Valerion - a Busca por Yggdrasil
19 As Portas de Soraja
O pomar parecia um refúgio.
Kaelvor devorava frutas como se não houvesse amanhã, Nymira finalmente respirava sem sentir o peso da dor recente, e até Tiberan relaxava, observando a vitalidade do lugar.
Mas Soraja não se contentava em apenas conversar.
— Se vocês realmente querem saber o que eu faço… então prestem atenção.
Ela se levantou, segurando firme a chave colossal nas costas. Os sinos das pequenas chaves tilintaram quando ela girou o braço no ar.
— Eu sou uma Porteira. E isso significa… que posso levar vocês a qualquer lugar.
Com um gesto largo, desenhou uma linha brilhante no vazio. O ar se partiu como vidro, e diante deles surgiu uma porta metálica, imensa, coberta de símbolos desconhecidos.
Soraja girou uma das chaves menores e empurrou.
A porta se abriu com um estrondo, revelando o interior de um vulcão em erupção.
O calor escapou, fazendo todos recuarem.
Kaelvor arregalou os olhos, animado.
— Isso é incrível!
Soraja riu, fechando-a com força.
— Calma, garoto. Nem sempre é tão impressionante.
Ela criou uma nova porta ao lado.
Dessa vez, quando abriu, revelou um jardim repleto de flores gigantes, onde borboletas de asas transparentes dançavam no ar. O cheiro doce atravessou o pomar.
Nymira levou a mão à boca, encantada.
— É lindo…
Soraja sorriu, satisfeita.
— Às vezes, dá nisso.
Então fez outro gesto, e uma porta pequena surgiu bem no chão.
Ela a abriu apenas por uma fresta.
De lá, jorrou água com violência, inundando parte do pomar. Soraja bateu a porta às pressas, rindo:
— Ops! Esse devia ser o fundo do mar.
Kaelvor gargalhou.
— Você é maluca! Isso é perfeito!
— Maluca nada — respondeu ela, orgulhosa. — É útil. Mas só quando coopera comigo.
O entusiasmo tomou conta do grupo.
Kaelvor não parava de rir, empolgado com cada porta.
— Soraja, você tem que vir com a gente! Com esse poder, chegaremos em Yggdrasil em pouco tempo!
Soraja hesitou, coçando a cabeça.
— Eu não sei… não controlo o destino delas. Mas… — ela ergueu os olhos, e havia uma chama de sonho ali — …se for para tentar abrir uma porta no tronco de Yggdrasil… talvez eu deva ir.
Nymira, ainda com ar frágil, sorriu.
— Você seria incrível conosco. Mesmo que não perceba, seus poderes são únicos.
Tiberan, por sua vez, observava em silêncio. Em sua mente, floresciam pensamentos: portas para o impossível, conexões entre mundos, raízes ocultas que podiam levar ao coração da Árvore.
Soraja não parou.
Ela criou uma porta minúscula na palma da mão.
De dentro, puxou uma maçã que havia guardado.
— Também posso usar como bolsos. Sempre cabe alguma coisa aqui.
Depois, ergueu uma porta gigantesca no meio do pomar.
Tentou empurrá-la, mas o metal não se movia.
— Essas são as pesadas. Nunca consegui abrir nenhuma. São inúteis.
Nymira balançou a cabeça.
— Não são inúteis. Podem servir de escudo em batalha.
Soraja a olhou surpresa, e depois caiu na gargalhada.
— Você é esperta, garotinha.
Todos riram juntos, o clima leve contrastando com as últimas tragédias.
Por um instante, parecia que o peso havia sumido.
Até Soraja abrir a próxima porta.
Era um arco de ferro simples, sem ornamentos.
Ela o girou distraída, sem imaginar o que encontraria.
Do outro lado, havia um salão imenso, envolto em sombras.
E no centro, ajoelhado, um Cavaleiro Sagrado.
Sua armadura estava coberta de trevas vivas, como se respirasse junto com ele.
O cavaleiro parecia rezar ou reverenciar algo oculto à frente… até que ergueu a cabeça.
Seus olhos brilharam como carvão incandescente.
Ele se ergueu com um movimento rápido, e assim que avistou os cinco, o salão inteiro tremeu.
Kaelvor sentiu um arrepio percorrer sua espinha.
— Droga…
O cavaleiro começou a correr na direção deles.
Tiberan gritou:
— Soraja! Feche isso! Ou crie outra porta, rápido!
Mas Soraja já estava em pânico, tentando erguer novas passagens.
— Ele está vindo! Corram!
O ar se encheu de trevas.
E o grupo percebeu que haviam caído em um lugar onde não deveriam estar.
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