Valentina
6 Capítulo 5
— Está tudo pronto para a chegada dos nossos convidados? — Rei Augusto perguntou gentilmente a Valentina durante o jantar. — Nada mais que o melhor para nossos amigos.
— Sim, Majestade, tudo pronto! — Valentina respondeu também gentilmente. — Separamos os melhores quartos, Montemor na torre sul, Astrilha na torre norte. Larissa preparou a cozinha para a chegada de Ulisses, os cavalariços já preparam nossos melhores cavalos, o chefe da guarda designou uma guarnição com seus melhores combatentes para Rainha Selena treiná-los, Hulda tratou com alguns aldeões que acompanharão Felipo por nossas área de cultivo, a Biblioteca estará a disposição de Guilhermo e eu separei algumas edições que possam interessá-lo, as professoras preparam suas escolas para eventual visita de Tia Amália e o salão de jogos está pronto para receber Rei Afonso.
—Muito bem, gosto da forma como organizou, sendo atenta ao gosto de cada um de nossos convidados, mas... — um sorriso travesso surgiu no rosto do Rei antes que ele completasse a fala. — ... eu preferiria, e acredito que Afonso e Selena também, que você, Guilhermo e Felipo passassem esse tempo juntos, relembrando sua infância e refazendo os laços ou quem sabe, aumentando ....
— Majestade! — Larissa o interrompeu com um olhar reprovador.
— Ah! Minha amada, não precisa me puxar as orelhas. — Rei Augusto riu alto diante do olhar de Larissa. — Valentina conhece minhas intenções. Não é mesmo minha princesa?
— Sim, vovô, eu as conheço. — Valentina respondeu em tom apaziguador.
— Augusto!!! — Larissa mais uma vez o olhou reprovadoramente. — Saber das suas intenções não quer dizer que ela concorde com elas. — Larissa olhou para Valentina esperando achar algum traço de reprovação, mas não encontrou.
— Está tudo bem, Larissa, de verdade! — E buscando a mão do avô a apertou carinhosamente. — Vovô só deseja o melhor pra mim e não me forçará a nada.
— Claro que não! — Rei Augusto trouxe a mão de Valentina até o rosto e lhe beijou carinhosamente os dedos. — Bem, já que estamos todos acertados quanto a esse assunto e já que está tudo pronto para chegada de nossos convidados, podemos nos recolher, assim estaremos todos bem dispostos amanhã.
Rei Augusto se levantou e logo todos que estavam a mesa fizeram o mesmo, aproximou-se de Valentina e beijou-lhe a face.
— Boa noite, minha princesa! Que seus sonhos sejam os mais doces e que tenha um bom descanso.
— Obrigada, vovô! — Valentina respondeu também beijando-lhe a face.
Assim que Rei Augusto se retirou, Valentina se despediu dos demais e também se retirou, porém, mal chegou a porta da sala de jantar e foi interrompida por Dioclécio, o conselheiro real. Deoclécio era um homem instruído e correto, por muitas vez ele ajudara Valentina em seus estudos, debatendo com ela os assuntos mais variados, ele fora uma peça importante em sua educação e Valentina tinha por ele muito carinho.
— Me desculpe a interrupção de seu caminho, princesa, eu só gostaria que soubesse que me faz muito gosto a ideia de Vossa Alteza ter ao seu lado os jovens príncipes Felipo e Guilhermo, sei que é só um pensamento cruzando a mente de seu avô, mas, se é que eu posso declarar minha preferência, essa seria pelo príncipe Guilhermo.
— Não se preocupe, Deoclécio, agradeço suas palavras e certamente as levarei em conta, porém não pretendo levar esse assunto a frente, sou muito jovem e como toda jovem pretendo encontrar o amor. Se for o caso de acontecer com Guilhermo ou Felipo, que seja. — Valentina fez um leve aceno de cabeça, que prontamente foi correspondido por Deoclécio, e seguiu seu caminho.
Finalmente em seus aposentos, Valentina encostou-se na parede e respirou fundo. Essa fragilidade que tomava conta dela cada vez que o nome de Guilhermo era citado a estava tirando a paciência, precisava se livrar desse sentimento e a semana que estava por começar era o momento perfeito para isso.
Valentina aguardou Hulda terminar de ajudá-la a se aprontar para dormir, estranhou que a Dama de Companhia, normalmente tão falante, estivesse nesse dia tão calada.
— Algo a incomoda, Hulda? — Quis saber Valentina com real preocupação.
— Não, Alteza, está tudo perfeitamente bem. — Hulda respondeu sorrindo fraco.
— Certamente que não está. Você sempre se põe tão falante, sempre está a me contar os casos do castelo ou alguma novidade da vila, mas hoje em especial estais mais calada do que nunca. — Valentina virou-se e encarou Hulda. Saberia se estivesse mentindo, ela sempre sabia.
— Vossa Alteza me perdoe, estou um pouco preocupada.... — A voz de Hulda era um fio baixo e trêmulo.
— Diga, Hulda, o que te preocupa? — Valentina a olhou nos olhos.
— É a comitiva de amanhã, Alteza, estão dizendo que uma das acompanhantes da Rainha Selena é uma poderosa bruxa... — Valentina manteve o olhar firme, incentivando Hulda a continuar. — Estão falando pelo castelo inteiro que ela tem o poder de ler mentes... — Hulda baixou a cabeça antes de continuar. — Estão todos apavorados! Vossa Alteza sabe que os criados, as vezes, fazem piadas jocosas em suas cabeças ou mesmo reclamam em seus pensamentos... — Valentina tocou o queixo de Hulda para que ela lhe visse a tranquilidade em seus olhos e se acalmasse.
— E a quem julgam bruxa? Sabe o nome da tal mulher? — Valentina usou um tom curioso, porém sério.
— Dizem que se chama Agnes, Alteza. — O olhar de Hulda era de puro pavor.
— Fique tranquila, Hulda, tudo isso não passa de falação. conheço a pessoa a quem se refere, é a melhor amiga de minha irmã. — Valentina virou-se para sentar em seu toucador. — Agnes nada mais é do que uma mulher muito inteligente e observadora. — E com um sorriso suave completou o pensamento. — Uma bruxa, Agnes, vou contar a ela, ela certamente se divertirá com esse possibilidade.
— Mas, Alteza... — Hulda quis argumentar.
— Deixe de crendice, Hulda, bruxas não existem, essa é uma forma que a igreja encontrou de punir as mulheres fortes e com habilidades que os homens não tem. É tudo crendice. Fique tranquila, e já que se encontra em tanto pavor, não precisa ter com os convidados, basta se manter longe deles. — Valentina olhou a dama de companhia pelo reflexo do espelho a sua frente. — E agora chega desse assunto. Vou me recolher e espero que faça o mesmo. — Hulda concordou com um leve movimento de cabeça. — Ah! E não guarde a informação para si, tudo que menos precisamos é de criados apavorados e cochichando pelos corredores.
Hulda assentiu novamente e se retirou do cômodo quase que correndo. Certamente trataria de espalhar a explicação que recebera. Valentina sorriu para seu reflexo no espelho quando a porta do cômodo se fechou. Brincou com os objetos de seu tocador sem tocá-los.
— Bruxas não existem! — Não conteve uma gargalhada suave ao ouvir a afirmação que escapou de sua boca.
Bem, ao menos a conversa com Hulda a fez esquecer por alguns instantes o assunto que insistia em reverberar em seus pensamentos a dois dias, ou melhor, a um mês e dois dias.
Guilhermo Martin, Principe de Montemor.
Valentina deitou-se na cama e fechou os olhos, não era difícil para ela se transportar para o baile do seu aniversário, de lembrar do calor da respiração em sua nuca lhe causando arrepios, do leve toque em seus dedos que ele insistia em fazer a cada passo de dança. Não, não era nada difícil lembrar de cada linha das mensagens que ele havia mandado, do aroma perfeito que o papel exalava, de cada sonho que tivera com ele...
A janela se abriu num rompante e com ela uma brisa morna se alastrou pelo quarto. Valentina abriu os olhos e sorriu.
— Meu amor, não se martirize. — A brisa transformou-se naquela voz tão conhecida.
— Como não me martirizar se a simples citação de um nome me traz borboletas no estômago e pensamentos românticos de amor? — Valentina respondeu com um suspiro.
— Pense, meu amor, pense, um homem quando verdadeiramente apaixonado faz tudo por seu amor, tudo! — A brisa sussurrou em seus ouvidos.
— E uma mulher verdadeiramente apaixonada também não o faz? — O tom de voz de Valentina era dolorido. — Não foi o amor que te afastou fisicamente de mim? Não é por conta do amor de um homem que eu não posso te chamar da forma que mais desejo?
— Meu amor.... — A brisa lhe envolveu num abraço. — Você é tão mais preparada do que eu fui, eu não tinha ninguém em quem eu realmente pudesse confiar, você tem a mim. E eu não era correspondida. Se o tiver em suas mãos....
— Não! — Valentina se levantou e caminhou nervosamente pelo quarto. — É muito arriscado. Eu não me sinto segura quando ele está perto, não consigo disfarçar meus pensamentos e sentimentos. Me torno transparente aos olhos dele.
— Meu amor, sua preocupação é valida. — O som que a brisa trazia foi se tornando baixo e distante. — Só reflita bem, se você está com medo que ele te desvie do seu caminho ou se você está com medo de magoá-lo pelo caminho que escolheu. Acredite na sua força, no seu poder, acredite em você e nada poderá modificar seu futuro.
As janelas se fecharam e som se diluiu na escuridão da noite, Valentina deitou-se novamente, as palavras reverberando em seu cérebro. Fechou os olhos refletindo sobre o que realmente sentia e conclui, desoladamente, que não tinha medo que seu caminho fosse desviado, nada nem ninguém seria capaz disso, mas imaginar que Guilhermo pudesse odiá-la... sim, isso lhe causava medo, muito medo, e Valentina odiava esse sentimento.
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