Valentino
20 Amanti
— Aposto que sim, mylady. — Cesare falou com um ar sínico, o ignorei e voltei a tomar o vinho espanhol.
Deixei com que o líquido vermelho descesse goela a baixo, aproveitando cada segundo do sabor. Brindei silenciosamente á Luís de Aragão, pensando que um dia me fizesse duquesa, Vossa Alteza. O efeito do vinho subiu rapidamente; Todos falavam rápido demais, deixando-me um tanto conturbada com meus pensamentos — bagunçados e confusos o bastante para que eu quisesse ir embora.
Reuni forças para levantar-me, porém, fora em vão. Me sentia tonta, tudo rodava, e eu não conseguia parar de pensar em outra coisa se não vomitar.
— Você está bem? — Vossa Santidade (antes Rodrigo Borgia, o patriarca) perguntou-me com preocupação em seus olhos castanhos.
— Nunca estive tão bem em toda a minha vida! — Resmunguei.
— Não tente entender a loucura, ou se tornarás louca. — Cesare disse, dando apoio para que eu levantasse. — Vamos, eu te levo. Vossa senhoria precisa dormir.
— Não! Quem é que disse tamanha loucura? O louco daqui é vossa senhoria, duque Valentino. — Olhei para ele. — A única coisa de que preciso é de mais vinho.
— Dannata, vamos. Não me faça ser rude. — Cesare apertou meu braço com tamanha intensidade. — Vais por bem, ou por mal. Tu escolhes.
— Eu já disse, e repetirei, mas peço para que ouças com atenção, não irei ir embora. Não me importas se tudo isso é efeito da bebida, pois só assim eu sou realmente feliz. — Bufei. — Não sabeis que não sois mais uma menina?
Sem avisos prévios, Cesare colocou-me em seus braços de um jeito selvagem, se aplicasse mais um pouco de força, certamente me machucaria.
— Não! Me solta! Socorro! — Ia gritando cada vez mais que o duque avançava em sua breve jornada. Senti lágrimas escorrerem pelos meus olhos quando estávamos indo para o quarto.
— O que eu te fiz para tamanha desavença? Eu que deverias estar lhe maltratando, tu, Valentino, só me fazeis sofrer.
Cesare Borgia continuou andando, potente, sem se deixar abalar por meus comentários. Com o passar do tempo, desisti de gritar, visto que não ia dar em nada. Ele colocou-me delicadamente em minha cama, e finalmente pude fechar meus olhos e pensar em coisas boas. Comecei a rir, já que tinha lembrado de quando tirei minha primeira nota reprovada na faculdade, e Nicolau Machiavelli contratara o pior professor desde então.
— Está rindo de que? — Senti que Cesare estava do meu lado, me encarando como se eu fosse uma estátua grega.
— De nada. — Continuei a rir.
— Essa curiosidade está me matando, diga, de que estais rindo? — Abri os olhos, e vi que estava sorrindo para mim. Um sorriso verdadeiro, do qual eu duvidava que muitos o vissem.
— Já disse, de nada. — Cesare colocou o seu corpo contra o meu e foi chegando mais perto de beijar-me. — Por qual motivo estais a fazer isso?
— Somos amantes. É o que os amantes fazem. — Ele colocou as mãos em meus cabelos, massageando-os. — Giorgia, eu gosto de você.
— Eu também gosto de você. — Disse, ofegante. — Mas não é o jeito certo de fazer, e-eu não irei lembrar disso e... — Ele colocou o polegar em minha boca.
— Eu farei com que a noite seja tão boa á ponto de tornar-se inesquecível.
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Antes de abrir os olhos, já sentia uma forte dor de cabeça e na região pélvica. Não me lembrava de nada da noite anterior, e torcia para que não tivesse feito coisas da qual não me orgulharia. Levantei e deparei com uma poça de sangue em minha cama, assustada, andei de um lado pro outro, tentando lembrar do ocorrido.
Sem sucesso, pensei em meu período menstrual, mas concluí que não seria possível, já que tinha acabado semana anterior. Do lado da cama, tinha um bilhete com as iniciais de Cesare. A dor de cabeça piorou rapidamente quando concluí a carta.
Meu amor, Tu tens gosto de mel. Sinto que fomos criados para satisfazer-mos, amar-mos. Creio que não lembrarás da metade do ocorrido, e por isso, peço para que vá no jardim. Estarei lá durante toda a tarde.
Gostaria de mais noites como essa, pois a sensação de te ter ao meu lado é... Bem, deixe-me pensar um pouco. Confesso que faltam-me palavras, a noite foi mais do que maravilhosa, era perfeita. Todo mundo deveria ter uma Dannata para si. Sem sombra de dúvidas, o mundo seria mais feliz.
Peço perdão pela maneira de como foi escrita esta carta, mas era a única forma de contar-te toda a verdade. Ainda assim, ressalto que te amo hoje e por todo o resto da minha vida medíocre.
Com amor,
Duque Valentino, seu amado e somente seu, Cesare Borgia.
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Corri para o jardim, para a minha sorte, vi Cesare Borgia sentado, pensativo. Fui ao seu encontro, e instantaneamente seus olhos brilharam.
— Meu amor! Como ficais linda com este vestido azul, ele ressalta a cor de seus olhos. — Dei-lhe um tapa.
— Amor? Você me embriaga e me usa como se eu fosse um nada? Como se eu fosse uma mundana? — Abaixei a cabeça e suspirei. — Não acredito que tenha feito tamanha besteira.
— Sim, mylady, você fez. E ainda pedia por mais! Realmente, você é diferente de todas as mulheres com quem já tive relações. — Cesare esbanjou um sorriso esnobe. — Luís de Aragão não a aguentará.
— Como tu sabes?
— Você é minha, não dele.
— O quê?
— Não se lembra? Esta no contrato. — Cesare deu um beijo em meu rosto. Quando quiser alguma coisa, sabe onde me procurar. Fico feliz que tenha lido minha carta.
— Palavras são coisas de poetas, não de comandantes militares, e muito menos de algum filho bastardo do Papa.
Virei-me de costas e só assim pude ouvir as reclamações que o italiano gritava, enfurecido. Orgulhei-me de mim mesma, por ter conseguido tamanha coragem para enfrentá-lo. De agora em diante, prometi á mim mesma, que, assim como eu, as coisas tornariam-se diferentes — principalmente para a família de canalhas, mas conhecida como Borgia.
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