Valerion - a Busca por Yggdrasil

65 A Árvore do Mundo em Chamas


O silêncio que seguiu o último golpe foi mais brutal que qualquer explosão. Tiberan jazia no chão, vencido, as raízes que invocara queimadas até a cinza. Seu corpo ainda respirava, mas mal conseguia erguer a cabeça. Kaelvor estava de pé sobre ele, arfando, o corpo inteiro tomado pelas chamas negras do Benu incandescente. Suas asas de fogo negro batiam como tempestade, espalhando brasas por todo o horizonte.

— Você… não pode… — Tiberan balbuciou, tentando se erguer. — Se queimar a Yggdrasil, não haverá retorno…

Kaelvor ergueu a mão incandescente, os olhos brilhando como sóis em fúria.

— Prefiro um mundo livre em cinzas a um mundo escravo de deuses que nunca existiram.

E desceu o golpe.

O impacto sacudiu a raiz colossal onde estavam. Uma esfera de fogo negro — o Círculo de Benu Absoluto — se projetou contra o tronco da Yggdrasil. O contato foi como o início de um apocalipse.

A madeira viva gritou, como se a própria árvore tivesse consciência da dor. Labaredas negras subiram em colunas, envolvendo tronco e raízes, enquanto rios de seiva dourada jorravam, espalhando-se como sangue de um deus ferido.

A Yggdrasil, mãe de toda a vida, estava queimando.

Nymira caiu de joelhos. Suas mãos tremeram, mas no meio das cinzas que choviam, notou uma gota diferente: uma lágrima de luz líquida, brilhando como esmeralda. Era a última seiva pura da árvore. Com esforço, estendeu as mãos, moldando um pequeno redemoinho de água que a recolheu. Guardou-a em um frasco de cristal improvisado, com os olhos marejados.

— Ainda há vida aqui… ainda há esperança…

Soraja recuou, a chave pesada nas costas, o olhar perdido.

— Ele… conseguiu. Ele fez o que prometeu.

Kaelvor cambaleou, exausto, mas ainda sorria. O clarão das chamas se refletia em seus olhos como um sol negro.

— Agora todos saberão… que não existem deuses.

E tombou de joelhos, quase inconsciente.

Longe dali, o clarão da árvore queimando iluminou o mundo inteiro.

Nos ermos de Phytonia, os antigos prisioneiros, libertos da prisão, olharam para o céu avermelhado. Um deles, com as mãos ainda marcadas pelas correntes, murmurou com reverência:

— O fogo chegou até os céus… ele realmente ousou desafiar os deuses.

Em Valerah, a cidade que retornara do nada, os cidadãos se reuniram nas praças, observando a coluna de chamas ao longe. Uma senhora idosa tremia, levando a mão ao coração.

— Se a árvore cai… será o fim… ou o começo?

Na floresta profunda, as raposas de fogo, antes libertas, ergueram os focinhos. Os olhos dos filhotes refletiam o clarão, e a mãe deles uivou em lamento, o som ecoando como despedida.

No campo de batalhas esquecidas, o cavaleiro Tyr, exilado e ferido, ergueu-se com dificuldade ao ver o horizonte arder. Uma lágrima escorreu pela cicatriz em seu rosto.

— Então era verdade… os deuses eram apenas cinzas.

Dentro da Yggdrasil, o fogo avançava rápido. As estátuas incrustadas no tronco — Velaska, Hyperion e Phýton — começaram a rachar. Primeiro fissuras finas, depois pedaços inteiros desmoronaram em estilhaços flamejantes. Cada fragmento que caía fazia ecoar um trovão, como se a história do mundo estivesse se despedaçando.

Tiberan, ainda caído, observava impotente. Suas mãos queimadas tentaram alcançar a raiz do sussurro, mas seu corpo não respondia.

— Eu falhei… — murmurou, lágrimas misturando-se à fuligem em seu rosto. — Não consegui proteger a árvore… nem meu irmão…

Nymira apertou sua mão.

Soraja ergueu o rosto para o céu vermelho. O clarão refletia na chave em suas costas, e por um instante, ela sentiu como se todas as portas do mundo se fechassem.

— A esperança… está se perdendo.

Kaelvor, mesmo exausto, mantinha os olhos fixos na árvore ardente. Cada fibra de seu ser dizia que havia cumprido o destino. Não um destino imposto pelos deuses, mas um escolhido por ele. E no meio do caos, ele sorriu, com o rosto iluminado pelas brasas.

A Yggdrasil tombava em chamas. O mundo inteiro testemunhava.

O rugido da árvore se espalhou como um trovão interminável. As raízes tremiam, rachando como muralhas, e o chão parecia engolir-se. Pouco a pouco, tudo virava cinzas,

Era o fim de uma era.

Nymira, segurando o frasco contra o peito, chorava. Tiberan cerrava os dentes, tentando resistir à dor. Soraja abraçava a chave, incapaz de decidir se aquilo era vitória ou tragédia.

E Kaelvor, mesmo tombando ao chão, murmurou, com um último sorriso:

— Agora… estamos livres.

Longe dali, em todas as cidades, vilarejos e florestas, o clarão era visto. Crianças choravam, velhos rezavam, soldados caíam de joelhos. Mas em cada olhar havia a mesma certeza: o mundo havia mudado para sempre.

Não havia mais deuses.

Só fogo.

E cinzas.