Vampiros nunca Vão Machucar Você
1 Capitulo único
O Sol estava se pondo, com a escuridão crescia a agonia. Eu segurei a sua mão, tinha que protegê-la, eu sei que eles vão nos procurar, e não vão descansar nunca até nós levarem para essa vida maldita. Tínhamos que nos esconder, mas nem um lugar no mundo nos manteria salvo por muito tempo.
O chão molhado pela chuva da tarde só fazia com que tudo parecesse ainda mais gélido, mais sombrio. As nossas pernas já estavam latejando de dor, e não posso nem dizer há quanto tempo estávamos correndo, porque eu perdi a conta há alguns dias, alias foi no mesmo dia que descobri quanto medo essas criaturas podem dar. Ainda me lembro do calafrio que senti quando um deles tocou minha pele, o arrepio que senti com a sua respiração. Se não eu não estivesse segurando aquela estaca hoje eu seria um deles. Ai então quem iria cuidar dela? Mas eu tenho consciência que eles podem me pegar a qualquer momento, mas eu não posso deixar, eu prometi que nunca a machucariam.
Na escuridão podia se ouvir o silêncio quebrado apenas pelo barulho que eles faziam varrendo o céu a nossa busca, não iam demorar muito para nos encontrar. Entramos em uma espécie de prédio fomos para o subsolo, nos escondendo entre as pilastras. Tirei da bolsa duas estacas e lhe dei uma, não havia mais como fugir.
-Escute-me – eu disse para ela – Eles não pensam, a única coisa que eles sabem é que ainda temos sangue nas veias e que querem tirar ele de nós, então se eles me pegarem...
-Não diga isso... – ela estava sustada, mas não há escolha se não fugir, e por mais que tenhamos medo não podemos deixar que eles tirem nossa alma, ela sabe disso.
-Escute! Se eles me pegarem, pegue essa estaca e enfie a estaca no meu coração – seus olhos tristes, cansados e com medo deixaram cair uma lágrima, sei que não era o momento, mas talvez não houvesse outros depois desse. Eu a beijei. Essa é a única coisa doce de que eu lembro em todo esse tempo.
Aquele som. Eles nos acharam. Eu joguei água benta neles, alguns se debateram e viraram pó, outros correram ainda mais para cima de mim. Quando o primeiro deles estava quase me tocando ela tirou o crucifixo e apontou para eles. Eles se afastaram um pouco, mas estavam ali, esperando que déssemos um passo em falso para nos pegar. Eles sabiam que a única saída era por onde eles estavam, e mesmo que esperássemos o sol vir novamente, não faria diferença, porque no subsolo ele jamais penetraria.
Então eu tive que fazer. Segurei-a entre os meus braços e com toda a coragem que me restou falei em seu ouvido:
-Nós vamos passar por eles, eu vou te proteger, mas por nada, solte a estaca e o crucifixo – ela assentiu amedrontada.
Começamos a andar lentamente como de fôssemos a procissão da dor e do medo. Senti aquele mesmo calafrio de antes, senti que eles iam enfiar seus dentes afiados como navalhas em minha garganta, onde pulsavam compulsivamente a as minhas veias temendo pela minha alma.
Saímos dali, mas eu ainda sentia aquilo. Na porta da casa funerária havia um caro, era a nossa única esperança de escapar, tínhamos que atravessar o cruzamento para chegar até ele, mas mal ousávamos tirar as costas da maldita parede. Ela me olhou nos olhos, tínhamos que fazer isso. Tomamos fôlego e corremos, eles avançaram contra nós, então corremos ainda mais jogando para todos os lados a água benta como se fosse um whisky barato. Senti vários deles me tocarem novamente, mas não tinha tempo para pensar nisso, tudo que eu pensava era chegar naquele carro, e nós conseguimos.
Ela deu a partida e começou a dirigir, cada vez mais rápido, talvez na ilusão de se livrar deles, mas eu não me importava muito com isso, toda minha atenção estava no sangue que escorria no meu braço, toquei a minha garganta, havia um buraco nela. Ela também já havia visto.
Nós sabíamos que isso poderia acontecer, mas acho que não acreditávamos que aconteceria. De repente, ela começou a acelerar ainda mais, se é que era possível. Seus olhos, eu nunca havia os visto assim, eles não tinham só medo e tristeza, era mais que isso, era qualquer coisa que eu não sei explicar, mas sei que os meus olhos refletiam isso também, refletiam a angustia de saber que iríamos nos separar, e que em algumas horas esse veneno que agora corria nas minhas veias e estava matando a minha alma e me condenaria a passar o resto dessa estúpida eternidade sozinho.
Ela já não me olhava mais, parecia que estava procurando alguma coisa, algum lugar, porém eu sabia que não havia nada que me pudesse me salvar disso.
-Não há saída – eu lhe disse.
-Pare! Tem que haver uma forma... Tem que haver um médico, um padre... Algo... – e pela primeira vez eu vi, ela realmente me amava, cada lágrima dela gritava isso.
-Não há – foi a única coisa que eu consegui dizer.
Havia um pouco mais a nossa frente uma igreja, ela parou lá, percebi que ela tentou reunir toda a sua coragem para fazer aquilo. Ela pegou uma estaca e se virou para mim, tirou com todo cuidado o meu casaco e desabotoou minha camisa, colocou a ponta da estaca no meu maldito coração. Mas não teve coragem. Ela abriu a porta do carro e correu para dentro da igreja mais rápido que qualquer um possa imaginar. Eu saí do carro e fui atrás dela. Ela estava ajoelhada perto do altar, eu fui até ela, quando me viuela simplesmente me beijou e disse:
-Se algum dia você encontrar uma cura, me procure, mas antes disso jamais chegue perto de mim – então se levantou foi chorando até o carro, depois entrou, jogou para fora o meu casaco e partiu.
Eu nunca poderia culpá-la por ter me deixado, simplesmente tinha que ser assim. A minha dor era saber que não estaria mais ao seu lado, e que logo eu esqueceria todo o amor que sinto por ela; seria somente mais uma dessas criaturas da escuridão, me tornaria repugnante e desalmado como eles. Mas eu nunca os deixarei machuca-la. Eu prometo, pelo menos por essa noite, vampiros nunca vão machucar você.
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