ou não sendo dramático não entrava mais em questão. Ela era a única pessoa que confiava... A única pessoa que achava que podia contar. Um único ser... Um ser humano errante como todos os outros seis bilhões de seres humanos insignificantes desse planeta insignificante era a razão daquela vida insignificante. Pois que acabasse agora que nem aquilo o segurava ali. Cortou a outra perna, perto do joelho, sentindo a cor de seu corpo se esvaindo aos poucos.
Afinal, ele nunca fora ninguém. Aguardou em silêncio e livre de pensamentos, os últimos minutos de sua existência. E o planeta continuou girando, indiferente... E as pessoas continuaram vivendo suas vidas dispensáveis. Nada acontecera.
"Porque as horas sempre passaram, independente de ele estar ou não ali. As horas sempre passaram e sempre passariam. E ele em nada mudaria o curso do tempo", por Van Whillians, em comentário à fic que você acabou de ler.
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