Valentina
4 Capítulo 3
Valentina passeava entre os convidados, o olhar suave e neutro não entregava seus reais pensamentos e sentimentos; cumprimentava a todos, distribuía leves sorrisos e delicados abraços. Delicados até parar junto ao seu sobrinho Felipo Otávio, príncipe herdeiro de Lastrilha — único filho de sua irmã, a Rainha Selena com o marido Ulisses .
Valentina, Felipo, Guilhermo Martin, príncipe herdeiro de Montemor e único filho do Rei Afonso com sua tia Amália e os quadrigêmeos do Rei Rodolfo cresceram juntos. As idade parecidas, a proximidade dos Reinos e os laços sanguíneos os uniram ainda mais. Era comum vê-los correndo por um dos castelos, tendo aulas, brincando e também, por muita vezes, aprontando alguma; eram crianças felizes e amadas.
Valentina, a mais velha, a líder do grupo, não temia os riscos e sua coragem e força era admirada pelos demais, também aconselhava com doces palavras quando algum desentendimento surgia, evitando, quando por perto, as brigas normais da infância; com seis meses de diferença vinham os quadrigêmeos encabeçados por Margô, a mais velha, herdeira do trono de Alcaluz e melhor amiga de Valentina. Margô era uma criança tímida, muitas vezes calada, mas sua perspicácia e pensamentos rápidos sempre os safavam das confusões. Merlin, Mirtes e Morgan completavam o quarteto, eram os três mais arteiros, metiam-se em todos os tipos de confusão e viviam de castigo; Guilhermo Martin era um ano mais jovem que Valentina e seu parceiro de discussões e estudos. Guilhermo era de uma inteligência aguçada, estava sempre um passo a frente dos demais, era por demais sério, mas trazia nos olhos desde cedo uma tristeza que não se sabia explicar. E por fim vinha Felipo, o caçula do grupo. Com uma diferença de um ano de Guilhermo, Felipo era uma criança feliz, sorridente, encantadora, extremamente bem educada e sedutora. Seu lugar predileto era a cozinha, onde seu pai sempre preparava os mais maravilhosos quitutes de toda Cália.
Conforme foram ficando mais velhos e seus interesses tornando-se diferentes, os jovens naturalmente se afastaram em busca de novos conhecimentos e horizontes. Guilhermo tinha uma grande paixão pelo exército e história então quando não estava treinando na escola militar de Montemor estava enfurnado na biblioteca lendo fervorosamente; Felipo passava todo seu tempo livre se dedicando a agricultura e pesquisando novos temperos para aprimorar ainda mais os sabores dos quitutes do pai; Margô havia se casado aos dezesseis com um príncipe galês e estava grávida de seu primeiro filho; Merlin, Mirtes e Morgan haviam fugido juntos para uma viagem pelo mundo e agora encontravam-se em algum lugar do oriente médio; já Valentina se dedicava totalmente aos estudos, tinha sede de conhecimento, todas as áreas lhe interessavam, de química a artes, de matemática a estratégias de guerra, ela conhecia profundamente todos assuntos e se algo novo surgia arrumava tempo para mais esse conhecimento. Sim, essas diferenças os afastaram, mas sempre que se encontravam as brincadeiras e implicâncias da infância voltavam também. A última vez que se encontraram pessoalmente havia sido no casamento de Margô, e de lá já havia se passado quase dois anos.
— Princesa Valentina, agora uma quase Rainha, por ti minha querida, só aumenta minha estima! — Disse Felipo pra Valentina com um sorriso no rosto e uma reverência exagerada. — A ti, minha tia, minha musa e minha amiga, utilizo-me dessa pobre rima, para congratular! — Valentina retribuiu o abraço e não conseguiu conter um sorriso suave. — Dezoito anos, quem diria, princesa de Artena e futura Rainha, tudo no mesmo dia.
— Pare já com isso Felipo, pelo que posso notar cresceste bastante. — Um sorriso enorme tomou o rosto de Felipo. — Mas, infelizmente, só na altura, na cabeça continuas o mesmo.
O murcho que tomou o rosto de Felipo roubou mais um sorrir de Valentina. Felipo havia mudado sim, estava pouca coisa mais alto que ela agora, uma leve penugem começava a lhe tomar o rosto e estava bem mais magro do que lembrava.
— Não fique triste, você sabe que é o meu sobrinho predileto, não sabe? — Valentina perguntou em um tom brincalhão raro de usar.
— Sou seu único sobrinho, vossa majestade, portanto tens, por obrigação moral, que gostar de mim. — Felipo terminou a frase com uma piscadela e um sorriso torto no rosto.
— Vossa alteza, Felipo, vossa alteza. Majestade é meu avô. Seus estudos continuam precários, mas sua educação... onde foi parar? Sempre foi o mais educado de nós. — Implicou Valentina sem levantar o tom de voz.
— É que já prevejo o futuro, vossa altezíssima majestosa tia. — E mais uma vez uma reverência exagerada foi feita.
— Você não tem jeito, sobrinho! — Disse Valentina abraçando-o delicadamente.
— Será que eu também tenho direito a um abraço ou isso é uma exclusividade do sedutor Príncipe Felipo de Lastrilha? — Apesar da voz ser conhecida o tom agora estava diferente, mais grave. Valentina virou-se lentamente na direção da voz.
Guilhermo Martin, seu primo, príncipe herdeiro de Montemor, seu amigo de infância, parceiro de estudo e de discussões filosóficas intermináveis estava parado a sua frente. Não era mais um magricela, descabelado, desafinado e baixinho que vira pela última vez; ele havia mudado, e muito, nos últimos dois anos. Guilhermo agora estava tão alto que Valentina precisou levantar a cabeça para olha-lo nos olhos.
— De forma alguma, primo! — Respondeu finalmente Valentina abraçando o primo também de forma delicada.
Algo em seu estômago se moveu ao sentir os braços de Guilhermo em torno de sua cintura, algo que ela não sabia reconhecer, afastou-se rapidamente e disfarçou o olhar.
— Seu rosto está vermelho, Tia, está se sentindo bem? — Felipo a olhou sério.
— Um leve mal estar, provavelmente causado pelo excesso de perfume que você está usando, Felipo. — Valentina torceu os lábios ao responder.
— Ou quem sabe seja a figura malproporcionada de nosso caríssimo Príncipe Guilermo. — Implicou Felipo.
Valentina olhou de Felipo para Guilhermo, os dois realmente estavam muito mudados, mas, enquanto Felipo ainda sustentava as feições adolescentes, Guilhermo já não as tinha mais. A altura, os ombros, até os cabelos — que antes eram curtos e puxados para o claro — estavam diferentes. Agora tomavam-lhe os ombros em cachos largos e escuros.
— A minha figura malproporcionada, ora Felipo, procure um espelho... — um sorriso irônico surgiu nos lábios de Guilhermo. — E também afasta-se um pouco da cozinha, antes que você não caiba mais nela.
A gargalhada de Felipo tomou-lhe o corpo todo e ele se jogou, ainda aos risos, no abraço do amigo.
— Havia me esquecido o quanto você pode ser rápido em suas respostas. — Disse Felipo ainda rindo.
Valentina observou os amigos de infância se abraçarem e um suspiro quase escapou de seus lábios. Ela sabia que por maior que fosse a amizade deles, num futuro não muito distante, isso não mais importaria.
— Vossa Majestade, o Rei Augusto, convida sua neta, Princesa Valentina de Lurton, para a abertura do baile. — A voz do guarda real soou, tirando Valentina de seus pensamentos.
— Guarde uma dança pra mim, tia. — Felipo brincou ao ouvir o anúncio.
Tradicionalmente, o Rei e a Rainha eram quem abriam os bailes, e na falta de um ou de outro, a dança era feita pelo monarca e sua filha ou filho mais velho. Valentina se aproximou do avô, que já se encontrava no meio do salão, com um ar preocupado. Sabia que o esforço de uma dança seria muito para seu avô já tão debilitado fisicamente.
— Majestade, não será um esforço demasiado? Acredito que nossos convidados entenderão se rompermos com a tradição uma vez que é uma questão de saúde. — Valentina disse ao avô quase num sussurro.
— Não se preocupe, minha neta, apesar de desejar muito conduzi-la nessa dança, não serei eu. — Rei Augusto sorriu feliz e olhou por cima do ombro de Valentina, indicando que já escolhera quem seria seu par e que ele estava próximo. — Conversei com Afonso... — um tremor percorreu o corpo de Valentina. Rei Afonso sempre fora bom com ela, mas a presença dele ou de sua Tia sempre exigiam um controle além do limite para ela; dançar com Rei Afonso seria um teste de fogo. — ... ele me contou que Guilhermo é um exímio dançarino.
Assim que terminou de falar, Rei Augusto girou Valentina.
— Princesa! — Guilhermo lhe cumprimentou com uma mesura.
— Príncipe! — Valentina lhe respondeu também com uma mesura.
A música começou a tocar e Valentina se posicionou a frente de Guilhermo. Na dança, os pares não se tocavam, era quase uma corte do homem para com a dama com a qual dançava. Guilhermo girou em torno de Valentina, aproximou-se e afastou-se, cumpriu perfeitamente cada passo. Valentina o acompanhou com a mesma desenvoltura, a exceção de alguns momentos que Guilhermo, de forma bastante sutil, tocava-lhe levemente a mão, ou quando, ao girar por trás dela, fazia-a sentir o ar quente de sua respiração em seu pescoço.
Valentina sempre fora senhora de suas emoções, mesmo quando aos cinco anos seu alazão disparara pelo campo assustando a todos, ela se mantivera tranquila, sem nem um leve disparar de coração, e quando o cavalo finalmente parou, desmontou altiva, como quem chega de um passeio a passo leve.
Mas ali, naquela dança com seu primo Guilherme, seu coração batia com uma força desconhecida, a cada leve roçar de pele com pele, a cada lufada de ar quente que atravessava seus cabelos e lhe tocava a nuca, ele disparava com mais força, quase lhe rompendo o peito.
O fim da dança foi um alívio, Guilhermo lhe sorriu aberto, os dentes brancos perfeitos mostravam uma alegria sincera por aquele momento.
— Foi uma honra, princesa! — Declarou Guilhermo com uma mesura para, logo após, se aproximar e, ao mesmo tempo que lhe beijava a face, sussurrar ao ouvido de Valentina . — E um prazer que não podia imaginar.
Fale com o autor