Vampire Hollow: Night of Brizz
1 A Noite Escura
Alemanha Oriental — Século XX — Hohenschwangau Castle
~~~~ (Castelo Neuschwanstein , 1984) ~~~~
Era mais uma daquelas noites de luar e uma tempestade já começava a se formar nos arredores do castelo de Neuschwanstein, um ar sinistro assolava todos que se aproximavam do lugar e aos poucos eles começavam a adentrar em seu interior. Era um ambiente de muita luxuosidade, com seus quadros de ouro pendurados no centro do salão e o piso era revestido de mármore mais cara que encontrará. Um pouco mais acima do castelo, mais especificamente em um dos quartos, a bela dama Elaine encontrava-se com uma pequena criança entre seus braços e sob aquela intensa luz do luar, começará a cantar uma antiga canção que sua mãe um dia lhe ensinara.

Nesse momento, enquanto o agraciava com sua voz majestosa, uma sombra aos poucos se alastrou em sua direção e de seu meio uma mão se projetou segurando-se com firmeza em sua cintura e cravando suas presas afiadas em seu delicado pescoço. A esbelta mulher que trajava um vestido de coloração vermelha rubi, seus cabelos eram brancos e era dona de um olhar penetrante. As unhas eram mais afiadas que o normal e a coloração delas contrastava com as suas vestes. Elaine soltou um gemido de dor e misturado com um prazer sádico que encontrara naquele ato com a chegada repentina de seu cônjuge, esboçou um sorriso de satisfação ao encarar sua face jovial que escondia o grande lorde demônio dos vampiros por detrás daquela casta humana e incauta. Seus filhos, todos primogênitos, logo vieram ao seu encontro e cravaram suas presas em outras partes do corpo. Sugar o sangue de um incauto puritano era algo satisfatório, quase sempre resultava em uma caçada macabra e saciava seu apetite voraz. Todavia, o sangue da mãe era algo especial. Nele continham proteínas raras e sem as quais não seria possível controlar os seus instintos mais primitivos.
O castelo se situava no topo das regiões altas, próximo à cidade de Van Helzen, lugar este considerado a cidade mais sombria e obscura de todo o planeta. Lar das criaturas e seres mais perversos já conhecidos em toda a história da humanidade. Mas é também, o lugar onde nasceram as duas maiores lendas consagradas de todos os universos, do espaço e atravessando fronteiras, alcançando outras galáxias. O nome delas é Grelly Brizz, a “ Dark Lady” e Valiel, “The Chain Witch”. Naquela noite serena, a matriarca da família Hohenzollern se sentia radiante com a presença da lua, iluminando os poucos espaços que alcançara no ambiente e dando a ela uma visão privilegiada de suas crias diabólicas. Segurando firme em sua cintura, estava o seu fiel esposo, um homem alto de longos cabelos loiros que davam até as costas, os ventos gélidos ora sopravam em sua face e balançava sua cabeleira comprida e volumosa.
O patriarca esboçou um sorriso de satisfação ao cravar suas presas afiadas, olhava de relance para cada quadro e podia contar nos dedos os lustres que iluminam o grande salão. O gosto do sangue pela sua expressão aparentava não ter um sabor palatável. Todavia, estava habituado com aquele ritual demoníaco, o odor de carne rançosa na pele de sua amada só atiçava ainda mais os desejos profanos de um coração impuro,atroz e repleto de maldade. Alexander, por sua vez, sentia-se satisfeito e revigorado, enquanto Elaine acariciava seu rosto e afagava os poucos cabelos de seu bastardinho recém nascido. Assim ao menos era como ela o via, uma criaturinha que algum dia iria crescer e se tornar alguém de que irá se orgulhar, o esperado para uma cria de seu ventre. Antes de escutar a voz áspera e imponente de seu amado esposo, a criança chora interrompendo seus devaneios aos quais ela chama de “pensamentos” e atraindo a atenção dos presentes. Então, com calma e ternura, ela o confortou entre os bustos, o cobriu com um pano enquanto este voltava a adormecer e, tornava a cantarolar, baixinho em seu ouvido:
♫ Em uma noite escura
Sobre Belém
Uma estrela brilhante subiu
E cobriu a terra com sua luz
A mais pura donzela
A Noiva Santa
Em uma caverna humilde
Deu à luz um filho
Durma Jesus, Durma ó pequenino
Durma minha estrelinha
Estou cantando para ti, meu querido
Sobre o teu destino
Ela o beijou ternamente
E cobriu-o com um pano
Colocou-o para dormir
E começou a cantar baixinho
Tu vais crescer, filho
Tu te tornarás um homem adulto
Tu irás para o mundo, meu filho
Durma Jesus, Durma ó pequenino
Durma minha estrelinha
Estou cantando para ti, meu querido
Sobre o teu destino. ♫
O pequeno menino, enfim, fechou os olhos e mergulhou no mais profundo sono. Seu rosto transparecia tamanha inocência, era púdico e só algum Deus desse mundo mundano entenderia o que realmente se passava no coração deste pequenino ser. Elaine rosnou, revelando suas presas afiadas e lançando um olhar selvagem e deixando uma lágrima de felicidade derramarem pelo rosto.
– “Cacete, como isso pode ser tão… perfeito?” – Elaine pensava, tomada pela euforia e o prazer sádico. Revirava os olhos enquanto o sangue pulsava de suas veias e jorrava na garganta daquelas criaturas malditas que os criava como seus filhos.
– Agora já chega, crianças. Querido, por favor, eu adoraria continuar esse momento tão especial. Mas tenho de colocar o nosso precioso menino no berço.
No entanto, aquelas feras famintas pareciam não dar ouvidos, estavam tão extasiados como um viciado de beira de esquina se picando com a agulha de uma seringa e injetando uma substância entorpecente, estando sob os efeitos psicodélicos. Aliás, como poderia diferir um drogado de um vampiro? Sendo que ambos têm desejos incompulsivos de se sentir aquém da realidade, uma vez estando nesse caminho, não há volta e tampouco vejo uma cura. Para o caso dessas feras que exalam cheiro de sangue, em particular, já havia proposto uma solução. Extirpá-los da existência para toda eternidade, e que, sua alma pene nos confins do tártaro. Só o que precisava era de uma ou mais balas de prata, uma garrafa de um bom e velho whisky e a lâmina brilhante e afiada de minha inseparável espada. Os paroquiais e os Exorcistas ainda usam alho e água benta, embora eu considere este método um tanto antiquado. Não deixa de ser funcional. Entretanto, segundo minha saudosa mãe dizia, o alho é um ingrediente indispensável na culinária e deve ser usado com a maestria de um renomado Chef de Cozinha, utilizá-lo somente para fins de preparar um prato suculento, como uma leva batatas cozidas e pedaços de carnes assadas. É um componente essencial que pode dar um toque mágico a comidas típicas de nossa nação.
Só de pensar no aroma desnorteante, os cuidados no preparo, a delicadeza dos finos temperos utilizados e o quão gratificante é não apenas servir a apetitosa refeição, como fazer as honras e sempre agradecendo ao bom Cristo nosso salvador por cada migalha de pão, cada grão de arroz embora ocasionalmente encontremos a presença deste alimento na mesa. Isto, pois, o clima não era ideal para o cultivo em larga escala, tampouco havia demanda suficiente no cenário que justificasse a produção em massa. O país é conhecido pela forte produção de batatas e temos outras culturas, como centeio, cevada, milho e beterraba por exemplo. Em vez da rizicultura que é algo mais comum e notório no sudeste asiático. O banquete acompanha numerosas bebidas à base de milho e cevada, algumas contém certas doses de álcool, por isso não é raro nos depararmos com homens, mulheres adultas se embriagando ou até mesmo, adolescentes experimentando, estando um tanto fora de si e perambulando pelas ruas como uns tresloucados vadios.
Em minha experiência particular, observo com certa cautela, mais a classe de adultos do que menores propriamente e creio que o governo deveria estabelecer uma restrição de idade para o consumo. No entanto, meu mentor é um ébrio nato, um sujeito que se define como um degustador para não reconhecer o fato de que a bebedeira já o dominou. Se hoje me tornei uma figura abominável por um certo grupo de criaturas malignas e intragável para os demônios de presas, sugadores de sangue imundos. Em partes isso se deve a boa educação que recebi de minha amada e já falecida mãe, as duras dores causadas por um pai ébrio e que, manifestava uma personalidade dominadora, ao não me deixar sair para brincar com as outras crianças.
Dizia sempre que isso tinha um bom motivo, e esse motivo era me disciplinar. E por fim, ao senhor Burghan, homem a quem confio minha vida e sigo severamente todos os seus ensinamentos. Para ele não sou mais que uma mulher feita pela vida, e criada pela dádiva do destino com sorte de tê-la conhecido na melhor das oportunidades. Meu nome? Eu sou Grelly Brizz, uma caçadora implacável que já viu de tudo um pouco que a imensidão desse mundo obscuro tem a oferecer. Algum dia já fui uma menina chorona, medrosa, indefesa, com atitudes perniciosas e por vezes, até que duvidosas. Me lembro nitidamente como se fosse ontem, eu toda sorridente e dengosa, brincando pelas estradas com outras crianças e sendo encurralada em algum lugar estranho, Longe da vista dos outros adultos responsáveis, estes que curiosamente pareciam não se importar com as ações características de delinquência de seus filhos.
O que eles faziam comigo? Bom, isso já não importa mais. Porém me marcou e guardo as minhas mágoas, as lágrimas derramadas, o trauma e as más recordações de um dia que guardo no fundo da memória para não esquecer. Tampouco perdoar, e agora, eu viro esse mundo do avesso atrás dos meus alvos e os marco, lembrando-os e os fazendo pagar pelas atrocidades cometidas por seus atos pecaminosos. Sou uma cristã convicta de que o nosso senhor nos deu sua vida para nos libertar do pecado, e através da morte, venceu a morte e ressuscitou dos mortos.
Os Exorcistas e os Párocos tendem a encaminhar o espírito pecador à luz divina do senhor. Os libertando de seu confinamento e purificando a alma maculada. Já a mim, por outro lado, prefiro simplificar um pouco as coisas e encurtar os seus passos nesse plano terreno, os levando de encontro diretamente com o propósito de Deus. Sem mais, nem menos. É o meu trabalho, parte de um legado que deixarei quando partir para que as próximas gerações venham a seguir.
A minha história começa na ilustre cidade de Van Helzen, um lugar tenebroso que por onde quer que você passe tem cheiro e exala um odor de enxofre, mesclado com sangue, carvão e vísceras. As noites gloriosas nas ruas são marcadas pelo terror bárbaro das famigeradas criaturas noturnas, elas têm diversas formas e não se limitam apenas aos vampiros clássicos da literatura puritana. Também não se pode esquecer do estilo de vida típico dos cidadãos, os teatros apesar dos rumores lacônicos e quase ocultados pelo regime de governo socialista predominante, encontram-se com os ingressos todos esgotados. Bares e salões frequentemente lotados, quer seja por transeuntes locais, quer seja por viajantes recém chegados à cidade e que não conhecem bem como a banda toca por esse lado.
Como também há visitantes inesperados trilhando pelo caminho da escuridão, mergulhados em uma solidão profunda, imperdoável e buscando algo para satisfazer os prazeres insanos da mente e da carne. O som do piano tocando uma clássica canção ao fundo de um salão, ecoando por toda a região. O clima de agonia e a perseguição aos incautos puritanos estava rolando, tomados pelos anseios e seguindo um ritmo frenético. As quatro criaturas que aparentavam ser esguias mulheres brancas, cada qual com sua característica física determinante, como a cor do cabelo, o estilo de penteado exótico e mal acabado, do tipo que indicava que as suas vítimas foram atacadas a cerca de duas horas precisamente. A julgar pela aparência em geral em estado de conservação, a pele ainda não estava pálida, embora a arcada dentária estivesse alterada e adotassem um comportamento animalesco. Aquelas coisas desprovidas de qualquer senso de humanidade, destroçavam suas novas vítimas sem misericórdia ou compaixão.
Me aproximava, cada vez mais rápido, daquele cenário conturbado. Seguia os rastros deixados pelo caminho, com uma moto cara e fabricada sob encomenda, em umas das empresas a qual Burghan atua como sócio-majoritário. Ela que fora projetada para longas viagens ao redor da cidade, sua tecnologia era muito sotifisticada e é bem à frente de nossa época, ao finalmente avistá-los realizei uma manobra e joguei o veículo para o lado esquerdo, assim aplicando uma rasteira em dois elementos que atacavam suas vítimas, e os derrubando no chão. Em seguida, empurrei as travinhas do painel analógico e das roda traseira surgiram pequenas lâminas bem afiadas, segurei o freio levantando a moto e girei a mão no acelerador, assim lançado-a a poucos metros do rosto deles e desferindo um longo corte ao redor do crânio que fora, literalmente, estraçalhado. O sangue jorrava pelos cantos, a princípio esguichou nas minhas vestes e respingaram no acabamento do veículo. Foi uma cena macabra com a qual já estava acostumada.
Agora restavam apenas dois, das quatro feras diabólicas. Elas se afastaram do local rapidamente, interrompendo o banquete e lançando um olhar mortal para mim. Suspirei, demonstrando estar despreocupada e visualizando os alvos através dos meus óculos de lentes transparentes na cor de laranja.
– Grr, maldita! Quem é você? – Vociferou uma das criaturas remanescentes.
– A Dama de pret… – A outra tentou concluir, contudo, fora interrompida com um disparo certeiro de minha humilde pistola de cano longo, uma variação da Magnum calibre .44 em cor prata padrão.
O estrago havia sido feito, parte considerável do crânio fora arrancado violentamente com a brutalidade do ataque certeiro. No local atingido restará parcialmente vestígio, massa encefálica chamuscada, a última do quarteto ao avançar em minha direção, acabara sendo atravessada a partir da traqueia pela lâmina da minha espada que desferiu um corte preciso em perfeita simetria, dividindo sua cabeça em duas partes. Um golpe fatal, em ponto estratégico que subitamente a levou à óbito. Para finalizar e, me resguardar, de um possível dano colateral. Guardei as minhas armas, removi da área do fundo do assento, uma garrafa de velho whisky e despejei o líquido por sobre e ao redor dos cadáveres. Tomei uma distância de dois metros e meio, deixando um rastro de álcool e do bolso retirei um isqueiro composto de metal, acendi a brasa e vislumbrei as chamas dançando, queimando tudo em cada ângulo, Era um momento celebrável, até sentir um certo arrepio digamos assim e os ventos sopravam estranhamente em outra direção. Com o fogaréu irradiando por todo o lugar, a marca deixada formava um símbolo e através deste pequeno ritual, pude evocar o espírito do ser maligno com quem outrora estabeleci uma conexão e ele veio até mim, ostentando um largo sorriso de ponta a orelha em satisfação.
Aos poucos ele foi se moldando e tomando forma, e aparência semelhante a um humano incauto. Este ser costumava se manifestar de muitas formas peculiares, entretanto, essa era a primeira vez que o vejo adotar a persona de um humano. Um homem alvo, alto, de pele morena em tons mais escuros, com um penteado volumoso e arredondado. De um cavanhaque estiloso, usava óculos escuro e sua vestimenta compunha uma blusa de mangas largas, uma calça presa ao cinto com uma fivela de ouro reluzente, e como poderia me esquecer de sua inseparável correntinha dourada que é quase um membro extra de seu corpo. Os cabelos e a testa estavam cobertos por uma bandana mantendo a coloração padrão das demais peças da vestimenta.
– E aí, fala aí, diz aí: Grelly Brizz! – Exclamou o sujeito ao finalmente fitar o meu rosto, expressando animação e entusiasmo ao me rever após, sabia-se lá, há quantos anos não nos falamos.
– Caruso, seu pedaço de merda. Eu já deveria saber que você estava envolvido nisso! – Afirmei, categoricamente, o que o fez recuar alguns passos e levantar os braços, gesticulando um pedido de “calma”.
– Oh, hoo. Belezinha, pega leve aí. Eu juro pelo seu deus que não faço ideia do que está falando. – Dissera o elemento, em sua defesa, transparecendo uma reação nítida de surpresa e mantendo a postura firme.
– É mesmo? Então que tal me explicar isso. – Apontei para o local onde ele se encontrava.
Caruso ao se defrontar com o cenário, se encolheu em pleno ar e encenou uma reação quase genuína de espanto com o que acabara de testemunhar.
– Ai, cacete, essas “coisas” estão… mo-mortas? – Caruso perguntou, diminuindo o tom de voz até pronunciar a última palavra.
– Chega de brincadeiras, demônio e confesse logo. Você está exaurindo minha sapiência, e eu estou a um passo de sacar minha magnum e causar alguns bons estragos, nesse seu sorrisinho diabólico perfeito. – Ameacei, tentando extrair uma confissão da boca daquele maldito.
– Mas que situação, viu? Você por um acaso não beija o seu noivo com essa boca, não,né?
– Tsc, continue fazendo piadas, e eu te mando de volta para o colo do satanás ou de lúcifer. E sem nenhuma cerimônia. – Persistia na tática de coação, até ele começar a falar o que precisava ouvir.
– Pavio curto, como sempre. Você nunca muda… enfim, como posso ser útil hoje, belle dame? – O demônio pela primeira vez me recebeu com uma breve reverência solene.
Enchi de ar os pulmões, respirando fundo e aspirando.
– Que tal começarmos pelo básico? Por que esses demônios, sugadores de sangue, vagabundas suas eu presumo. Estavam bem aqui se servindo dos corpos desses pobres incautos humanos vestidos de freira? – O inquiri, o que fez pensar bem na escolha de suas palavras.
– Quer uma resposta curta, simples ou óbvia? – Provocara o ser.
– Desembucha, Caruso!
– Eu… não faço a menor ideia. E além disso, o que te faz pensar que elas são minhas? Veja por si mesma, Brizz, elas são todas brancas e eu odeio brancos. – O demônio mais ébano das paradas do quinto dos infernos assim se manifestava.
– O que lhe torna o primeiro suspeito da minha lista. Eu penso, se não és ti o responsável pelas desgraças que recaíram sobre essas almas… Ao menos, alguma informação deveras interessante, a respeito você deve possuir. – A caçadora, eu por conseguinte, o cerceei de tal forma que não lhe restará muito o que dizer.
– Quer saber? Estou pouco me fodendo hoje, para você, para essas criaturas sorrateiras ou toda essa merda em que está tentando me acusar. Se o Caruso diz que não sabe de nada, então Caruso se manterá em silêncio perpétuo e não se comprometerá com qualquer coisa relacionada ao que deseja saber. – Vociferou, cruzando os braços e virando o rosto de lado.
Quando menos se deu conta, o cano da minha magnum estava apontada bem no meio da sua fuça, pronta para mais um disparo de arrasar com qualquer bárbaro que cruzasse o meu caminho.
– Caruso também pode fazer a travessia para o sete além, se continuar me enrolando e não dizer o que está planejando. – Por fim, tornei a confrontá-lo.
Em um piscar de olhos, o demônio tomou a frente de um ataque repentino lançado em minha direção e o aparando com suas costas. Só havia notado, assim que vi o pequeno estrago causado, estilhaços do que seria uma garrafa de vidro contendo um líquido inflamável e exalava um cheiro peculiar de combustível, um clássico coquetel molotov havia sido atirado contra mim e golpeado às costas de Caruso, este por sua vez, recebeu com gratidão e sem parcimônia o ataque. Voltei minhas atenções para o cenário ao meu redor, apontei a arma para a frente e tão logo fui surpreendida com a aparição iminente de uma criatura, cujo tronco do corpo aparentava ser de uma humana e as pernas eram como patas com garras afiadas, e lembrava a de uma ave de rapina. Na cabeça um par de chifres entre a cabeleira longa e comprida que media-se até as costas, os olhos fechados e com marcas recentes de queimaduras, a arcada dentária compunha pares de presas afiadas. Ela voava com facilidade pelos céus, graças às suas grandes asas e antes que fosse capaz de efetuar um disparo nela, O demônio voou em minha direção ferozmente, tal ação me levou a esquivar rapidamente do seu avanço e tentava acertá-la, mesmo que ela desviasse facilmente do projétil de bala.
– Haha, é só isso que sabe fazer, dama de preto!??? – Questionou a fera demoníaca alada.
Calmamente me pus de pé, apontei a arma novamente em sua direção e dessa vez ela passou por uma transformação, incrustando no braço e o cano se multiplicou saindo pela moldura de um crânio feito de prata. Logo, esboçei um sorriso de satisfação e realizei um novo disparo concentrado, porém diferente de antes o que saiu de dentro dos canos foram uma espécie de chicotes de energia longos que a agarram rapidamente. Por fim, uma rajada de raios de energia fora dissipada do interior da arma, neutralizando os movimentos daquela ameaça e a fazendo urrar de dor, logo os “chicotes” a puxaram com força em minha direção. Onde finalizei o ataque atravessando a lâmina da minha espada no coração dela e posterior a isso, disparei contra o seu corpo o que destruiu parte de sua matéria a nível molecular, restando apenas as partes íntimas. Estas foram ao chão de joelhos e a chutei contra as chamas que fizeram o resto do trabalho árduo.
Caruso respirou fundo, se sentou no chão e observou atentamente a cena do meu exorcismo improvisado.
– Então é isso, mas que situação… – Comentou Caruso, aspirando um ar de decepção.
– Você podia ter me dito antes que aquela coisa viria… teria me poupado um bom trabalho.
– Tsc, e perder a graça de ver uma caçadora branca lutar pela própria sobrevivência? nah! Eu não perderia o show por nada nesse mundo.
Ao ouvir suas palavras estúpidas, guardei minha magnum e virei de costas, seguindo meu caminho de volta para a moto.
– Ué, por uma caso já desistiu da ideia de me fazer confessar? – Indagou o demônio ébano, com uma dose extra de sarcasmo em seu tom de voz.
– Sim. Percebo que é inútil continuar perdendo tempo com sua estupidez. – Expliquei para certo espanto dele que me olhou confuso. – Além do mais, mesmo que soubesse de algo, eu certamente iria descobrir de alguma forma. Portanto, compreendo que não precise mais de seus serviços. – Conclui, me ajeitando em cima da moto.
– Uffa! Mais um pouco, e eu teria mencionado a irmã que requisitou a minha presença mais cedo….
– Irmã? Que irmã é essa? – Perguntei inocentemente, arqueando as sobrancelhas.
– Eu não disse, não digo, nem ouso dizer.
– Caruso… – Murmurei seu nome tão baixinho que só sua audição aguçada seria capaz de me ouvir.
– Não vem com essa, caçadora branca, eu não caio nos encantos.
– Caruso! – Exclamei nervosa com as suas provocações.
– Está bem. Eu não sei quem ela é ou a qual congregação ela pertence, mas aparentemente é uma serva desleal daquele senhor barbudo, vivendo escondido atrás das nuvens.
– Sei, me conte mais sobre essa tal “irmã”. – Inquiri o demônio cuja cabeleira tinha um formato arredondado e pontas repicadas. Em algum lugar do ocidente, chamam esse penteado de Black Power. Mas não vem ao caso agora.
– Ela apareceu há alguns dias, trouxe umas chicas brancas e fez um ritual macabro de contra-possessão. Eu nunca vi isso antes, nem mesmo uma bruxa maligna seria tão vil e baixa ao ponto de submeter humanas tão jovens em uma iniciação tão arriscada e perigosa.
– Isso é um tanto incomum, realmente, por um acaso essa irmã tem um nome? – Seguia o interrogando mantendo discretamente uma nova linha de investigação no meu subconsciente.
– Eu não ouvi nada a respeito, elas só a chamavam de irmã e imploraram por suas vidas. Mas me recordo de sua vestimenta, ela estava trajando um hábito e no pescoço ao invés de carregar uma cruz, havia um pentagrama de 8 pontas.
– Interessante. E há algo mais sobre ela que deva saber?
– Não sei. Já vi lúcifer em muitas ocasiões, animado e trincando os dentes de felicidade. Mas recentemente ele anda perturbado com esses chamados, e creio que ele tema perder o seu reinado, caso não resolva isso rápido.
– Isso explica muita coisa. Sendo bem sincera, eu achava que até então era a única figura capaz de amedrontar esses demônios e outras criaturas abomináveis. Mas se tenho uma rival, creio que isso seja um sinal do universo de que devemos nos encontrar. – Comentei por alto, deixando Caruso com uma cara de poucos amigos.
– E faz alguma ideia de por onde começar? Não que eu esteja interessado em sua investigação… mas, sabe como é? Se por um acaso eu puder capturar e entregar quem está fazendo isso ao chefão, logo poderei receber uma promoção.
– Até parece que eu permitiria um demônio intrometendo-se em meus assuntos. – Reagi a sua audácia com o semblante fechado, e comecei a aquecer o motor.
– Ah, qual é? Brizz. Eu posso ser sua sombra, você nem iria not…
Antes que Caruso pudesse completar sua fala, girei a chave de ignição e tudo que se ouvirá a partir de então é o som do motor, e das rodas, acelerando rumo adentro na cidade. No tempo durante o percurso, tinha um vislumbre de cada prédio ocupando o seu devido espaço nas calçadas, sem disputar com o comércio e obras em fase avançada de construção. Entretanto, o clima ainda era de incerteza quanto à segurança envolvendo estes seres horripilantes, nem mesmo eu com quase trinta anos de experiência bem vividas posso afirmar que haverá alguma mudança expressiva nos próximos anos. Longe de mim ser uma oráculo que possa predizer o futuro de uma pessoa, quem dirá de uma nação inteira, mas como Burghan costuma dizer: “Brizz, nada nessa vida é tão ruim antes, que não possa piorar mais tarde”. Também tenho minhas convicções políticas, sem querer parecer proselitista, eu diria que enxergo o óbvio. Para as coisas mudarem desse lado do muro, é preciso muito esforço, muita fé e uma luta árdua constante se quisermos que as condições realmente sejam favoráveis a nós. Até lá, vos deixo com este breve relato de uma remanescente dos tempos, a batalha que está por vir será longa e a guerra contra essas criaturas só começou. E não consigo imaginar um final feliz para essa história. O que nos resta é apenas e somente o silêncio, talvez esta seja todas as respostas que tanto procuramos saber no nosso cotidiano.
Mais um passo e estarei próxima de desvendar este intrigante mistério. Quem será essa misteriosa mulher, trajando um hábito e causando um alvoroço até para o diabo? São tantas perguntas que me faço até agora, e não encontro nenhuma resposta que faça sentido ou seja satisfatória.
De volta ao Castelo, Elaine já havia colocado seu pequeno bastardo para dormir no berço, ele era composto de madeira maciça com um aspecto visual muito simples e os contornos ao redor faziam lembrar uma pequena arca, ou quem sabe uma parte de um caixão. Era cuidadosamente forrado com lençóis brancos, limpos por cima de um colchão macio. No caminho até o quarto do menino, a “mãe” dos vampiros terminava de cantarolar…
♫ A verdade viverá
E quebrarás as algemas do pecado
Mas meu filho morrerá no Gólgota
Durma Jesus, Durma ó pequenino
Durma minha estrelinha
Estou cantando para ti, meu querido
Sobre o teu destino
Durma Jesus, durma meu pequenino
Durma, minha Luz
O mundo inteiro está olhando pra Ti
Com esperança! ♫
Fim do capítulo.
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