No caminho de volta para Roma, Cesare Borgia acompanhou-me durante todo o trajeto. Me olhava como se fosse um animal, pronto para perseguir-me. Os cavalariços, á essa altura, não paravam de rir e se distrair com pequenas coisas na estrada, como cortesãs á espera de um homem, á espera de alguns ducados para que não passe a noite sem comer nada. Peguei-me pensando nas pobres senhoras que viam-se obrigadas a tornar-se mundana para conseguir alimentar-se, ou até mesmo, dar sustento aos seus filhos, á sua família.

Cesare encarou-me, e deu um sorriso mesquinho.

— No que estais a pensar, Dannata? Alguma coisa de que eu deva saber?

— Não estou pensando em nada, vossa graça. Peço perdão se eu lhe desconcentrei de algo. — Franzi os lábios. — Estava refletindo... Sobre a vida.

— E ela está sendo gentil com vossa senhoria?

— Parei meus estudos, a arte não me fascina mais... De outro lado, ela me trouxe vossa senhoria, tirou-me, sem piedade nenhuma, Anjou. Não tenho palavras para descrever o quão surpresa estou. Realmente, vossa graça, não esperava isso.

— Que bom, Dannata! Bartolomeo mandou eu lhe entregar algo.. Parece que é uma carta de seu pai com a autorização do matrimônio, não fiz questão de entender o que o velho tirano dizia. De qualquer forma, é para vossa senhoria. — Cesare Borgia tirou de seu bolso um envelope, e eu reconheci a letra de meu pai. — Espero que eu tenha a ajudado de algum modo.

— Agradeço-o imensamente, vossa graça! Agora, se não se importa, vou ler a carta. — Ele deu os ombros e eu abri o envelope no mesmo momento.

Minha querida e amada filha,

Começo a carta com um pesar em meu coração, já que a notícia que Pedro Luís Anjou falecera correra por toda a Itália o mais rápido que pudesse imaginar. Recordo-me que vossa senhoria não ganhou nada com a morte de seu noivo, soube também que seus filhos ficaram com toda a fortuna do falecido, e por isso, desculpo-me com vossa senhoria; Mas alegro-me, já que não casou com ele, imagine, pequena Giorgia, se ele tivesse morrido enquanto eram marido e mulher, essas horas, tu certamente ocuparias o cargo de cortesã.

É com lágrimas nos olhos que também lhe informo, que, ontem, por volta da quinta hora, Cecília Sforza e Bernardo Machiavelli foram assassinados. E, agora, pergunto-me, o que eu fiz para que Deus desse-me tamanha desgraça? Primeiro, sua mãe, e depois... Rogo a Deus que tenha piedade de suas almas, minha filha. Sinto que Ele não gosta de mim, e isso me transformará, não muito longe, um homem morto.

Sinto-lhe por trazer grandes decepções numa carta só, mas não achei modo melhor para informar-te.

Hoje, um homem chamado Bartolomeo Benedetto veio pedir tua mão, desconfiei á princípio, mas conversamos e vi que ele tem um amor pela vossa pessoa. Temo que algo de ruim aconteça com esse senhor, a Morte estais a rondar nossa família, e a mesma, faz questão de levar consigo quem mais amamos.

Desculpe por ser direto, mas... Tu viraste amante de Cesare Borgia? Se sim, fico imensamente feliz! Pois assim, teus filhos serão providos da beleza e da inteligência — pelo menos da parte da família MACHIAVELLI. Contaram-me esses dias que passaram-se, e não pude esconder a minha felicidade.

Espero que seja capaz de gerar bons frutos dessa relação; e quando o fizer, mande-me uma carta.

Em meio á tantas emoções, despeço-me de tu, minha filha, e peço para que faça o que á deixas feliz; independente do que os outros possam — e vão falar.

Eu a amo muito, assim como Cecília e o pequeno Bernardo á amavam.

Abraços,

— Nicolau B. Machiavelli.

Os olhos de Cesare estavam pregados em meu rosto, e foi assim que deixei com que uma lágrima caísse de meus olhos, paralisada pelo o que eu acabara de ler. Com as mãos trêmulas, as palavras escritas tornavam-se borrões á minha vista, e senti-me desconsolada, pois aquelas pessoas que morreram, só elas, ensinaram-me o verdadeiro significado da palavra que mais estava na moda na época, Amor; muitos usavam, mas poucos já experimentaram o seu aroma.

— O que houve, dama? Quer que eu mande parar a carruagem? — Cesare colocou a mão em meu ombro e mostrou-se preocupado. Lágrimas brotavam de meu rosto e escondi a carta em meu vestido, impedindo que a visse. — Giorgia, fale-me, o que a deixou assim?

— A morte persegue-me á tempos, Cesare.

— Quem? Quem? — Perguntava ele referindo-se á quem tinha morrido recentemente. Deitei minha cabeça em seu ombro, e suspirei.

— Cecília Sforza e meu irmão, Bernardo. Também descubro que estou noiva! Noiva! — Coloquei minhas mãos em meu rosto. — Perdoe-me por isso, vossa graça, tu não tens nada com a minha vida.

— Não, é aí que enganas! Tu geras as proles mais perfeitas que toda a Roma já vieste, e com elas, tornara-se rica até o dia de minha morte. Fico feliz que tenha arrumado um noivo, assim como eu, terás que falar á ele um monte de bobagens, incluindo que o ama. — Cesare Borgia colocou a mão em minha cabeça, fazendo carinho. — Eu tenho tudo a ver com tua vida, Dannata.

— Papai disse de vossa graça na carta também, que está imensamente feliz com nosso... Caso. E que espera que tenhamos filhos logo. — Cesare parou, pensativo. — Espero que não seja um problema.

— Não, não é! Conhecer-te fora uma das melhores coisas que a vida já me dera. — Ele deu um beijo em minha testa. — Eu tenho um grande afeto por você, Dannata, e não duvides quando falo isso! Tornou-se especial nesse meio tempo...

— Grande afeto?

— Sim, Dannata. Eu a amo mais do que minha própria vida. — Eu sorri por nós dois.