Valentina

5 Capítulo 4


Já se passava um mês desde o aniversário de Valentina e mais uma vez sua dama de companhia lhe trazia uma mensagem, dessa vez do Príncipe Guilhermo Martin. No último mês, tanto Guilhermo quanto Felipo haviam mandado seguidas mensagens, mas o tom delas certamente eram diferentes. Felipo escrevia mensagens divertidas, cheias de rimas engraçadas que sempre provocavam risos em Valentina, já Guilhermo...

— Alteza... — sua Dama de Companhia, que jazia parada a porta enquanto Valentia caminhava pelo quarto lendo a mensagem, interrompeu-lhe os pensamentos. — O mensageiro está aguardando uma resposta e me disse que o Príncipe exigiu que não voltasse sem uma mensagem de vossa alteza.

Valentina caminhou até a penteadeira, pegou a pena e um papel e postou-se a escrever uma resposta.

— Só isso, Alteza? — A dama perguntou diante da rapidez com que Valentina acabara sua mensagem. — Uma resposta tão curta para uma mensagem tão longa?

— Eu estou respondendo apenas por compaixão ao pobre mensageiro, para que ele não retorne sem ter cumprido a ordem que lhe foi dada. — Respondeu Valentina em tom tranquilo e suave. — Não hei de querer que o pobre homem seja castigado por tão pouco.

A dama de companhia lhe sorriu quando Valentina lhe entregou a mensagem, ameaçou dizer mais alguma coisa, porém limitou-se a fazer uma mesura e se retirar.

Valentina esperou a dama de companhia sair e caminhou até a sacada, precisava de ar, precisava colocar o coração no lugar. Aquele último mês cheio de mensagens charmosas e sedutoras de Guilhermo havia mexido com ela e ela não estava disposta a permitir que tal fato continuasse.

Valentina aproximou a mão do rosto e sentiu o aroma em seus dedos. As mensagens de Guilhermo sempre traziam esse aroma, uma mistura inusitada de canela e almiscar, completamente masculino, o mesmo aroma que sentira em Guilhermo quando dançaram em seu aniversário. Um aroma que penetrava em suas narinas e lhe tomava o corpo, que acelerava seu coração e lhe fazia bambas as pernas.

— Não! — A voz de Valentina ecoou pelo espaço a sua frente. — Não... — repetiu agora no seu tom habitual. — Eu tenho um caminho e nada irá me desviar dele. Nada nem ninguém. — Terminou a frase com uma respiração forte e profunda, como quem se coloca em prumo.

Valentina retornou ao quarto decidida a tirar Guilhermo de seus pensamentos, mas as palavras da mensagem que ele enviara teimavam em retornar a sua mente.

"Valentina, insisto por que tenho certeza que sentiste o mesmo que eu no seu baile. Se assim não fosse não estarias fugindo de mim, afinal somos primos, crescemos juntos, não seria inconveniente sermos vistos em um passeio pelos jardins do castelo. Me deixe encontrá-la. Vamos conversar como sempre fazíamos. Deixe-nos ter uma daqueles inacabáveis discussões filosóficas que sempre adoramos. Me deixe estar perto de você. Me deixe conhecer essa nova Valentina, a futura Rainha de Artena. Me deixe conhecer a mulher que você se tornou. E se deixe me conhecer.

Meus sonhos são todos seus.

Meu coração se arrebata ao simples ouvir do seu nome.

Não me afaste.

Sei que não me enganei.

Seu primo, amigo e admirador,

Guilhermo Martin"

Ela não queria magoá-lo, mas não podia ser diferente, não podia deixá-lo se aproximar, se longe ele já estava lhe causando transtornos.... não, ela não o deixaria se aproximar. Um sorriso triste surgiu em seus lábios quando pensou na resposta que enviara, fria, direta, sem emoção.

"Sinto muito, acho que estamos em momentos diferentes.

Valentina."

E o que ela realmente queria dizer era sim, o que ela realmente queria era encontrar com ele e entender a confusão interna que ele gerava nela. Extrapolou sua frustração num jarro de bronze que encontrava-se na cômoda ao lado de sua cama, com um movimento de cabeça o fez explodir contra a parede de pedra de seu quarto.

— Alteza!? — Sua dama de companhia entrou correndo no cômodo.

— Está tudo bem, Hulda, eu esbarrei no jarro e ele caiu, só isso. Você pode voltar pra antessala. — Valentina disse com calma, sem deixar transparecer o turbilhão de emoções que se instalara dentro dela.

— Pois não, Alteza! — Hulda pegou o jarro e o examinou antes de colocar no lugar, certamente não havia sido um esbarro. O estrondo que ouvira e a deformidade do jarro comprovavam sua tese. Hulda fez uma mesura e se encaminhou pra porta, mas parou antes de rompê-la. — Perdão, Alteza, eu já ia me esquecendo, seu avô a solicita no gabinete real.

— Obrigada, Hulda, estarei lá em alguns instantes.

Valentina sentiu um alívio por ser chamada por seu avô, assim os pensamentos que agora lhe tomavam seriam nublados pelo assunto que seu avô a requisitara. Mas antes de sair precisava fazer mais uma ação, a mesma que fizera com todas as mensagens que Guilhermo lhe enviara. Aproximou-se da penteadeira onde jazia a mensagem, levou-a até próximo a lareira e a depositou lá dentro. Observou com uma leve dor no peito a mensagem se queimar e pediu aos céus que junto com a mensagem seus sentimentos e dúvidas fossem queimados.

— Eu sou Valentina de Lurton, filha de Catarina de Lurton, a força e o futuro de toda a Cália, e nada, nem ninguém, irá desviar o meu caminho.

As chamas se elevaram com força ao final de sua fala, como que respondessem positivamente a afirmação feita. Valentina, sentido-se segura da decisão que tomara, virou-se e dirigiu-se ao gabinete real. Qualquer pensamento diferente do de ser tornar a Rainha de toda Cália, ela tinha certeza, foram queimados ali, junto com aquela maldita mensagem.

— Majestade! — Valentina cumprimento seu avô com uma mesura. — Queria me falar?

— Sim, minha princesa. — Rei Augusto abriu um lindo sorriso ao ver a neta e abriu os braços lhe convidando a um abraço. — Tenho novidades pra te contar. Sente-se aqui pertinho.

Valentina se aproximou e abraçou o avô, ela realmente o amava, não queria que ele se fosse, mas sabia que a cada dia ele estava mais fraco.

— Me conte, sempre gosto quando você sorri e diz que tem novidades. — Valentina se acomodou no braço da cadeira onde Rei Augusto encontrava-se.

— Eu observei você, Felipo e Guilhermo durante o Baile e meu coração ficou triste por vocês terem se distanciado conforme cresciam. — Valentina olhou para o avô suavemente, mas a simples menção do nome de Guilhermo fez seu coração disparar. — Eu rogo para que, um dia, quando os três forem os soberanos de seus reinos, possam manter essa amizade. Assim como eu, Afonso, Selena e Rodolfo...

— Não precisa se preocupar com isso vovô, dentre tantas coisas que já o preocupam, não precisa de mais uma. — Valentina procurou no olhar do avô algum tipo de concordância com sua fala, mas não encontrou, precisava ser mais direta. — Crescemos juntos, somos amigos, não existe realmente razão para se preocupar.

— Mas eu me preocupo. e também Afonso, Selena e Rodolfo. — Rei Augusto trouxe a mão de Valentina para perto do peito. — É importante ter alguém do seu lado, é importante que uma Rainha tenha com quem partilhar suas preocupações e dúvidas e... — Valentina sentiu um arrepio em sua nuca com a pausa dramática de seu avô. — Bem, Guilhermo ou Felipo seriam excelentes companheiros.

Um momento de total silêncio tomou a sala, Rei Augusto segurava o ar observando se Valentina havia entendido o que ele, de forma sutil, propôs. Valentina, por sua vez, analisava as palavras do avô, desejando profundamente ter entendido de forma errada o que ele lhe havia dito.

— Minha Princesa, entenda, eu me preocupo demais com seu futuro, desde que começou a me acompanhar nas viagens e deveres reais quase não a vejo mais sorrir, não a vejo ter um minuto de diversão, está sempre enfurnada nos livros ou me ajudando....

— Eu sou feliz assim, vovô, é isso que amo fazer, amo estar ao seu lado, aprender, entender, me preparar para o futuro. — Valentina argumentou de forma doce.

— Eu sei, mas a condução de um reino pode ser muito solitária se não tivermos ao lado alguém com quem partilhar. — Rei Augusto sorriu para neta. — Não estou dizendo que você precisa ter alguém, mas que é importante ter. — Valentina conhecia muito bem o avô, quando ele colocava algo na cabeça era bem complicado fazê-lo mudar de ideia. — Mas não vamos discutir mais sobre isso agora. O que preciso realmente lhe dizer é que Guilhermo e Felipo estão chegando em dois dias, juntamente com Afonso, Amália, Selena e Ulisses. Ficaremos reunidos por uma semana, e, nesse tempo, vocês poderão reforçar os laços de amizade e... — Rei Augusto deixou no ar a última parte da frase e com um sorriso no rosto piscou para Valentina.

— Sim, vovô, claro, acho ótimo, vou preparar tudo para a chegada deles. — Valentina sorriu daquela forma leve que lhe era natural, seu avô jamais saberia o turbilhão de emoções que seu aviso trouxera.

Uma coisa era receber palavras, mesmo que ela lesse as mensagens imaginando a voz de Guilhermo, eram só palavras. Mas, tê-lo ali, por uma semana inteira, isso exigiria um auto controle que ela talvez não pudesse ter.