A luz dourada que brotava da porta envolveu a clareira inteira. O tempo pareceu parar, e o som do coração vivo da Yggdrasil tornou-se um tambor constante, como se anunciasse o despertar de uma memória adormecida. A cena diante deles se dissolveu em formas cintilantes, e pouco a pouco, o mundo que conheciam foi substituído por outro.

Não estavam mais na raiz da árvore. Não estavam mais no presente. Era como se estivessem suspensos entre o nada e o tudo, assistindo a um palco onde a verdade se desenrolava.

Soraja apertava a chave contra o peito, Nymira levava a mão ao braço, Tiberan observava em silêncio, e Kaelvor cerrava os punhos, já em brasas, mas preso ao espetáculo inevitável.

A Terra.

Um globo azul apareceu diante deles, belo, fértil, repleto de vida. Mas o que seguiram foram cenas rápidas e amargas: fábricas cuspindo fumaça sem cessar, cidades amontoadas de concreto, céus vermelhos pela poluição, mares cobertos de óleo. Guerras sucessivas, máquinas bélicas, homens caindo em massa. A voz da árvore — ou talvez da própria história — ecoava, serena, mas trágica:

"Eles tinham tudo. Mas consumiram além da medida. Até que seu lar, a Terra, não podia mais suportá-los."

O planeta tremeu, rachou, cobriu-se de cinzas. O ano de 3012 surgiu em números flamejantes, e a imagem de naves lançadas ao espaço rasgou o firmamento. Eram milhares, como estrelas errantes em fuga.

Uma delas brilhou em destaque: a nave Gaia.

No interior, vários sobreviventes da extinta Terra. Dentre eles, Hélen, a piloto de olhar duro, mãos firmes no controle. Yuri, o copiloto, olhos astutos e coração faminto pelo infinito. Samuel, o engenheiro, com cicatrizes de fogo nas mãos e espírito obstinado. Juan, o biólogo, carregando consigo cápsulas translúcidas com embriões humanos.

"Eles não buscavam glória. Apenas um futuro."

O espaço, porém, não os acolheu. Um buraco negro surgiu diante da Gaia, engolindo-a como fera insaciável. O grupo sentiu o impacto. Muitos morreram. Restaram apenas os quatro. E, contra todas as probabilidades, a nave foi cuspida para fora, lançada em um planeta novo e selvagem.

O novo lar.

As imagens mostraram Hélen tentando, em desespero, implantar em si os embriões. Mas nada vingava. Samuel construía abrigos toscos, enquanto Yuri estudava os céus, falando de mundos além. Juan, em contrapartida, explorava a flora, até encontrar uma árvore colossal, única em meio ao vale: o primeiro broto da Yggdrasil.

Ele a tocou. Sua seiva brilhava em dourado. E em um ato de desespero e genialidade, Juan mergulhou os embriões na seiva. Diante dos olhos dos Valerion, viram as cápsulas pulsarem, e as formas crescerem, moldando vida humana.

— Então era isso… — sussurrou Tiberan, a voz embargada. — Nós… viemos daqui.

As crianças nasciam diferentes. Seus olhos brilhavam com luz incomum, suas mãos produziam chamas, raízes, cristais de gelo, redemoinhos de vento. Eram humanos e algo mais.

"E assim nasceu o primeiro valerion."

As crianças-prodígio eram o sonho de recuperar tudo que a humanidade perdeu. Hélen ensinou a alguns a forjar ferramentas, domando terra e metal. Samuel mostrou o fogo, transformando-o em herança viva. Juan transmitiu a sabedoria da seiva, e deles brotaram os primeiros que falavam com as plantas. Yuri, porém, tomou para si a física do espaço e treinou discípulos capazes de abrir portais.

Tudo parecia harmonia. Até que a ganância brotou.

A guerra dos quatro.

Yuri, com seu exército de portadores de portais, ergueu a voz:

— Não basta este planeta. Devemos levar nossa semente a todos os mundos!

Hélen se opôs, firme, e Samuel incendiou os céus em resposta. Juan se desesperou ao ver a Yggdrasil ameaçada, e tentou detê-los. A batalha explodiu diante dos Valerion: labaredas consumiam os campos, portais rasgavam o horizonte, raízes erguiam muralhas, metais eram moldados em armas colossais.

O momento decisivo veio quando Samuel, em fúria, lançou fogo contra Yuri, mas as chamas tomaram também a árvore primordial. Juan gritou em desespero, tentando protegê-la. Hélen tombou sob a lâmina de um de seus próprios discípulos. A Yggdrasil queimou. E com ela, o sonho de um novo começo.

"No fim, só Yuri sobreviveu."

Arrependido, ele esculpiu na árvore os rostos dos outros três. Velaska. Hyperion. Phýton. Três humanos, imortalizados como deuses. Seu próprio nome foi apagado. Daí surgiu o mito de Demáscules, o deus exilado, o que não tinha rosto. Alguns perdidos do exército de "Demáscules" foram vistos, espalhando boatos de ser um "deus que se dividiu".

As imagens se distorceram. O planeta se fragmentava em nações, cada uma interpretando de maneira diferente a herança dos quatro. Armas, Sol, Vida. E um inimigo esquecido.

"E assim nasceu o mundo que vocês conhecem. Não de deuses, mas de homens, humanos comuns que deram origem a seres extraordinários. Os deuses não são eles, são vocês."

A visão terminou. A luz dourada da porta se apagou, deixando os Valerion de volta diante da Yggdrasil. O tronco parecia silencioso agora, como se tivesse contado tudo o que precisava.

Soraja estava em lágrimas, caída de joelhos, a chave escorregando de suas mãos.

— Então… é isso… eu… eu sou descendente… dos traidores…

Nymira tremia, olhando o braço agora translúcido.

— Tudo isso... tudo é uma mentira...

Tiberan fechava os olhos, sentindo o peso do broto pulsando em seu peito.

— Então o que protegemos… não é divindade… é a última raiz da humanidade.

Kaelvor explodiu em chamas, a raiva consumindo sua voz.

— Agora é hora. Vamos queimar essa maldita árvore.

O chão tremeu sob seus pés.

— Não irei deixar.

O herege e o guardião agora estavam frente a frente.