O sol de Hyperia caía em tons alaranjados quando o grupo atravessou a pequena praça. O povo ainda murmurava entre si, lançando olhares de admiração para Kaelvor, mas agora mais distante, com respeito silencioso. Ele sentia o peso de cada olhar, como se estivesse carregando um fardo que nunca pedira.

Foi então que ouviu uma voz grave, rouca, mas ainda firme:

— Então o pequeno Kaelvor voltou para Hyperia.

Kaelvor se virou na mesma hora, reconhecendo aquele timbre. Um homem idoso se aproximava, apoiado em um cajado de madeira torta. Seus cabelos eram longos e brancos, a barba desordenada, e o corpo arqueado denunciava a idade avançada. Mas seus olhos… ainda tinham o mesmo brilho de quando Kaelvor era apenas um garoto.

— Mestre… Baarto. — Kaelvor murmurou, com um misto de surpresa e reverência.

Tiberan, Soraja e Nymira observaram em silêncio. Ignara rosnou, mas Nymira a acalmou.

Kaelvor deu um passo à frente, prestes a se aproximar. Mas antes que pudesse dizer qualquer palavra, o velho ergueu o cajado e o acertou com força no ombro. Kaelvor foi lançado contra uma parede, gemendo de dor.

— Mas que diabos?! — Kaelvor se ergueu, furioso. — Eu quase morri por causa de Valetes, lutei contra Cavaleiros Sagrados, e o senhor me recebe assim?

Baarto apoiou-se no cajado, como se nada tivesse acontecido, e resmungou:

— Está mais forte. Mas ainda mole. O que acha, garoto? Que porque acendeu uma fênix de fogo já é um guerreiro feito?

Kaelvor cerrou os punhos, chamas surgindo em volta de suas mãos.

— Quer testar?

Soraja deu um passo à frente, tentando intervir.

— Ei, não é hora de brigar entre nós. Esse velho… quem é ele?

Baarto virou-se para ela, e por um instante o semblante carrancudo se suavizou.

— Eu sou Baarto, já servi ao exército de Hyperion quando o mundo ainda não era tão podre quanto é hoje. Fui mentor desse moleque aqui quando ele não sabia nem acender uma tocha.

Nymira arregalou os olhos.

— Você… treinou Kaelvor?

Kaelvor ainda esfregava o ombro dolorido, mas assentiu.

— Ele me ensinou os primeiros golpes. Sempre dizia que a força não vem só do cosmo ou da centelha, mas da disciplina. Eu não acreditei muito na época.

Baarto soltou uma risada rouca.

— E até hoje não acredita. É por isso que ainda precisa de umas porradas.

O grupo riu baixinho, mas Baarto logo ficou sério novamente. Olhou cada um nos olhos, um por um.

— Vocês enfrentaram Cavaleiros Sagrados. Sobreviveram a um Valete. Isso já seria suficiente para qualquer guerreiro se achar invencível. Mas se querem continuar… se querem chegar à Yggdrasil… terão de passar por mim primeiro.

Tiberan arqueou as sobrancelhas.

— Está dizendo que… vai nos treinar?

Baarto bateu o cajado contra o chão, e o som reverberou como um trovão.

— Isso mesmo.

Kaelvor cruzou os braços, cético.

— E que tipo de treinamento seria?

Baarto sorriu de canto, os olhos brilhando como se guardassem um segredo.

— O tipo que vai ensinar a vocês a derrotar não apenas cavaleiros… mas também Valetes.

O silêncio tomou conta do grupo. A palavra “Valete” ainda doía nos ouvidos. Todos lembraram-se do poder esmagador de Anorith, da sensação de impotência, da humilhação.

Baarto olhou para eles e completou:

— Amanhã, ao nascer do sol, começamos. E não pensem que vou pegar leve só porque são crianças com fogo nos olhos.

Ele se virou e começou a se afastar com passos lentos, apoiando-se no cajado. Mas, mesmo curvado e velho, havia uma aura ao redor dele. Uma presença que fazia cada palavra ecoar como ordem divina.

Kaelvor respirou fundo, ainda com o ombro doendo.

— É típico dele… sempre começando com um soco.

Nymira, sentada na beira da fonte da praça, suspirou com um sorriso cansado.

— Talvez seja disso que precisamos.

Tiberan olhou para o broto dourado em sua mão, que brilhou suavemente, como se concordasse.

— Então amanhã… começamos a nos preparar de verdade.

Soraja apertou os punhos, determinada.

— Eu não vou falhar. Não mais.

Ignara apenas rosnou, como se aprovasse.

E enquanto o sol se escondia no horizonte de Hyperia, o grupo percebeu que, pela primeira vez, não estavam apenas sobrevivendo. Estavam prestes a aprender.

Notas finais
Apesar de ter indiretamente criado Kaelvor, Baarto não o considera seu pai, mas sim um mentor. Kaelvor não morava com Baarto, era um adarilho. Baarto nunca o convenceu de ficar em casa.