Nunca pensei que meu casamento pudesse ser tão tedioso quanto fora. Os convidados exibiam um sorriso falso, desejando-nos felicidades, mas eu sabia, que o que mais queriam eram riquezas e poder ao lado do grão-duque de Toscana. Percebi vários olhares pecaminosos vindo á minha direção, e quando virei-me para ver de quem era os olhos; e assustei-me. Devo ter arregalado meus olhos, pois Bartolomeo virou-se para encarar-me.

— Meu amor, o que á assombras? — Tinha uma ruga em sua testa, demonstrando preocupação. Virei-me para encarar-lhe, e fingi um sorriso.

— Marido, quem é aquele homem dos olhos verdes como grama e cabelo cor de mel que estais a olhar-nos? — Apontei com a cabeça para que pudesse visualizar melhor. Bartolomeo sabia de quem eu estava falando.

— Por que, Vossa Graça? O que ele lhe fez? Estás a lhe chamar atenção da qual Vossa Graça e vossa Santa Igreja julgam inadequadas para uma mulher casada e para uma duquesa? — Neguei com a cabeça. — Seu nome é Vittorio Ciro, meu condottieri. Por vossa senhoria, coloco minhas duas mãos no fogo.

— Cuidado para não se queimar com isso. — Disse discretamente. Vittorio Ciro caminhava em nossa direção com os passos pesados e rápidos.

Vossa senhoria estava com as roupas leves, com os tecidos mais caros de toda a Europa acompanhado por várias correntes de ouro acompanhada com pedras preciosas e novos metais do Novo Mundo. Vittorio Ciro esboçou um sorriso, ficou de joelhos por um segundo e encarou meu marido. Disfarçadamente, estudou-me começando pela barra do vestido e terminando em meus olhos. Senti-me envergonhada por um momento.

— Vittorio! O que devo a honra de vossa majestosa e alegrosa presença! — Bartolomeo sorriu, e fingi um sorriso. — Espero que as moças estejam-o agradando tanto quanto a duquesa me agrada.

— Vossa Graça. — Vittorio ficou sem graça, mas tornou a sorrir. — Não quero o decepcionar, mas nenhuma dessas moças estais a me alegrar tanto quanto a beleza de sua excelentíssima duquesa. — Suas mãos macias seguraram minha mão, e em seguida a beijou delicadamente. — Fico honrado em conhecer a única herdeira viva de nada menos que Nicolau Machiavelli! Saiba que eu sou fã de vosso trabalho e vossa dedicação que ele tem para a sociedade.

— Fico lisonjeada com os efeitos que os trabalhos de meu pai tem sobre a população local, eu falarei para vosso senhor sobre o que falam a respeito dele e não deixei de citar vossa senhoria, senhor Ciro. Então... Senhor, vossa senhoria estais a trabalhar muito tempo com meu marido? — Bartolomeo piscava de sono; estava embriagado pelo vinho que tomara antes da cerimônia.

— Hummmmm... — Resmungou ele enquanto pensava. — Talvez tenha trabalhado com Vossa Graça á mais de cinco verões. Eu e vossa senhoria éramos muito amigos, até que ele foi-se então com o maldito do Pedro Luís Anjou. — Vittorio arregalou os olhos verdes. — Óh, minha senhora! Peço para que me perdoe imensamente pelo o que eu acabara de soltar pelos ares, só agora fui recordar-me que eras noiva daquele monstro.

— Tudo bem, nunca gostei dele, se isso o alegra. — Trocamos sorrisos.

— Vossa Graça, tu permitiria a honra de levar vossa graciosa esposa para dançar comigo enquanto és jovem e desfruta da mais rara beleza? — Bartolomeo concordou com a cabeça, ainda meio sonolento. — E Vossa Graça, o que me diz?

Permiti-me a soltar um longo sorriso, e levantei-me em direção ao moço. Várias palmas foram soltas, vários gritos também, até que os músicos começaram a rifar os tambores e a tocar em harmonia com o violino e flautas. Vittorio fazia com que eu me sentisse nas nuvens, permitindo-me dançar como quisesse, com toda a delicadeza do mundo.

— Vossa Graça não estais a achar que és mui bela para vosso marido? — Eu podia ouvir a respiração de Ciro, enquanto ele apertava minha mão de forma carinhosa. — Quer dizer, estais a merecer alguém melhor. Eu sei disso.

— E como estais a saber disso? És um anjo camuflado de homem que o Senhor Todo Poderoso mandou para salvar-me da perdição e livrar-me dos sete pecados capitais? — Soltei um riso debochado. — Meu marido és tudo o que o mundo tem de melhor para oferecer-me, senhor, disso, nem o senhor poderá discordar; ao menos, é claro, que falte-lhe juízo algum em essa sua cabecinha imatura.

— Nunca pensei que fosses mais bruta do que um homem, Vossa Graça. Peço perdão se de alguma forma, a ofendi descaradamente. — Ele chegou mais perto de mim. — Afinal, que culpa eu tenho se Deus á criou semelhante á perfeição? Meus olhos a captaram desde a igreja até neste momento, Vossa Graça. Fico honrado que tenha aceitado meu convite para dançar com minha pessoa. Mas vim falar-te uma proposta, e para isso, eu queria que fosse bem longe de Bartolomeo, ou ele vai me excomungar da Europa!

— O que estais a me falar soas tão sério assim? — Disse, desconfiada. — Pois bem, meu caro, pode falar-me o que estais a rodiar vossa cabeça.

— A proposta que estou a propor-lhe irá parecer um tanto quanto indecente, estais adapta para ouvir-lhe? — Eu confirmei com a cabeça. — Eu quero que convença Bartolomeo á fazer sexo comigo. É uma coisa um tanto quanto simples, mas falada em maus ouvidos, pode custar-me a vida.

— O quê? — Bufei. — Vosso senhor não estais envergonhado do que acabara de pedir-me? Bartolomeo Medici é somente meu marido, e eu o pertenço. Não aceitaria isso de maneira alguma.

— Não é isso o que eu ouço por aí, minha cara. Soube que estais a esperar um filho de ninguém menos que Cesare Borgia, a grande piada de Roma! E ainda quer que eu acredite que vossa senhoria estais a comprometer-se somente com meu amado? Diga-se de passagem! — Ele apertou-me com mais intensidade. — Se vossa senhoria não conseguir com que eu durma com Bartolomeo, então, sinto-lhe informar, mas tu também não conseguirás. Farei com que isso seja impossível, estais a ouvir-me? Eu juro por minha vida e por minha honra em cima desta terra abençoada por Deus!