Vanguarda
1 Capítulo 0 ninguém
Sentia o vento frio junto dos pingos da chuva acertarem seu rosto lentamente causando-a dor junto das diversas feridas em seus pequenos pés descalços.
As pedras mal colocadas junto da terra úmida se tornavam ainda mais escorregadias devido a chuva, o que só dificultava sua fuga. Em seu pequeno peito segurava dois pães parcialmente queimados em sua crosta , mas a cada passo que dava seu estomago roncava mais e mais, a última coisa que importava era o estado em que os pães estavam.
— Volte aqui agora mesmo sua ladra! – ouviu ao longe a voz do padeiro gritar ao fundo, e parou por um instante se virando para ver a imagem do homem. A cada passo que ele dava suas pernas eram esmagadas por toda o seu peso, seu avental de tecido branco estava manchado por uma mistura de lama e farinha junto de sua cara já irreconhecível, seu nariz achatado e rosto redondo o fazia parecer um porco branco correndo sobre duas patas atrás de uma criança de rua.
A cidade qual morava era pequena pelo que se lembrava , existia uma grande fonte de pedra no centro e pequenas casas feitas de madeira cercavam a região.
Mas mal teve tempo para reparar, se virou rapidamente mais uma vez e correu em direção a uma ruela a seu lado, se lembrava como era fácil correr por entre as ruas naquele tempo. Desde que se lembrava havia vindo das ruas, suas memorias mais antigas fora ver crianças brincando com espadas de madeira enquanto ela roubava pães para comer.
Seu corpo se descolava de forma rápida, quase como uma dança, enquanto desviava de comerciantes e pessoas desavisadas. Seu pequeno coração batia de forma rápida no peito e até mesmo o ar parecia mais difícil de ser encontrado em meio a adrenalina.
Seus cabelos negros e encaracolados se enrolavam ao redor de seu rosto e pescoço atrapalhando sua visão. Qualquer pessoa que se movia de forma mais rápida já era o suficiente para deixá-la em alerta. Essa era a regra das ruas, essa era a regra para sobreviver naquele mundo, ser a mais rápida.
Havia adentrado aos poucos na floresta, o único som que ouvia ao seu redor eram os pássaros escondidos por entre as árvores. Sentia-se um pouco ofegante graças a corrida mas nada que a atrapalhasse, já havia se acostumado com tudo aquilo. Sentou no chão recostando todo seu corpo no tronco da árvore atrás de si para descansar e colocou os pães ao seu lado. Estavam amassados em razão a força dos seus braços e cobertos de lama , mas nada que a incomodasse.
Retirou um pequeno pedaço daquela bola de massa assada e a colocou na boca, tinha o gosto amargo misturando suor do seu corpo com terra e a crosta queimada , mas era a única coisa que tinha para comer a dias, ao engolir sentiu a dor de seu estômago por receber algo para comer após tanto tempo, mas mais uma vez sequer se importou, aquela era sua vida e era tudo que tinha, colocou mais um pedaço na boca e mais um logo até acabar com os dois pães, e então começou a chorar.
Deitou-se de bruços ali mesmo em meio ao nada, abraçando suas pequenas pernas recostando sua cabeça aos seus olhos e por ali ficou , por muito tempo , em meio a sua lágrimas desejando que pudesse nascer mais uma vez , desejava ter alguém a quem abraçar e a proteger dos dias de chuva e de frio sem ter que dormir em algum buraco de terra ou abaixo de alguma ponte de pedra na cidade ao lado de uma família de ratos , mas sabia que nada disso viria.
A chuva então havia passado e o orvalho presente na grama e o cheiro da terra molhada era o que restava daquele tempo, enxugou suas lagrimas e se pôs de pé mais uma vez, olhou para os lados e apenas arvores a cercava , sabia que a cidade não estava longe pois conhecia toda aquela região e ouvia vozes de pessoas desconhecidas por perto , notou toda a sujeira no seu simples vestido de trapos sujo graças a ter se deitado no chão pouco tempo atrás .
Caminhava por entre as arvores cada vez mais , e os sons da civilização iam sumindo até que a única coisa que ouvia era a melodia do silêncio cantada pelo vento passando por entre as folhas das arvores e um som suave de agua fluindo se tornava cada vez mais próximo de si. Até que chegou a sua margem .
Um pequeno fluxo de agua cortava aquela região, de onde estava o rio apenas tinha cinco ou seis passos para se atravessar de um lado a outro e conseguia ver o chão pedregoso ao fundo graças a agua límpida , aos poucos entrava com cuidado até a agua corrente chegou aos seus joelhos. O frio percorria todo o seu corpo causando-a um estranho alivio. Ajoelhou sobre as pedras ao fundo do lago e retirou seu vestido. Banhou – se cuidadosamente retirando toda a sujeira do seu corpo e do seu cabelo. E nua por entre as águas continuou, brincando das mais diversas formas q conseguiu imaginar, até mesmo com sapos que por perto estavam.
O tempo havia passado rapidamente sem que percebesse, quando deu por si a lua tomava o lugar do sol e a sua luz dava ao lugar ao luminosidade do fogo perto de si, então colocou sua roupa novamente e voltou caminhando por entre as árvores de volta a sua cidade. Foi então ai que aconteceu.
Sentiu que alguém se aproximava, olhou para todos os lados mas não via ninguém, apenas ouvia passos próximos de si. Seu coração disparou e suas pernas tremiam mas não sabia porque então mal notou o homem que já estava atrás de si . tentou correr por fim , mas a única coisa que conseguiu ver foi a capa negra a envolvendo junto dos braços de seu sequestrador
Sentiu o aperto em seu pescoço subitamente, a levantando do chão ao que parecia sem o mínimo esforço. E tudo a sua volta começava a se tornar negro como se o mundo se tornasse escuridão.
As mãos a apertaram de forma mais firme, O homem virou seu corpo para que ficasse de frente para o dele e segurou seu rosto de forma dolorida enquanto as mãos esmagavam suas bochechas. Seus olhos se arregalaram e sua respiração saia de forma descompassada a imagem do homem sem rosto a sua frente.
Nunca havia sentido tanto medo. Mas tudo não deixava de ter sido um sonho
Da fresta do vidro quebrado em sua pequena janela, observava intensamente a paisagem gélida da escura floresta de pinheiro. A floresta estava banhada com pequenas frestas de luz do luar que formavam uma espécie de luta para atravessar as árvores que cercavam toda aquela região até mesmo aquela pequena cabana onde todos os serventes do senhor viviam.
O vento frio inundava seu quarto ao ponto de não conseguir dormir, mas já não era grande coisa para si mesma. Por todos aqueles anos, seu pequeno quarto em volta de toda aquela madeira podre e sua velha cama eram o único abrigo que tinha de todo aquele mundo em que vivia no silêncio. Não possuía voz ou nome, e fim sabia que não era nada mais que uma velha servente abandonada por aqueles que deveriam ser sua família, mas a muito tempo já não se importava com isso.
— Ande logo, temos que ir trabalhar! – ouviu alguém gritar, enquanto batia na parede insistentemente, sempre que alguém fazia isso, sentia toda a velha estrutura se abalar ao ponto de tudo desabar em cima de sua cabeça.
Amarrou seu avental branco a frente da sua roupa feita basicamente de pedaços de pano velho, abriu a porta rapidamente e ao fecha-la, se posicionou a frente no corredor. Não era largo mas extenso, toda aquela casa velha era um simples corredor com mais de cinquenta quartos, olhava para os lados e aos poucos, mais mulheres saiam de seus quartos. A cada dois quartos uma pequena lamparina em formato oval de vidro com um recipiente dentro banhado de algum tipo de banha que queimava trazendo pouca luz ao ambiente junto de um cheiro putrefato que se dispersava pelo ambiente, em pouco tempo todas estavam fora de seus quartos saindo para a madrugada fria.
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