Vampires Today! - Fall
10 Capítulo 9: Vazio sem fim 2 – Jeremy sorridente
Eu tinha acabado de tomar banho e de me trocar. Era domingo, 10 horas da noite. Todos estavam dormindo. Apenas eu ainda estava acordado.
Havia sido difícil tomar banho com todas aquelas ataduras na cabeça. Ainda não havia me acostumado com elas, afinal, havia apenas algumas horas que eu havia saído da enfermaria.
Troquei-me no banheiro, e troquei os curativos que cobriam os pequenos cortes em minha perna.
Não estava com sono. Decidi então estudar para a prova de história que tinha na manhã seguinte. Eu sabia da matéria, porém nunca era demais dar uma revisada.
Fiquei estudando na mesa do jantar durante algumas horas. Quando percebi que o sono começava a me atingir, decidi ir para cama.
Já passava da uma da madrugada. Fui para meu quarto. Bruce dormia profundamente, como sempre. Não demorei muito para entrar no embalo do sono. Mas quando meus olhos afundaram na escuridão, algo me trouxe de volta a consciência.
Dois faróis vermelhos surgiram em meio a escuridão dos meus olhos.
Aqueles olhos novamente me perturbaram.
Arregalei os olhos imediatamente, e mal percebi que já estava soando.
Por quanto tempo mais aqueles olhos me atormentariam?
Tentei pegar no sono novamente, mas a mesma coisa aconteceu, de novo, e de novo...
Desisti de dormir por enquanto. Mas precisava distrair minha cabeça com algo. Mas já tinha estudado o bastante de história. Pensei em outra coisa de útil que poderia fazer... mas idéia de não conseguir dormir devido aqueles olhos era horrível.
Fui até a sala e liguei a televisão não volume mínimo.
A escola tinha uma programação própria. Nela não passava nenhum tipo de telejornal, ou qualquer coisa que nos informasse sobre o mundo lá fora. Apenas desenhos e algumas séries, novelas e filmes.
Um desenho animado estava passando. O que me lembrou que eu tinha uma pequena atividade do clube de desenho para fazer.
Nós da escola, da 7ª ao 3º ano, podíamos entrar em clube extra curriculares de diversos temas. E em troca ganhávamos notas extras. Eram poucas, mas a diversão que os clubes nos davam valia a penas mais do que tudo.
Eu participava do clube de desenhos estilo mangá.
Nós não éramos obrigados a fazer as atividades do clube, mas as debates que os desenhos causava eram divertidíssimos!
Fui até meu quarto para pegar a luminária de minha escrivaninha, a levei até a sala, e a coloquei sobre a mesa de jantar para desenhar. Peguei meu estojo com minhas “ferramentas” de desenho. E uma folha de papel cartão limpa.
O tema desta semana era que fizéssemos um desenho de alguém que fora de extrema importância em nossas vidas.
Eu pensei em fazer sobre minha mãe, mas seria muito óbvio e sem graça! Pensei também em desenhar Iris, me lembrei que já havia usado ela como tema de outro desenho...
Havia muitas pessoas que eu poderia desenhar. Mas decidi pensar mais um pouco sobre quem realmente tinha importância em minha vida.
Fiquei encarando a folha vazia um tempo... Pensando em minhas lembranças. Minhas lembranças mais felizes, minhas lembranças mais alegres, e até mesmo nas mais horríveis. Várias pessoas me vieram a cabeça. Vários sorrisos surgiram em minha boca devido a essas lembranças. Aquela atividade havia sido muito boa para se lembrar. Fiquei pensando se a presidente do clube havia pensando que essa tarefa seria tão profunda.
A presidenta do clube, Townie, uma pessoa que admirava e me identificava, e que sinceramente gostava muito.
Mas voltando as minhas lembranças, fechei os olhos, mas desta vez aqueles terríveis olhos vermelhos não me vieram à cabeça. E sim um sorriso que havia me marcado, para sempre.
Não só o sorriso, toda a face. Os cabelos pretos lisos e bagunçados caindo nos olhos, aquele rosto sardento, e principalmente aquele sorriso que ia de orelha a orelha. Sorri inconscientemente ao lembrar do sorriso do garoto que marcou minha vida. Que estava em praticamente cada lembrança que eu possuía.
O sorriso de Jeremy. Jeremy sorridente, como minha mãe se referia a ele, e como eu me lembrava daquela criança, da qual eu me culpava diariamente pela sua morte.
Uma lágrima também surgiu em meus olhos, e caiu na folha branca. Mas estava decidido, eu desenharia Jeremy. Jaremy sorridente...
Comecei a desenhá-lo. E me sentia alegre a cada linha que traçava de seu rosto. E revirava minhas memórias buscando por cada detalhe sobre seu rosto. Não me lembrava de nenhuma face triste de Jeremy. Apenas memórias alegres... Jeremy sorriu até mesmo durante sua morte. E aquele sorriso talvez tenha sido o mais marcantes de todos para mim. E aquilo que ele me disse naquele momento também.
Mais lágrimas brotaram. Caíram na folha, e as limpei para que não borrassem o rosto feliz de Jeremy, que nenhuma lágrima estivesse em seu rosto.
– Jeremy, me desculpe... –murmurei solitário.
Terminei o desenho, e o fiquei admirando durante muito tempo.
O sorriso de Jeremy me consolava em diversos momentos. Dava-me forças quando eu precisava. Mas me condenava sempre, me acusava de ter terminado com a vida de uma criança. Com a vida de meu melhor amigo. Arrependia-me tanto daquilo... Às vezes imaginava se não seria melhor eu ter morrido ao invés de continuar vivendo com aquela culpa. Jeremy dera a vida por mim.
Não queria mais lembrar de tudo aquilo. Não merecia mais dor nenhuma para minha vida. Mas era inevitável. A dor da culpa me acompanharia para sempre.
Às vezes também imaginava se Jeremy me perdoaria. Mas é claro que não. Eu acabei com vida dele. Causei sofrimento a seu pai... Não havia perdão para aquilo. Para uma morte.
Continuei admirando e remoendo minha culpa por muito tempo.Tanto tempo que eu nem ao menos percebi quando adormeci. Desta vez, tranquilamente.
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