Valerion - a Busca por Yggdrasil
26 O Último Chaveiro
Soraja respirava fundo, de frente para a porta pesada que acabara de invocar. Ela sabia que jamais conseguiria abri-la, mas ainda assim a criou. O coração batia forte. Desde que lera o livro em Valerah, sentia que algo estava para mudar.
Estava prestes a tentar mais uma vez quando um frio percorreu sua espinha.
Um vulto se desprendeu das sombras da biblioteca. Um homem encapuzado, alto, com passos silenciosos, aproximou-se sem pressa. Antes que Soraja reagisse, ele arrancou a chave de suas costas com uma facilidade absurda.
— N-não… — sua voz falhou. — Essa chave… ninguém nunca conseguiu tocá-la!
O homem ergueu a chave, observando-a sob a luz verdeada das tochas. Sua voz ecoou grave, carregada de ironia.
— Isso porque você não sabia o que ela realmente era.
Ele a inseriu na fechadura da porta pesada. Soraja ficou paralisada. Aquele objeto que carregara como fardo a vida inteira agora parecia cumprir um propósito que ela desconhecia.
Com um giro, a chave rodou. A porta, que sempre resistira, gemeu e se abriu. O chão tremeu, o ar se distorceu, e Soraja foi sugada para dentro, engolida pela escuridão.
Mas ela não foi a única.
Por todo o mundo, portas se abriram de repente: uma no coliseu em que Kaelvor e Ephiron duelavam, outra no túnel vivo onde Tiberan segurava o broto, outra na academia bélica onde Nymira lutava para manter sua farsa. Todas se abriram ao mesmo tempo, sugando os protagonistas.
Quando a luz cessou, estavam reunidos em uma arena sombria, o chão de pedra e o céu coberto por nuvens escuras. O homem encapuzado avançou, retirando o capuz. Seu rosto era jovem, mas marcado por cicatrizes profundas, como se tivesse sobrevivido a inúmeras batalhas. Os olhos carregavam uma frieza impossível de questionar.
Ele ergueu a chave, e sua voz foi firme:
— Eu sou Anorith, último da linhagem dos Chaveiros. Valete de Velaskian.
O silêncio caiu sobre todos.
Soraja deu um passo para trás, o rosto pálido.
— Um… Chaveiro… Eles… eles eram os únicos capazes de abrir os caminhos que nós Porteiros não podíamos.
Nymira se encolheu, mas falou firme.
— Valete… na hierarquia divina, não há nada acima dele além dos próprios deuses. Vocês não entendem… Cavaleiros Sagrados são como formigas perto de um Valete.
Ephiron, até então calado, apertou o punho da espada.
— Valete ou não, você não é meu mestre.
Anorith sorriu, mas não havia humor no gesto. Apenas superioridade.
— Vocês não têm noção do que enfrentam. Eu não apenas abro caminhos. Eu os controlo.
Ele girou a chave no ar. De repente, Kaelvor foi arremessado contra uma parede de pedra, o impacto arrancando sangue de sua boca. Tiberan foi teleportado no mesmo instante para o teto, caindo em queda livre. Nymira tentou criar um homúnculo de água, mas o ser líquido apareceu já esmagado contra o solo. Ignara foi puxada e lançada contra Soraja, ambas caindo em um estrondo.
Kaelvor cuspiu sangue, gritando de dor.
— Ele… nos usa como brinquedos!
Soraja se ergueu, desesperada.
— Ele pode mover qualquer um de nós… não somos donos dos nossos próprios corpos!
Anorith riu baixo.
— Exato. Vocês são peças, e eu sou o jogador.
Ele girava a chave lentamente, e a cada movimento, os corpos dos heróis se chocavam entre si. Kaelvor foi arremessado contra Ephiron, os dois rolando pelo chão. Tiberan tentou usar o broto, mas sua energia foi desviada contra Nymira, que caiu gritando. O grupo inteiro era manipulado como marionetes.
O desespero era palpável. Pela primeira vez, todos sentiram que não havia saída.
Ephiron se levantou, o corpo coberto de sombras.
— Chega. Não sou um fantoche.
Kaelvor, ofegante, ergueu-se ao lado dele, o peito em chamas.
— Então vamos juntos.
As sombras de Ephiron envolveram as chamas de Kaelvor. A arena tremeu com o rugido da Fênix Flamejante, suas asas douradas queimando até a escuridão. Anorith tentou girar a chave, mas a criatura de fogo rompeu a distorção espacial, avançando contra ele. Ao mesmo tempo, a lâmina sombria de Ephiron cortou o espaço.
O impacto foi devastador. Anorith foi arremessado, sua armadura estalando. Ele se ergueu com dificuldade, a expressão séria.
— Interessante… vocês não são apenas peças. São algo mais.
Antes que pudesse retaliar, Soraja, desesperada, ergueu as mãos e invocou uma das portas pesadas atrás dele.
— Essa… nunca abre…
Mas diante de seus olhos, a porta tremeu e se abriu sozinha. Uma força invisível sugou Anorith, que tentou resistir, fincando a chave no chão, mas foi tragado. O estrondo da porta se fechando ecoou como um trovão, deixando apenas o silêncio.
Todos ficaram imóveis, ofegantes, feridos.
Soraja caiu de joelhos, chorando.
— A chave… ele levou a chave…
Tiberan apertou o broto contra o peito.
— Então agora sabemos… estamos no radar dos Valetes.
Kaelvor olhou para as chamas em sua mão, o corpo ainda trêmulo.
— Que venham. Nem mesmo eles vão me impedir de queimar a Yggdrasil.
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