O silêncio que se seguiu à morte de Lyros foi esmagador.

Dona Maela caiu de joelhos, chorando. Korin gritou de raiva, mas foi puxado de volta por outro prisioneiro.

Kaelvor, com os punhos em chamas, encarava a mulher de armadura verde que limpava o sangue da lança como se tivesse acabado de esmagar um inseto.

— Sua luta terminou antes de começar — disse Selindra, a Amazona Sagrada. — Vocês são apenas ervas daninhas. E eu sou o veneno que limpa o jardim.

Kaelvor avançou. Não pensou, não planejou. Apenas correu, o corpo inteiro envolto em chamas.

Cada passo deixava marcas incandescentes no chão.

Selindra girou a lança com elegância.

— Insolente. — E a arma estalou no ar, liberando um sopro de fumaça roxa.

Kaelvor ignorou o veneno e lançou um soco direto, mas ela desviou com facilidade, o cabo da lança atingindo suas costelas.

O golpe o fez cuspir sangue.

Ele caiu de joelhos, lembrando-se de Tyr.

Lembrando da humilhação. Da dor. Da cicatriz que queimava até hoje em seu peito.

Por um instante, sentiu o mesmo peso: fraco, inferior, condenado.

Mas então, seu olhar caiu sobre Lyros, morto no chão.

Sobre Dona Maela chorando.

Sobre Korin tremendo de medo.

Algo dentro dele explodiu.

Não era só fogo.

Era um grito de fúria que vinha de dentro de sua alma.

Kaelvor ergueu os braços e, pela primeira vez, não apenas invocou fogo.

Ele moldou.

As chamas se concentraram em volta de seus punhos, formando o contorno de um pássaro em brasas — asas abertas, corpo incandescente.

O calor era insuportável. Até os guardas recuaram.

Falcão Flamejante! — rugiu, socando o ar.

O golpe lançou uma rajada em forma de ave de fogo, que avançou em linha reta contra Selindra.

O impacto a atingiu em cheio, empurrando-a contra a parede. Sua armadura foi chamuscada, a pele marcada por queimaduras.

Pela primeira vez, a Amazona mostrou surpresa.

Ela se ergueu lentamente, o rosto contraído em ódio.

— Um plebeu… ousando ferir-me? — Seus olhos brilharam de fúria. — Você assinou sua sentença de morte.

Selindra ergueu a lança, e desta vez não foi apenas fumaça.

Um jato de líquido verde escuro saiu da ponta da arma, espalhando-se como uma chuva venenosa.

Kaelvor tentou desviar, mas parte do veneno caiu sobre ele.

O efeito foi imediato.

Seus músculos tremeram, sua visão escureceu. O fogo ao redor de seus punhos apagou como uma vela em meio à tempestade.

Ele caiu de joelhos, depois ao chão, os olhos se fechando.

— Seu fogo é frágil — disse Selindra, friamente. — O veneno que lancei vai apodrecer seus órgãos por dentro. Em vinte e quatro horas, seu corpo não passará de cinzas podres.

Kaelvor tentou levantar a mão, mas não conseguiu.

Antes de perder os sentidos, viu o rosto de Tiberan.

O botânico não corria. Não fugia. Apenas encarava a Amazona, os olhos cheios de algo que Kaelvor nunca tinha visto nele: fúria.

E então, a escuridão o tomou.