Valerion - a Busca por Yggdrasil

54 O poder colossal de um Ás


O caminho azul da raiz parecia se estender sem fim, um corredor líquido onde cada passo soava como mergulho. Nymira avançava com esforço, o corpo marcado pela mancha negra que agora tomava todo o lado esquerdo, e um pedaço do lado direito. Seu braço, escurecido e dolorido, latejava a cada movimento. Ainda assim, ela seguia.

— Nossos destinos estão cruzados, de todos nós… — murmurou, recordando as palavras ditas a Tiberan antes de se separar. Agora, sozinha, precisava provar que podia carregar sua parte da luta.

A atmosfera mudava conforme avançava. O azul da raiz se tornava um oceano suspenso no ar, como se as paredes fossem feitas de mares revoltos. O som das ondas ecoava, embora não houvesse mar ali. De repente, a água se adensou diante dela, e uma silhueta emergiu, moldando-se em forma humana.

Era uma mulher de beleza implacável, cabelos longos como rios de prata, olhos profundos, translúcidos. Seu corpo oscilava como feito de correntezas, e onde seus pés tocavam, gotas cintilantes escorriam, transformando-se em flores aquáticas que logo desapareciam.

— Inês, Ás da Criação. — a voz era firme, mas carregava ternura. — Você ousa trazer sua doença até as entranhas da Yggdrasil? A água que corre em você está corrompida.

Nymira ergueu o rosto, ofegante, mas convicta. — Doença ou não… é essa mesma água que me trouxe até aqui. E é com ela que vou lutar.

Inês estendeu a mão, e rios de luz se projetaram do vazio, formando correntes que se lançaram contra a garota. Nymira reagiu invocando homúnculos aquáticos que se ergueram para defendê-la, mas os corpos translúcidos se despedaçaram no primeiro impacto. Era como se a água de Inês fosse vida pura, e a de Nymira, apenas sombra dela.

Ainda assim, a jovem avançou. Com um movimento ágil, formou uma lança de água e atirou contra a Ás. Inês desviou sem esforço, deixando que a lança se desmanchasse em chuva.

— Você é frágil, filha doente. — disse Inês, sua voz ecoando como correntezas. — Mas admiro sua coragem.

— Não preciso da sua admiração. — Nymira rosnou, invocando um redemoinho que se fechou em torno da adversária. Pela primeira vez, Inês ergueu as sobrancelhas, surpresa.

O redemoinho se estreitou, comprimindo-a, mas com um gesto simples, Inês fez a água brilhar em um tom prateado. A corrente se rompeu, explodindo como um oceano desfeito, e Nymira foi arremessada para trás, colidindo contra as paredes líquidas da raiz. Tossiu, cuspindo sangue misturado à água.

A mancha negra em seu corpo se espalhava rápido, agora cobrindo-lhe também os ombros. Ela sentia o braço cada vez mais rígido, como se pertencesse a outra pessoa.

“Se eu cair aqui… os outros não vão ter chance contra os Ás…” pensou, forçando-se a levantar.

Novos homúnculos surgiram, desta vez mais sólidos, os olhos brilhando com frágil determinação. Avançaram contra Inês em uníssono, como um exército de sombras d’água. A Ás os observou com frieza, depois abriu os braços.

Do chão, rios cristalinos emergiram, envolvendo cada homúnculo, absorvendo-os de volta para o vazio. As criações de Nymira gritaram antes de desaparecer, como se tivessem consciência própria.

— Você não deveria brincar com a vida. — murmurou Inês. — A Criação não é brinquedo para doentes.

Nymira sentiu o peito apertar, não apenas pela dor, mas pelas palavras. Cada homúnculo era parte dela, fragmentos de sua alma. Perdê-los era como perder pedaços de si mesma. Ainda assim, avançou mais uma vez, puxando água até do suor da própria pele.

— Eu não brinco… eu sobrevivo!

Com esforço, conseguiu reunir energia suficiente para lançar um jato cortante, que abriu uma fenda no braço de Inês. A Ás recuou um passo, observando a marca que logo se regenerou, mas pela primeira vez a olhou com respeito.

— Interessante… — sussurrou.

Mas Nymira já cambaleava. Seus membros não obedeciam. O corpo já estava inteiramente negro, e veias escuras começavam a subir pelo pescoço. O coração disparava, depois falhava em batidas arrítmicas.

Ainda assim, ela tentou mais uma investida. Criou uma esfera d’água e a comprimiu tanto que a própria mão começou a sangrar. Atirou-a contra Inês, que levantou uma muralha líquida. O impacto fez o corredor inteiro tremer, derrubando ondas pelas paredes.

Nymira caiu de joelhos. O mundo girava. Ela sentia queimar por dentro, mas não de fogo — de escuridão.

Inês se aproximou lentamente. — Você é teimosa. Mas chegou ao fim.

A jovem tentou erguer-se, mas o braço não respondia. A mancha escura tomava agora o topo da sua cabeça, cobrindo os dois olhos. Todo o corpo foi tomado pela doença. Ela caiu para frente, apoiando-se com dificuldade. O coração falhou mais uma vez. Os olhos se tornaram vidrados.

— Não… ainda… não… — murmurou, mas sua voz se apagou como vela ao vento.

O corpo desabou.

Inês a olhou em silêncio. Depois fechou os olhos, respeitosa, mas fria. — Foi corajosa. Mas inferior.

E assim, no coração da Yggdrasil, Nymira parou de respirar. O som do oceano suspenso se calou por um instante, como se até a árvore chorasse sua perda.

Ela morreu.