Vastidão Intergaláctica
2 Dia dos Vega
Notas iniciais
Jardim da casa dos Vega. Inicío da primavera, todo o telhado úmido com o estrago que os uni-sapos deixaram para Anastácia enfrentar com seu equipamento de limpeza.
— Porcaria, porcaria, porcaria. — ela pestanejou ajustando a escada. – Definitivamente não tinha planejado passar meu sábado com você, Pivete.
Seu cachorro a encarava ardiloso e ofegante. Passou pela dona e pegou o baldinho de praia na caixa de areia, as ferramentas necessárias estavam ali.
— Quê?— Ué, os desinfetantes estão vencidos... E os desengosmadores também! — Anastácia soltou um palavrão e desejou que seu marido não tivesse aceitado as horas extras de conserto na RBO Enterprise. "Mas tudo bem", ela pensou, logo Alberto estaria de volta. Assim, ela voltou pra dentro a procura de produtos que sua vizinha ainda não roubara ou que não estivessem vencidos.
O armário de compras estava abarrotado de cereal de melão, não dos bons, definitivamente. Depois que a fábrica fora comprada, os ativistas anti-agrotóxicos passaram a boicotar a marca. Anastácia sentia simpatia pelo movimento, mas tudo relacionado a melão, Alberto comprava.
— Eu me apaixonei por um tubérculo! Não é mesmo, Pivete? ...Pivete?
Ela se virou, Pivete ausente. Não precisou procurar muito, lá estava ele lambendo uma mão conhecida na entrada da casa.
— Misericórdia... Vizinha! — Anastácia berrou, acenando. — Como vai a senhora? Boa?
— Boa uma ova, tô malvada de raiva! E não me pergunte por quê! — a idosa vestia um terninho preto desabotoado.
— Ok... — Anastácia fechou o armário ao voltar para dentro. Achara o restante do sabão de sua nave, iria servir. Subiu na escada novamente e continuou: — uni-sapos malditos, vizinha louca e...
— O que disse, miga? — ouviu, pendurada no muro direito, a filha mais nova dos Hawking.
— Uni-sapos malditos, coisinha louca, não? — disfarçou rapidamente com um sorrisinho.
— Minha boca é um cemitério, fale com seu coração — a garota colocara as mãos no queixo, legitimamente interessada.
Anastacia ignorou e voltou a limpar o estrago enquanto sua vizinha invadia o telhado atrás dela.
— Fala comigo, moça... — suplicou. Anastacia nem sabia como dizer para a garota que ela não a conhecia.
— Acho melhor você voltar para sua casa... garotinha.
— A dona Lola disse que posso fazer o que eu quiser aqui! — a caçula berrou.
— Tudo bem, tudo bem... Pera! Que? — Anastácia se desequilibrou quando um uni-sapo passou correndo pelas telhas mais distantes. — Mande bala, bicho feio! — A garota se assustou e correu pelo arredor das telhas, foi atingida e caiu nos braços da árvore mais próxima. Foi consumida pela queda e desmaiou.
— Vizinha, seu marido pode buscar sua filha? — Anastacia chamou, chocada. Ninguém respondeu.
Quando olhou novamente, havia sumido: a caçada só tinha começado.
— Vou arrancar seu chifre fora! — Anastacia berrou para o vazio.
Bam, tudo ficou preto. Acordou para dois olhos quentes e elétricos. Seu marido havia chego.
— Olá! Seus sinais vitais estão melhores, encontrei você caída ali fora. — Alberto explicou com leveza. — Duas noites fora e acontece isso!
Anastácia gemeu tentando se levantar. — Onde está a garota? — Perguntou.
— Sendo cuidada pela senhora da Ordem. Costuramos sua boca. Nada preocupante, Lola está acostumada a mandar ela espiar, velha louca...
Ela sentiu um pouco de dor onde havia pousado sua mão; um grande corte estava coberto por ataduras.
— Não vou morrer, vou? — brincou. — Conseguiu reparar a nave, querido?
Alberto assentiu.
— Vim com ela até o planeta mais próximo assim que detectei você em perigo. Tive que pegar ônibus até a estação mecânica, mas não tinha o que precisava pra enfrentar a chuva forte de meteoros que estava passando...
— Não me diga que... — Anastácia hesitou. — gastou todo o dinheiro em táxi blindado?
Alberto riu. — Foi preciso, mas o garoto era simpático e fez desconto. Fui bem avaliado pelo sistema dele, podemos ganhar brindes! — Alberto parecia feliz mesmo após toda a catástrofe, fazendo Anastácia sorrir aliviada.
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