Vampires Today! - Fall

8 Capítulo 7: Vazio sem fim – O quadro na enfermaria


Estava tudo escuro. Tudo que eu via eram aqueles olhos, que me faziam querer não enxergar mais nada durante toda minha vida. Ao fundo daqueles olhos se ouviam gritos e choro de crianças.

Aqueles olhos vermelhos arregalados, cheio de cenas sangrentas e traumatizantes.

Somente olhar diretamente para aqueles olhos era horrível, e tornava aquilo um horrível pesadelo

Acordei, confuso, fraco, cansado, mas principalmente, amedrontado. E ainda com aquela sensação de não saber o que era realidade ou sonho.

Nem mesmo eu sabia o quanto aqueles olhos haviam me marcado. Era um milagre que também não tenha ficado em estado de choque ao ver tudo aquilo.

Entranhas, vísceras, membros mutilados. Tinha certeza. Não poderia haver no mundo cenas piores do que aquelas.

Estava deitado em uma cama simples, com lençóis brancos. Estava coberto por um fino cobertor também branco.

Minha visão estava embaçada. Eu estava sem óculos, o que era normal já que eu estava deitado.

Fiz força para me levantar, então senti uma pontada na parte superior de minha cabeça, instintivamente coloquei a mão na fonte da dor e senti algo de pena em minha cabeça. Era ataduras, que cobriam toda a parte superior de minha cabeça.

Peguei meus óculos na pequena mesa de cabeceira e os coloquei, e então olhei em volta.

Aquele lugar, era quase tudo branco, a não ser por alguns minúsculos detalhes amarelos nos azulejos. Em volta de toda minha cama havia uma cortina branca extremamente fina, mas que ainda assim me impedia de ver o restante do quarto.

Eu estava usando roupas diferentes das quais eu me lembrava. Estava com meu pijama favorito. Mas como eu podia estar usando-o?

Me sentei a beira da cama e puxei a fina cortina.

Tudo era realmente branco. Paredes, móveis, luminárias, o que se destacava era um pequeno armário de madeira lustrada com as portas de vidros, claramente um armário de remédios. Havia pequenos vitrais ao lado de cada cama, aonde os raios de luz alaranjada da tarde traspassavam, deixando o quarto um pouco mais vivo.

Havia outras camas naquele lugar, mais precisamente, outras sete, 4 em cada lado do quarto. Todas pareciam estar ocupadas, mas não poderia saber já que cada cama era protegida por cortinas como a que havia em minha cama.

Aquele lugar me parecia confuso, mas ao mesmo tempo conhecido. Fiquei um tempo olhando em volta tentando lembrar de onde vinha aquela recordação. Até que vi um quadro na parede que me fez lembrar imediatamente do lugar aonde eu estava. A enfermaria da escola.

Era o quadro de uma paisagem de um deserto aonde a areia no chão era azulada, com apenas uma solitária árvore seca na lateral do quadro. O céu não tinha estrelas, ou luar. Mesmo que muito pouco, aquela árvore era a única coisa que possuía vida naquele quadro... Mesmo não sendo um quadro muito grande, aquela paisagem demonstrava uma grande vastidão... Não aquilo não era a vastidão. E sim um vazio sem fim. Um vazio que eu conhecia muito bem, pois dentro de mim me sentia da mesma maneira... desde aquele dia. Não sei porquê mas aquela paisagem ficara gravada na minha cabeça...

A última vez que estivera ali foi durante meu 3º ano na Worsnop School. Eu estava na 7ª série/8º ano e levei um tombo durante a educação física. Fora apenas um corte no joelho, aonde eu tive que levar alguns pontos, dos quais eu ainda tinha a cicatriz.

Na cama na extrema direita a minha, um mulher volumosa checava algo, provavelmente o paciente que ali estava.

Aquela era a enfermeira da qual eu não lembrava o nome.

Ele terminou o que fazia com o paciente daquela cama, se afastou da cama e fechou a fina cortina.

Ao olhar pra trás e ver que eu havia despertado, se aproximo e perguntou gentilmente:

– Olá, querido. Se sente melhor?

– Sim. Só estou confuso. O que houve comigo? Não me lembro direito. –eu tinha muitas perguntas a fazer, mas decidi não me apressar pelas respostas.

– Você desmaiou durante a atividade do professor Faustos. –A enfermeira olhava pra mim sorrindo pacientemente — Então o professor lhe trouxe pessoalmente aqui.

– Já é de tarde. Então... Que dia é hoje?

– Sábado. Você esteve dormindo desde ontem.

– Entendo. – olhei para baixo encarando o azulejo.

– Eu consegui ganhar o exame? –perguntei. Imaginar ter passado por tudo aquilo por nada era assustador.

– Sinceramente eu não sei. O professor apenas o trouxe aqui e foi embora. Houveram muitos outros alunos machucados. Mas você foi o pior. O restante apenas teve alguns arranhões, cortes e poucos casos de fratura. Mas seu caso foi diferente. Você quase sofreu um traumatismo craniano. Se não estivesse transformado no momento do impacto provavelmente teria morrido. Foi realmente muita negligência da parte do professor. Aquele Faustos... –a enfermeira demonstrou intimidade com o professor

– Feridos... –Naquele momento lembrei-me de Cath e Bruce. Será que eles estavam bem? – Quando poderei sair daqui? – mal podia esperar para checar se eles estavam bem.

– Oh, na verdade, se já estiver se sentindo bem, pode ir.

Animei-me imediatamente. Iria sair dali o mais rápido possível.

– Obrigado, senhora... – não me lembrava o nome da enfermeira, que percebeu e completou.

– Miller. Susan Miller.

A enfermeira me cumprimentou.

– Ah! Só mais uma pergunta. A senhora saberia dizer quem me trouxe esse pijama?

Senhora Miller ficou pensativa durante alguns instantes e respondeu:

– Não me lembro. Talvez lhe tenham trazido fora do meu turno aqui na enfermaria.

– Entendo. Obrigado de qualquer maneira. – sorri meio decepcionado.

Tentei me levantar. Mas estava tonto, e logo cambaleei de novo para a cama. Senhora Miller viu a cena e comentou:

– Talvez devesse esperar o luar. Você se sentira melhor quando a noite cair.

Ela tinha razão. Eu com certeza melhoria bastante com a chegada da lua.

– Tem razão. Vou esperar. Obrigado pela dica. – Sorri para a grande mulher ruiva.

A tarde estava no fim. Aquela tarde de outono estava prestes a terminar. Fazia frio, mesmo assim aquele era minha estação favorita do ano.

Decidi aproveitar o tempo para a noite e fui me trocar.

Havia uma mala com roupas minhas, que eu também não sabia que havia trazido. Mas da maneira que estavam “arrumadas” provavelmente havia sido algum dos garotos do dormitório que a havia trazido.

Depois de colocar uma camisa de mangas longas e um suéter de lã acrílica por cima. Completei com uma calça preta apertada e meus sapatos favoritos.

Com certeza que havia trazido aquilo sabia o que eu gostava de usar. Seja lá quem tenha sido eu iria agradecer.

Continuei esperando o anoitecer sentado a beira da cama, olhando a analisando aquele quadro marcante.

Às vezes eu penso que gosto de me maltratar. Olhar aquele quadro, de alguma maneira, ma fazia lembrar exatamente de como fora aquele dia. O dia em que perdi meu amigo. O dia em descobri a maior verdade sobre mim mesmo. Era extremamente doloroso relembrar aquilo, mas mesmo assim não desistia de olhar aquele quadro, pois eu não queria, e não permitiria que aquela mesmo que dolorosa, mas marcante lembrança fosse esquecida nem ao menos por um segundo.

Divagando comigo mesmo sobre minhas recordações, mau vi que o anoitecer havia chego.

Fiquei surpreso quando olhei para o vitral e percebi o quão escuro estava lá fora.

Senhora Miller estava sentada numa cadeira em uma escrivaninha próxima a porta da enfermaria lendo um livro.

Peguei minha mala, e me levantei sem dificuldade. O luar realmente havia me renovado.

Despedi-me da Senhora Miller e sai da enfermaria.

A Enfermaria ficava localizada no edifício principal do colégio. A escola estava de deserta, apenas iluminada pelas pequenas luminárias presas nas paredes. Era de uma certa maneira meio sinistro andar por aqueles corredores a aquela hora.

Não estava com pressa. Andei lentamente até a saída do edifício principal e depois fui diretamente para meu bloco.

Pensei em passar no apartamento de Cath, mas já era tarde, e o horário permitido para os garotos visitarem os apartamentos femininos já havia terminado. Na verdade, logo o toque de recolher soaria.

Em algumas áreas comuns próximas aos blocos alguns alunos despediam-se e voltavam para seus respectivos blocos.

Àquela hora não estava tão frio. Apenas um vento gelado batia contra meu rosto. Eu amava mais do qualquer coisa aquele vento que trazia com sigo o cheiro do campo.

Deveria ser aproximadamente 19;30 quando avistei meu bloco.

Logo cheguei em meu apartamento. Abri a porta sem cerimônia. Me deparei com uma cena muito comum no apartamento 11.

Frank estava assistindo tv no sofá, quase cochilando. Guibby jogava em seu videogame portátil, completamente concentrado. E eu esperava que Bruce, como sempre fazia estivesse cochilando no quarto. Em dias normais eu estaria lendo no sofá, enquanto ouvia música em meu MP3.

Quando entrei Frank se assustou e despertou. Guibby não percebeu imediatamente, já que estava concentrado em seu jogo.

– Voltei! – disse querendo animar a todos.

– Bem vindo! – Frank se animou e levantou-se e me cumprimentou – Você está bem?

– Estou. – decidi preocupar-me primeiro com Bruce, e depois responder as perguntas de Frank – Onde está Bruce?

– Dormindo como sempre faz a essa hora. – disse Guibby que também se levantou para me cumprimentar – Quer ajuda com a mala?

– Fiquei mais tranquilo ao saber que Bruce estava bem.

– Ah, por favor. – Dei a mala a e ele, ele a levou até meu quarto.

– Espero que esteja bem mesmo – falou Frank – Parece que teremos um pouco de animação nas próximas semanas.

– Como assim?

Frank foi até a mesa de jantar e pegou alguns envelopes que estavam lá. E me entregou animado.

– Nós vamos ter um baile de outono! – disse Frank olhando-me ansioso pela minha reação

– Sério!? – me animei repentinamente por nem eu sei por que.

– Mas não é só isso! – Frank parecia estar muito animado.

Eu folhei todos os três envelopes. Um deles, o primeiro, era muito bonito, de um tom champagne, muito parecido com um convite de casamento. As letras nele escritas eram impressas, porém com uma caligrafia extremamente sofisticada. Porém, já estava aberto. Em sua frente estava escrito:

“Comunicado: Baile Fallen Leaf.

Para os moradores do apartamento 11:

Bruce Carter, Danny Bayley, Frankie Mitchell e Guibbyson Davis”

Decidi ver o que eram os outros envelopes antes de ler o sobre o baile.

Os outros dois envelopes ainda estavam devidamente selados.

Quando o vi os remetentes de ambos, uma grande alegria me invadiu. Mal podia esperar para lê-los.