Valentino
36 Morte
Levei um susto quando acordei, alguém me puxava pelo braço, depois de ter uma longa luta com meu sono, abri os olhos. Era Romeo e Isabella. Os pequenos corriam ligeiramente sobre meu quarto, levantei-me com urgência.
— Por que vieram tão cedo meus amores? Algo de ruim aconteceu? — Fitei-os.
— Papai disse algo sobre vovô Alexandre ir pro céu. — Disse Isabella suavemente. — Podemos brincar com Enzo, mamãe?
— Claro, crianças. Por que não vão correndo? Depois encontro-as. — Os gêmeos desapareceram no imenso corredor.
Corri pela casa procurando Bartolomeo, e quando finalmente o achei, estava lendo uma carta com o emblema de Cesare Borgia presente. Ele passava a mão pela testa e colocava o polegar em seu queixo. Quando percebeu que eu estava o observando, fingiu sorrir e disse-me com pesar na voz:
— Sinto muito, meu amor. Os gêmeos tiveram que vir o mais rápido possível, Cesare está correndo risco de morte, e certamente vossa senhoria e suas proles também. O duque Valentino recomendou-me para que mandasse as crianças para um lar católico sob nomes falsos... — Ele parou, pensativo. — Vossa senhoria deve estar preocupada sobre isso, mas posso assegurar-lhe que é o melhor que podemos fazer. Já providenciei os documentos de Bella e Romeo, serão pertencentes á família Sforza, sob tutela de Ana Sforza, minha querida amiga que prometeu cuidar deles como se fossem filhos, isso é percebido porque deste não somente sua afeição, assim como seu sobrenome.
— Como assim? O papa morre e nós viramos o alvo principal? — Lembrei-me sobre a conversa que tinha tido com meu pai anos antes, sempre lembrava-me que a família Borgia colecionava inimigos, assim como mortes. Isso os tornaria vulneráveis quando acabasse seu poder de influência sobre Roma, e isso significaria a morte de Rodrigo Borgia, o atual papa. Qual a melhor forma de derrotar um homem? Acabe com tudo o que ele ama. Coloquei a mão sob minha boca, horrorizada, pensando no que poderia acontecer com Cesare e com meus filhos, apenas concordei com a cabeça e continuei. — Prossiga.
— Olha, Giorgia, nossa família é muito influente, mas não posso proteger aqueles que não são meus, e isso inclui Bella e Romeo, mas este pequeno que pousa sob sua barriga é de minha total responsabilidade. Vossa senhoria sabe que o que eu mais quero é o bem de suas crianças. — Bartolomeo abaixou a cabeça e entregou-me a nova certidão de meus filhos, coloquei-a numa dobradura de meu vestido para que depois o lesse. — Mesmo que isso signifique ver vossa senhoria sofrer diante essa terrível e lamentável situação. Eles vão amanhã quando o sino da igreja tocar. Não se preocupe, o lar católico fica na França, e ninguém sabe sobre a existência deles.
— E-E-Eu preciso pensar. Meus filhos... — A empregada de nossa casa veio e disse-nos que tinha alguém me chamando para uma conversa particular. Segui-a até uma sala privada que tínhamos em nosso castelo, e lá estava, o duque Valentino. A empregada nos deixou sozinhos e fechou a porta com delicadeza.
— E-Eu não consigo acreditar! — Corri ao seu encontro e o abracei-o, cravando minhas unhas em seu colete preto na tentativa de nunca separar deste. — Em um minuto Vossa Graça é o homem mais influente de Roma e no outro é ameaçado de morte... Eu não consigo acreditar.
Cesare Borgia se desfez do abraço e enxugou uma lágrima que saía de meu rosto. Ele sorriu e beijou minha testa. Ainda tinha cheiro de avelã, e no fundo sentia que era o mesmo Cesare Borgia do qual eu tinha me apaixonado.
— As crianças precisam se esconder, Dannata, vossa senhoria precisa se esconder! Não aguentaria ve-los partir de maneira tão infortúnua e trágica. Eu sei que minha morte é certa, mas deixei alguns espiões para proteger minhas crianças das quais eu amo tanto. Charlotte e Luisa nem querem ter notícias minhas, sinto que minha morte para elas são um alívio... Agora meu pai está morto, Dannata. — Sua mão passou pelo meu rosto novamente. — Meu amor, não chores! Seu futuro vai ser lindo e majestoso, como tu mereces. Eu só estou colhendo o que plantei... Dor. Tu mereces essa criança que está a vir, assim como seu honríssimo marido. Mas, em momento algum pensei que poderia merecer-te.
— Isso está soando como uma despedida... Eu não quero que o seja. Vossa graça sabe o quanto já sofri nesta vida e ainda quer que sofra mais? Para que, Cesare? Pode se viver com dignidade mas não pode morrer com ela! Nós te protegemos, Cesare, tu não precisas morrer de forma tão injusta!
— Injusta? Injusta com quem, Dannata? Eu não fui um homem bom... Nem ao menos tentei ser. — Rodeou seus braços sobre minha pessoa. — Tu bem sabes o que é melhor para nós. Os momentos que passaste com vossa senhoria foram os melhores de minha vida, Romeo e Bella estão ai para provar-te isto! Mas agora, chegou minha hora.
— Por favor, não! Eu já vou perder meus filhos, não me faça perder-te também. Eu sempre admirei-o, sempre amei-o em segredo... Tu bem sabes da minha vontade de virar uma Borgia, mas agora, parece que tudo isso não passara de uma mera ilusão de minha cabeça. — Encarei-o, o duque estava com os olhos vermelhos de tanto chorar e seu cabelo cacheado estava para trás. — Cesare, fique...
— Eu também a amo, meu amor. — Cesare Borgia deu-me um beijo e saiu conformado de sua morte.
Encolhi-me no chão e chorei. A maldição que estava em meus filhos agora tinha rodeado-me, e praguejando o meu filho que estava por vir. O papa morrera, Cesare logo estaria junto á seu pai... Mas, e quanto aos meus filhos? Teria de mandar-los para França o mais rápido possível. Peguei a certidão e admirei, pensando em como se tornariam lindos e prósperos.
Atesto que, Maria Isabella Sforza e Cesare Romeo Sforza são gêmeos pertencentes a minha família, Sforza. Também digo-lhes, que serão encaminhados á França, no objetivo de tornarem-se pregadores da palavra de Deus. Registro aqui, minha tutela sob tais gloriosas crianças. Que Deus nos abençoe.
;;;; Ana Galeazo Rodriga Sforza, Duquesa de Milão
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