Notas iniciais
sinceramente, não sei se vai agradá-los. mas é bom lembrar que eu tentei.

Ah, que lindo. Quando todo mundo vai dormir, eu resolvo acordar. Esse é um dos motivos por vampiros serem tão solitários. E além da solidão, a maldita sede me dominava. Fazia duas semanas que eu tentava sobreviver de sangue de pássaros — pombos que vagavam pelo jardim do campus — e suco de groselha — pra vocês verem a que ponto crítico que cheguei.

Um copo de sangue faria um bem perfeito pra mim agora. Um copo é pouco. Eu precisava de mais. E o fato do suco de groselha não ser o melhor substituto do mundo colaborava bastante pra eu considerar uma caçada. Além de que, suco de groselha era a única coisa disponível. Nem pombos haviam no jardim a essas horas. E caçar estava até se tornando bastante considerável... Afinal, duas semanas sem \'mortes misteriosas\' eram mais que o suficiente.

Ok, agora, antes de eu sair por aí procurando minha — ou minhas — presa, deveria me certificar de que a câmera do internato ou nem um humano que fazia parte da família escolar iriam me flagrar altas horas fora de cama.

Depois de dar um jeito nas câmeras que tudo filmavam e ver que nem um humano estava rondando pelo campus, saí do prédio.

Agora, eu vagava em uma rua tão escura e solitária quanto eu. Bom, se eu fosse humana, estaria morrendo de medo. Mas nada me assustava — não tanto quanto eu mesma.

Quando virei na esquina, vi uma cena nada incomum: um humano forte se aproveitando de uma humana frágil.

- Tsc, tsc. Quando vocês, valentões, vão aprender que isso é covardia? — Perguntei em um tom de desaprovação enquanto via o humano tentando arrancar a camisa da humana, que estava bem assustada. Bom, se estivéssemos a sós, eu o mataria ali mesmo. Mas se a humana presenciasse a cena, teria de matá-la também — não que eu não gostasse da idéia de ter dois corpos de sangue pra me alimentar — e isso seria contraditório já que eu a havia salvo. Virei para a humana e apontei para o fim da rua onde havia um vigia noturno e quando ela entendeu, saiu correndo desesperadamente em um choro inaudível. Sua bolsa caiu no meio do caminho e ela não se importou em pegá-la de volta.

Fiquei ali, vendo-a correr enquanto era encarada pelo brutamonte. “Acalme-se, minha senhora. Nos dê a localização exata que iremos falar com a polícia”, o vigia tentava confortá-la enquanto eles desapareciam na esquina. Finalmente olhei para o brutamontes, ainda me encarando.

- Qual é, gatinha? — Argh. Bêbado. Bafo horrível.

- Você só está tornando isso mais difícil, idiota. — Isso não devia ter saído em tom tão calmo. Mas era justo quando não se tinha nada a temer. Ele riu alto feito uma hiena desgraçada e veio cambaleando em minha direção. Não sei como aquele humano se mantinha em pé.

- Vamo\' lá, gostosa. — Semicerrei os olhos.

- Me chama disso só mais uma vez. — Duvidei em um tom ameaçador. Se tinha algo que eu odiava mais que qualquer coisa era ser chamada dessa coisa vulgar estúpida. Ele se aproximou, e com um passo fixo fincou seus pés no chão ficando a centímetros do meu rosto.

- Gostosa. — Ele sibilou claramente como se estivesse falando com uma doente mental. Me admirei com sua coragem, devo dizer. Abaixei minha cabeça e fechei meus olhos. Quando a levantei novamente de olhos abertos, dei um sorriso maligno expondo meus caninos. Ele parecia tentar gritar; mas não saía som de sua boca escancarada. Parecia tentar correr; mas suas pernas não obdeceram-o.
Em um sopro de vento, com minhas mãos, prendi-o contra o muro pelo pescoço, não me importando em saber que ele morreria sem oxigênio. Quebrei seu pescoço.

- Eu avisei. — Eu lembrei seu corpo sem vida.

Quando eu já não ouvia seus batimentos cardíacos ou pulsação, cravei meus caninos em seu pescoço sugando até a última gota de sangue que havia no seu corpo.

Ah, sangue fresco novamente. Há tanto tempo que não tomara. Havia até me esquecido o gosto.

Quando seu corpo estava literalmente pálido, arremessei-o contra o chão ouvindo pequenos ossos se partindo e limpei minha boca suja de sangue humano com a manga de minha camisa, enquanto retornava à forma pacífica — com olhos azuis e dentes normais.
Saí saltitando pela avenida escura e solitária como se nada tivesse feito.

Humanos são tão estúpidos e frágeis. Em um simples estalar de dedos eles morrem. Não é a toa que nem todos deles se tornam um de nós. São raros. Muito raros. Tão raros que eu nunca vira por aqui alguém como eu. Mas eu não acredito que seja a única de minha raça.

Quando me dei conta de que amanhã teria aula, voltei para a cama. Bom, sinceramente, é mais fácil se dar com o fardo de ser uma sugadora de sangue ou monstro de histórias de terror a ser uma estudante juvenil aparentando seus 14 anos cursando a 8ª série pela centésima vez. Suspiro.

Notas finais
reviews são um incentivo aos escritores (:
Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.