Valentina

10 Capítulo 9


O tempo havia passado tão rápido que quando Valentina deu por si encontrava-se montada em seu garanhão tendo Guilhermo e Felipo como companhia. E, para seu profundo desagrado, olhar para Guilhermo e não lembrar do sonho estava sendo impossível.

Alias, não lembrar do sonho em qualquer momento do dia, havia sido impossível para ela, nem o banho gelado que Hulda lhe preparara nas primeiras horas do dia conseguira afastar Guilhermo dos seus pensamentos.

"Eu estou perdendo essa batalha e eu nunca perco uma batalha!" — Valentina refletiu olhando de soslaio para Guilhermo que encontrava-se alguns metros a sua frente. — "Ele monta tão maravilhosamente bem, parece que ele e seu cavalo são um só!" — Valentina respirou fundo espantando aquele pensamento.

Todos os momentos do seu dia foram assim, entre devaneios, lembranças e suspiros, ao ponto de durante uma reunião entre o Barão Verner e seu avô, ele lhe cutucar as pernas por debaixo da mesa por mais de uma vez e a olhar com severidade, chamando sua atenção.

— O que tens hoje, minha princesa? Nunca és distraída, sempre estais atenta a tudo.. — Rei Augusto se aproximou de Valentina assim que o Barão se despediu. — Mas hoje você parecia estar em outro lugar, até o Barão notou. — Rei Augusto segurou as mãos de Valentina com carinho. — Estás doente?

— Não, Majestade. — Valentina sorriu suavemente. — Acho que só acordei um pouco distraída hoje, acredito que agora que todos nossos convidados chegaram e estão instalados, eu relaxei um pouco e isso afetou minha concentração.

— Um pouco distraída? Relaxada? — Rei Augusto não conseguiu conter a gargalhada. — Valentina, minha princesa, em dezoito anos eu nunca a vi nem de uma forma nem de outra. — E voltando a ficar sério completou. — Vou pedir ao médico que venha lhe fazer uma visita, ele certamente lhe recomendará algumas infusões, você come tão pouco, deve ser falta de vitaminas.

Valentina olhou para o avô com carinho desejando ardentemente que fosse realmente essa a razão de sua distração.

— Eu realmente estou bem, vovô, prometo! — Valentina abraçou o avô e lhe deu um beijo no rosto. — Agora eu preciso ir, vou apresentar a Rainha Selena ao nosso chefe da guarda, ela está ansiosa aguardando o momento de poder treinar nossos homens.

— Vá, minha princesa, vá! — Valentina fez uma leve mesura e Rei Augusto lhe pediu antes que saísse. — Mas se sentires alguma coisa diferente, por favor, me avise, não quero correr risco algum em lhe perder, já me basta ter perdido....

Valentina observou os olhos de seu avô umedecerem.

— Eu sei vovô, eu prometo, qualquer coisa eu lhe avisarei. — Valentina sorriu e deu mais um beijo no rosto do avô antes de seguir o caminho.

Em outro momento, quando caminhava com sua irmã até o campo de treinamentos de Artena, mais uma vez seus pensamentos fugiram de seu comando.

— Valentina? — Selena a segurou pela mão parando-a e fazendo Valentina lhe procurar o olhar com ar de surpresa.

— Por que paramos, Selena? — Valentina quis saber olhando em volta para entender a razão daquela parada súbita.

— Por que paramos? — Selena sorriu de forma engraçada e Valentina reforçou a pergunta.

— Sim. Por que paramos?

— Seria porque estou a dez minutos falando sozinha? — O tom de Selena continha uma ironia explícita.

— Falando sozinha? Claro que não. Ou não estamos caminhando lado a lado? — Valentina respondeu intrigada.

— Caminhando sim. Conversando? Certamente que não. — O sorriso de Selena tornava-se cada vez maior. — Me diga, irmãzinha, sobre o que eu estava falando?

— Ora, certamente estava falando sobre o quanto está ansiosa para encontrar os soldados e.... — Selena sacudia a cabeça negativamente. — Não, claro que não, você falava o quanto Ulisses foi bem recebido em nossa cozinha e o quanto.... — Mais uma vez Valentina viu Selena movimentar a cabeça negativamente. — Tá bom, eu assumo, eu não a estava ouvindo. — Selena fez um ar de incredulidade e Valentina prosseguiu. — Me perdoe, eu estava passando em minha cabeça as tarefas que preciso solicitar para que amanhã também corra tudo perfeito e me distraí por alguns instantes.

— Valentina, minha irmã querida, eu vou acreditar em você pela simples razão que nunca a vi mentir. — Selena beijou o rosto de Valentina e sorriu. — Contrapartida eu também nunca a vi distraída, portanto, deixemos essa questão de lado e vamos logo ao centro de treinamento.

Com um sorriso no rosto, quase de agradecimento, Valentina esticou a mão para a irmã e a conduziu.

Esses dois momentos foram os mais notórios, até porque haviam acontecido na presença de outras pessoas, mas era ter um segundo livre e Valentina era tomada por pensamentos em Guilhermo e suspiros lhe escapavam pelos lábios.

"Isso não pode continuar" — Valentina decidiu. — "Assim que esse passeio terminar, procurarei Guilhermo e o enxotarei de meus pensamentos."

— Está no mundo da lua, Princesa? — A voz de Felipo soou ao seu lado lhe dando um leve susto. — Andas muito assustada ultimamente, Valentina, o que se passa? É a cabeça... — E esticando o queixo em direção de Guilhermo, Felipo complementou. — Ou o coração?

— A cabeça, Felipo! — Valentina respondeu seca.

— Que rude estamos hoje. — Felipo implicou sorrindo.

— Não fui rude, Felipo, apenas direta, existe uma diferença. — Valentina argumentou usando um tom muito mais leve do que o impaciente que usara antes.

— Agora realmente não foi, Princesa! — Felipo aproximou seu cavalo do de Valentina. — Eu ia lhe convidar para uma corrida, mas distraída como me parece estar não acho a melhor ideia. — E a olhando com um sorriso sínico nos lábios gritou na direção de Guilhermo que encontrava-se um pouco afastado. — O que acha, meu príncipe? Uma corrida como fazíamos em nossa infância, não lhe soa uma boa ideia?

Guilhermo parou o cavalo e sorriu a olhar na direção de Felipo e Valentina, o sol tomando-lhe a face e iluminando seu rosto, causando borboletas no estômago de Valentina.

— Meu caro amigo, nada me seria mais prazeroso. — Guilhermo respondeu ainda sorrindo e Felipo deu rédeas a seu cavalo aproximando-se feliz. — Porém, já não somos crianças, nossos cavalos já não são os mais mansos do estábulo e somos os herdeiros de nossos reinos, não podemos arriscar nossas cabeças.

— Ora, Guilhermo, uma corridinha de nada. — Felipo fez uma cara murcha. — Nada de muito arriscado, uns quatrocentos metros, olhe pra frente, é só campo, o que poderia dar errado?

— Um buraco, uma cobra, qualquer coisa que possa assustar os cavalos e nos jogar no chão. — Guilhermo ponderou em tom sensato.

Valentina, que também se aproximara, não conseguiu controlar um comentário, feito em tom baixo e somente para os ouvidos de Felipo.

— Como eu disse, monótono com um baile sem música! — E incentivando seu garanhão a correr, olhou por cima do ombro e chamou por Felipo. — Você vem?

Felipo soltou uma gargalhada e se preparou pra partir, mas antes olhou para Guilhermo e comentou rindo.

— É amigo! Tá complicado pra você! Valentina sempre foi calma e centrada, mas nunca, jamais, em tempo algum, foi monótona.

Guilhermo permaneceu ali parado tentando entender o que ele havia perdido, pensou em disparar atrás dos amigos mas acabou não fazendo, iniciando um trote leve, em algum momento eles parariam de correr e, nesse momento, ele os alcançaria. Já usara de urgência nesse último mês e tudo que conseguira foi uma mensagem por pena e uma rejeição a sua declaração.

Não demorou muito a alcançar os amigos, Felipo falava algo agitadamente para Valentina que se esforçava para não rir.

— Se escapar um leve suspiro de riso desses seus lindos lábios, Princesa, terás um inimigo para o resto da vida. — O rosto de Felipo, Guilhermo observou, estava contorcido de dor.

— Se machucou? — Guilhermo quis saber preocupado.

— Não, não estou machucado, mas estarei bem pior se não voltar ao castelo imediatamente. — Mal acabou de falar e disparou com o cavalo, deixando Guilhermo e Valentina a sós, ela tentando conter o riso, ele sem entender o que ocorrera.

— Ele está bem? — Guilhermo perguntou curioso em entender o que se passava.

— Quase. Me parece que almoçou demais e agora está sofrendo as consequências. — Não conseguindo mais conter-se, Valentina fez algo que a muito não fazia em público, gargalhou alto e descontroladamente.

— Por Deus! — Guilhermo entendendo o que se passava, e as razões do rosto contorcido de Felipo, juntou-se a Valentina. — Eu espero sinceramente que dê tempo... — mais uma gargalhada. — seria uma cena dantesca se não desse... — mais uma e essa mais forte que a anterior. — Imagina o rosto do cavalariço com Felipo chegando envolto em....

— Por favor, pare... — Valentina se contorcia ao rir, — não estou aguentando, minha barriga. — E mais uma crise lhe tomava. — Pobre Felipo, se não chegar a tempo será conhecido como o Principe Ca... — Valentina não completou a frase, olhou para Guilhermo iniciando uma nova onda de risos.

Mesmo entre as gargalhadas descontroladas, Guilhermo desmontou e se aproximou da montaria de Valentina e lhe estendeu a mão.

— Venha, desça. — O corpo de Guilhermo tremia a cada gargalhada. — Melhor desmontar, antes que caia de tanto rir.

Valentina apoiou as mãos nos ombros de Guilhermo enquanto ele lhe apoiava pela cintura, era pra ser um movimento simples, mas quando seus olhos se encontraram as gargalhadas tornaram-se mais fortes causando desequilíbrio em ambos e os levando para o chão, juntos. A queda de Valentina foi amortecida pelo corpo de Guilhermo e por um instante permaneceram ainda deitados, ela por sobre ele, rindo de toda aquela situação com Felipo.

— Me perdoe, Princesa, minhas pernas não puderam me segurar, estou trêmulo de tanto rir. — Guilhermo falou ainda se rindo, mas quando olhou para Valentina com as bochechas rubras de tanto rir, como se fosse a garotinha que a muito conhecera, seu coração parou e a graça da situação de Felipo se perdeu frente a sensação de tê-la ali, em seus braços, relaxada, como se fosse o lugar mais perfeito do mundo.

Valentina percebeu a súbita mudança no olhar de Guilhermo e com um sorriso radiante e feliz quis saber o que se passava.

— Porque tão sério agora? — Disse Valentina jogando-se para o lado de Guilhermo.

— Faz tanto tempo que não ouço você gargalhar que não me lembrava mais do som maravilhoso de suas risadas. — Guilhermo respondeu ao mesmo tempo que colocava-se de lado, apoiando a cabeça no cotovelo.

— Ora, Guilhermo, estamos a tanto tempo focados em nossas futuras responsabilidades, é claro que não ouve minha gargalhada a muito, seria impossível, moramos a milhas de distância. — A voz sempre baixa e contida agora soava leve e natural.

— Não, Valentina, foi antes disso, bem antes, acho que tínhamos seis ou sete anos, algumas pessoas falavam coisas, eu fazia o máximo para evitar que você as ouvisse, mas sei que por muitas vezes ouvira. Foi nessa época que sua risada começou ficar escassa e que seus olhos, sempre tão brilhantes e vivos, começaram a se tornar sérios e compenetrados.

— Eu vou beijá-la. — Guilhermo disse em um tom rouco enquanto aproximava o rosto ao de Valentina.

— Eu sei. — Valentina respondeu quase num sussurro.

— Você não vai me impedir? — Guilhermo perguntou tocando-lhe os lábios com a ponta do indicador.

A resposta de Valentina foi um leve menear negativo de cabeça.

— Nem fugir de mim depois? — Guilhermo estava tão próximo dos lábios de Valentia que ela podia sentir o movimento de sua fala.

— Eu não vou lhe impedir e tampouco fugir. — Valentina respondeu baixinho erguendo a mão para tocar o rosto de Guilhermo. — Mas é preciso que saiba...

— Não. — Guilhermo impediu Valentina de continuar falando. — Agora tudo que preciso saber está aqui, em meus braços, me permitindo provar-lhe.

Quando os lábios de Guilhermo finalmente tocaram os de Valentina, ela fechou os olhos, estava tão ansiosa por aquele beijo que perdeu qualquer pensamento que não fosse a sensação daquele contato. Guilhermo tocava seus lábios com delicadeza, várias vezes, o contato não era constante, ele lhe beijava, afastava o rosto para olhá-lha e então repetia a ação.

Valentina abriu os olhos e olhou decepcionada. Não era aquilo que imaginara, não era aquela sensação que ansiava, esperava algo profundo, que lhe tirasse o ar dos pulmões, que fizesse seu corpo aquecer e não aquele toque quase casto.

— O que foi? — Guilhermo perguntou com delicadeza afastando de Valentina por completo. — Porque esse olhar decepcionado?

Valentina aproveitou o espaço que agora tinha e levantou-se. Bateu as saias para tirar a grama que ali se encontravam e virou-se para Guilhermo que ainda estava deitado.

— Guilhermo, não quero lhe magoar, lhe tenho em alta cota, você sempre foi um grande amigo. — Guilhermo a observava sério. — Sua aproximação e declarações criaram em mim uma expectativa, uma ansiedade que não estava em meus planos. — Valentina respirou fundo, o momento era essa, talvez não tivesse outra oportunidade para afastá-lo e, com a decepção que sentia pelo beijo, tudo se tornava mais fácil. — Meus sentimentos, até o momento, estavam confusos e indefinidos. — Valentina imagina que Guilhermo estaria decepcionado, mas no entanto ele trazia no rosto um certo ar vitorioso e um sorriso torto que ela não conseguia compreender. — Mas mesmo assim eu já havia tomado a decisão de conversar com você e pedir que tire qualquer ideia romântica que tenha sobre mim de sua mente. Em breve serei a Rainha de Artena e meu foco será somente esse. Casamento e filhos não estão nos meus planos. Alias, não é minha intenção, e nunca o foi, casar-me com quem quer que seja, sendo esse casamento arranjando, menos ainda.

Valentina ficou parada olhando para Guilhermo, esperava que ele reclamasse, argumentasse, reagisse de alguma forma, mas tudo que Guilhermo fez foi um movimento de concordância com a cabeça, para logo depois ergue-se do chão e estender-lhe a mão.

— Permita-me ajudá-la a montar, Princesa, o sol já se põe no horizonte e não seria de bom tom deixarmos nossas famílias preocupadas. — O tom de Guilhermo era exageradente formal o que irritou Valentina.

— Guilhermo, estou falando sério. — Valentina colocou as mãos para trás negando a ajuda oferecida.

— Eu também, Princesa. — Afastando-se de Valentina, Guilhermo montou o próprio cavalo e o virou em direção ao castelo.

Valentina montou em seu garanhão e, sem dar chance para qualquer outra colocação, partiu em Galope sem olhar para trás.