Valentino
13 Compleanno - l
Apertei aquela carta em meu peito, as palavras estariam guardadas para sempre em meu coração. Fechando os olhos, me lembrei de como era a infância em Florença: todo mundo conhecia todo mundo, mas o que valia mais do que seu caráter era seu sobrenome, de que linhagem você vinha. Pude sentir também o cheiro das rosas que incendiavam meu quarto com seu perfume. Ah, que saudade que eu tinha de casa!
Quando me lembro de minha cidade natal, um sobrenome vem a minha cabeça: Médici. A casa dos Médici era conhecida por toda a Europa, principalmente por seu poder político e por sua exuberância. Eles não gostavam de papai, nem um pouco. Nunca entendi o por quê disso, o real motivo por isso, nunca perguntei e também papai nunca quis me falar nada sobre o assunto.
Agora, com a crise que toda a Roma estava enfrentando — com as previsões do apocalipse feitas pelo santo padre (ou demônio, como era descrito pelos Borgia) Girolamo Savonarola — o poder papal estava dividido. Savonarola quer que todos queimem seus bens mais preciosos, assim como suas riquezas. O santo padre não quer que ninguém tenha a alma corrompida por poder, dinheiro, ou até mesmo os sete pecados capitais.
Declarado inimigo publicamente dos Borgia, Savonarola estava disposto a tirar o papa corrupto do poder, mas conhecendo essa família, eles não vão deixar. Vão calar sua boca antes que ele possa espalhar as verdades — e também algumas mentiras — sobre o papa Alexandre VI, e como Micheletto era fiel a Cesare, tinha minhas dúvidas se ele mesmo não iria fazer o trabalho sujo. Que Deus tenha misericórdia de sua alma!
Cansada de pensar em que fim minha vida tomaria, abri os olhos pronta pra encarar a dura realidade. Pisquei, cansada, e então guardei a carta em uma das gavetas de meu guarda-roupa e deitei-me na cama. Eu tinha de descansar, eu precisava disso. Afinal, amanhã era o meu dia.
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Acordei com alguém me cutucando, e senti muito incômodo por isso. Hoje era o meu dia, era o dia de eu finalmente poder descansar e sonhar um pouco, certo? Errado! Aqui era a residência dos Borgia, e quem não os seguia, tinha sua cabeça degolada mais rápido de que poderia pensar em gritar, pedir socorro. Antes de abrir os olhos, passei minha mão em volta de meu pescoço, rogando silenciosamente contra alguém que um dia, pensou que poderia cortá-la como uma carne suína.
Abri meus olhos lentamente, aproveitando cada segundo daquele dia. Era Aurora Borgia que vinha me importunar, mas quando eu encarei-a, percebi que ela sentia muito por ter me acordado, e também lembrei que assim como eu, ela também seguia as ordens dos Borgia.
– Desculpe pela intromissão, mas — Ela logo foi se desculpando, sentei-me na cama rapidamente e dei os ombros.
– Não precisa se desculpar, Aurora. Sei que segue as ordens de Lucrezia. — Aurora rapidamente assentiu com a cabeça. — Sei como essa família pode ser exigente e traiçoeira ao mesmo tempo. Que horas são? Por que me acordar de madrugada?
– Dannata, não é madrugada. Já são oito horas da manhã. — Ela me alertou. — Seu pai estará aqui daqui a uma hora.
– E você só veio me dizer isso agora? — Me levantei o mais rápido que pude, tirando o meu vestido na mesma velocidade da minha respiração. — Por que não me acordou mais cedo?
– Eu queria, mas meu primo, Cesare, não deixou. Peço desculpas.
– Você não recebe ordens dele, Aurora. Você recebe ordens apenas de minha pessoa e de Lucrezia! Não dê ouvidos ao seu primo, ele não sabe de nada. — Estava com uma camisola fina, quase que transparente. Passei meus dedos entre meus vestidos, pensando no qual eu vestiria para comemorar minha chegada ao mundo.
– Cesare estava com você aqui no quarto de manhã, Dannata. Ele não queria que ninguém o atrapalhasse, e deixou claro isso. — Aurora trouxe-me um vestido verde esmeralda, seu brilho cintilava de longe. Eu dei um sorriso de canto.
– De onde achou este vestido belíssimo? — Sorri pra ela, ela me devolveu o sorriso.
– Eu comprei hoje cedo. Não sabia o que uma Machiavelli gostaria de usar, então pedi ajuda a Cesare, ele me disse que você iria adorar, mas que o brilho do vestido nem se compara ao brilho de sua alma. — Aquilo me causou arrepios. Aurora me entregou o vestido, para que eu pudesse vê-lo mais de perto.
– E você acha que quais são as intenções de seu primo? Boas ou ruins? — Perguntei, analisando o vestido.
– Não sei ao certo, Dannata. Mas eu garanto que nobres intenções não são. Cesare nunca foi do tipo cavalheiro, sabe? As mulheres se apaixonam pelo inalcansável, por Cesare. — Aurora deu uma pausa, como se estivesse pensando em como acabar com a conversa. — Mas isso nunca impediu Cesare de levá-las pra cama. Se me permite, gostaria de lhe dar um conselho. Um aviso.
– Pois bem, diga. — Me forcei a olhar para o vestido.
– Não se apaixone por Cesare. Ele só quer brincar com suas emoções como um gato brinca com seu rato antes de finalmente, poder devorá-lo. Cesare não lhe trará nada além de dor e desespero. — Eu a fitei, com os olhos banhados em lágrimas. Mas não poderia chorar agora; se tinha uma coisa que meu pai sempre me falava era que a verdade dói, perfurava meu peito como uma serra, mas, mesmo assim, era melhor do que a ilusão acompanhada com a mentira.
– É uma pena que você me deu esse conselho, digo, aviso, tarde de mais. Já foi feito, Aurora. Não tem como se desfazer de minhas emoções. — Ela colocou a mão em meu ombro, na tentativa de me confortar. — Mas não se preocupe, eu vou superar. Prometo.
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Por sorte, Aurora era habilidosa quando se tratava de me ajudar a colocar vestido e arrumar meu enorme cabelo embaraçado. Ela os desembaraçou com cuidado, e disse-me que era melhor eu os deixar solto, porque assim, segundo ela, eu parecia a deusa pagã Aphrodite, a deusa do amor.
Desci as escadas lentamente, e quando cheguei na sala de jantar, todos pararam a refeição para bater palmas e cantar. Trataram de botar um sorriso no rosto para me saudar, e mesmo que os sorrisos fossem falsos, me sentia parte da família, quase que uma Borgia. Mas em meio a aqueles rostos que eu estava acostumada ver, um rosto me chamou a atenção e sorri ao lembrar de suas lições de moral escritas especialmente para mim. Corri e me atirei em seus braços.
– Papai! Que saudade! — Eu senti cheiro de cravo em sua roupa e o apertei.
– Estão a tratando bem, filha?
– Sim, claro que sim! — Menti.
– Que bom, fico feliz! — Ele me soltou e eu pude ver os olhos de todos na mesa; estavam tão emocionados como eu. — Mas há alguém aqui que quer te ver.
– Quem?
Cecília Sforza apareceu atrás de Cesare, seus cabelos estavam presos num coque e sua barriga estava começando a ganhar forma. Eu estava tão feliz pela presença deles que minhas bochechas estavam começando a doer por meu enorme sorriso.
– Cecíliaaaaaaaaaaaaaa! — Me joguei em seus braços.
– Que saudade, Giorgia! — Ela me apertou para mais perto de si. E sussurrou para que só eu pudesse ouvir. — Saiba que eu, Nicolau e Bernardo sentimos sua falta. E que a amamos muito!
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