Valentia e Doçura
4 Guerreira de Porcelana
Notas iniciais

P.O.V. Alice
No dia seguinte, uma segunda-feira fresquinha, acordei com um beijo do meu pai em minha testa.
— Filha, estou saindo pro trabalho. Agora ficou um pouco mais perto. Cuide da sua mãe.
— Certo papai, bom trabalho, vai com Deus.
— Amém filha, fique com ele.
Meu pai trabalhava como corretor de seguros, numa agência em Magé, cidade vizinha de Duque de Caxias. Levantei e fui fazer minha higiene matinal, apesar de que lavar o rosto e escovar os dentes não foi suficiente para espantar o sono. Tomei um rápido banho gelado. Vesti uma camiseta qualquer e um shorts. Dei uma olhadela na fresta da porta e vi que minha mãe dormia tranquilamente. Fui até a sala e vi um bilhete com a letra do meu pai pousado na mesa de centro.
"Fui trabalhar, espero que minhas mulheres se cuidem e se divirtam, espero também uma Costela no bafo para o jantar." Havia 50 reais embaixo do bilhete.
Preparei torradas e fiz um café, não ficou tão bom quanto o de minha mãe mas dava pro gasto. Acordei minha mãe e a chamei para tomar café da manhã. Sim, eu poderia ter levado café na cama mas, a última vez que tentei ser uma filha atenciosa, quebrei uma xícara, um prato e encharquei minha mãe de leite. Ela acordou apavorada. Ficou olhando tudo aquilo por uns 10 minutos, ainda sonolenta. Eu só conseguia pensar "lascou". Depois ela olhou pra mim e começou a rir " Não faça mais isso filha".
Ela parou na sala e leu o bilhete, ela sorriu e eu sorri também.
— Que dia será que o caminhão de lixo passa aqui ?
— Não sei não.
— Não quer ir perguntar para seu novo amigo ? — ela me lançou um sorriso malicioso.
— Ah não, com certeza não quero incomodar, vou perguntar pro porteiro safado.
— Porteiro o quê ?
— Porteiro educado. Vou perguntar pra ele — corrigi.
— Ah sim, ta bom.
O elevador não estava funcionando. Legal. Desci as escadas e me direcionei a portaria. Lá estava ele, aquele seboso.
— Bom dia senhor, pode me dar uma informação ?
— Claro, pois não ? — ele perguntou, prestativo.
— Que dia o caminhão do lixo passa por aqui ?
— Hoje, quinta e sábado.
— A que horas ?
— Depende, geralmente das 7h às 10h.
— Obrigada.
— Não tem de quê.
Subi novamente as escadas. Pensei que poderia ficar muito sarada subindo e descendo aquilo tudo todos os dias. Poderia sim, se minha preguiça não fosse tanta. Entrei em casa.
— Mãe, toda segunda, quinta e sábado. Entre as 7h e as 10h.
— Hoje é segunda , — mamãe olhou pela janela — ainda não passou. Ainda bem.
— O elevador não tá pegando. Eu te ajudo.
— Certo — então ela amarrou as sacolas e me estendeu duas.
Descemos as escadas e passamos pela portaria. Desta vez, acredito que o Aroldo tinha escutado as palavras do meu pai e as minhas. Subimos e minha mãe disse que nunca precisaria de academia, eu ri pois era verídico, aquela escada era do mal. Quando finalmente chegamos, deparei-me com Murilo agachado acariciando as orelhas de um Yorkshire Terrier com coloração variando entre preto e dourado, Murilo vestia uma bermuda listrada, uma camiseta azul-escura e chinelos. Reparei em como os pés dele eram branquinhos, "lindos pés".
— Ér, oi Murilo.
— Oi Alice, bom dia — ele disse dando-me um beijo na bochecha.
— Esta é minha mãe.
Então minha mãe se apresentou. Murilo parecia abismado.
— É um prazer conhecê-la dona Catarina. Queira me desculpar, sério, eu fiquei surpreendido, vocês duas são muito parecidas.
— Todo mundo diz isso, é mesmo impressionante como somos parecidas — Oque era verdade, já que eu tinha herdado muitos traços de minha linda mãe.
— Tal mãe, tal filha — ela disse, orgulhosa e depois riu.
Então o cachorrinho veio até mim, elétrico, e pulava ao meu redor. Comecei a acariciar o pêlo sedoso, e meu novo amiguinho pareceu gostar de meu cafuné.
— Esse é o Koda, eu estava indo levá-lo pra passear, ele anda precisando de uma caminhada.
— Ele é lindo, muito prazer Koda.
— Ele é uma gracinha. — minha mãe começou a acariciar-lo também e Koda com certeza adorou. — O sindico permite animais ?
— Sim dona Catarina, ele até tem um Labrador. Mas são apenas animais de pequeno e médio porte.
Sorri perante a afirmação de Murilo, ontem mesmo estava pensando em conversar com meus pais sobre isso. Eu me sentia muito sozinha e um bichinho faria bem a todos nós. Eu havia tido dois cachorros, um coelho, um hamster e dezenas de peixes betas quando criança, infelizmente faleceram todos, por velhice e motivos desconhecidos.
— C-certo então, bom então é isso, eu e minha mãe vamos entrar. Bom passeio para você e o Koda.
— Obrigado, o Koda também agradece — Então ele me abraçou. Virou-se para minha mãe e apertou a mão dela. — Foi um prazer viu dona Catarina, foi muito bom ver vocês.
— O prazer foi meu Murilo, bom passeio.
Eu e mamãe entramos em casa e fomos preparar o almoço. Enquanto eu descascava os legumes, mamãe começou a me observar com um olhar travesso.
— Ele é um gatinho Alice.
— É sim.
— Ele me chama de dona.
— Uhum, me passa aquela faca. — mamãe me estendeu a faca e eu comecei a cortar os legumes.
— Por que não convida ele pra jantar aqui qualquer dia ?
— Mãe, eu e ele não somos tão amigos assim.
— Por enquanto.
— Aham senhora cupido, põe mais água no feijão.
— Poxa filha, você sabe, é o sonho de toda mãe que sua filha conheça um cara gentil, bonito e que goste dela.
— Sim mamãe, Murilo é um cara muito gentil e muito bonito, porém ele não gosta de mim. O cara dos nossos sonhos vai aparecer — eu ri.
— Sim filha, com fé em Deus, vou ver você subir ao altar com um "edoarde", aquele vampiro bonito daquele livro que você gosta.
— Tomara. Mãe, o filme lançou esse ano, vamos comprar o DVD ?
— Ah filha que legal, ta bom. Pode ir hoje.
— Ok. Depois do almoço eu vou.
— Faz um favor pra mim filha ?
— Claro mãe, o que é ?
— Eu vou montar um currículo. Preciso saber onde tem algum lugar que faz.
— QUÊÊÊ!!!???? SÉRIO ? Mãe isso é maravilhoso!! — eu não pude conter a alegria.
Eu queria ver minha mãe viver novamente, queria que ela pudesse sorrir, queria que ela pudesse se distrair. Era muito triste vê-la sempre tão abatida, seguindo sua rotina dentro de casa, sempre quieta e melancólica. Ela já não saia, não conseguia trabalhar, nem fazer nada diferente que não fosse ficar triste o tempo inteiro. Era difícil demais pra ela.
— Sim filha, eu decidi, seu irmão não gostaria de me ver assim. Eu me sinto constrangida o tempo inteiro, por ficar assim às moscas, vendo a vida passar, e o passado me assombrar.
Então eu a abracei, ela chorou baixinho, como sempre fazia, e me apertou com força. Ela era tão forte e ao mesmo tempo tão frágil. Ela era como uma guerreira de porcelana. Enfrentava tudo e todos, travava árduas batalhas, encarava qualquer exército e vencia os mais diversos monstros. Mas, mesmo qualquer guerreiro, mesmo o mais destemido, não consegue ser forte o tempo todo. Ela era assim, apesar de forte, era delicada, tão delicada a ponto de se machucar com apenas um toque grosseiro, palavras cruéis ou cenas violentas.
Sim, a guerreira de porcelana, após a morte de Miguel, sofreu muito, enfrentou a dor da ausência dele, mas se machucava ao lembrar do acidente, das vezes que foi severa demais para com ele, e da realidade que a cercava e esbofetava. Ele se foi. A culpa vinha como uma velha amiga abraçá-la. Ver a vida de um filho ser interrompida é uma experiência que ninguém merece viver.
Chorei junto a ela, como Murilo disse, éramos muito parecidas. Porém eu não havia herdado apenas traços físicos de minha mãe. Nossas almas eram quase que idênticas. Gargalhávamos, sentíamos raiva e chorávamos juntas. Eu também era uma guerreira de porcelana. E me machucava regularmente.
A delicadeza fazia parte do meu ser.
Naquele dia, terminamos o almoço em meio ás lágrimas. Almoçamos, coloquei meu bom e velho all star e eu saí em busca do DVD de Crepúsculo e alguma lan house. Em cerca de 20 minutos deparei-me com uma lan house, lá dentro havia diversos garotos, provavelmente jogando ou vendo pornografia. Na lateral do estabelecimento havia um cartaz " Montamos currículo". Passei por um camêlo de DVDS, e paguei apenas 2,00 em uma cópia de Crepúsculo. Em seguida, entrei em um açougue e comprei a Costela que meu pai tanto queria para o jantar.
Cheguei em casa e contei a notícia à minha mãe. Ela sorriu de orelha a orelha ( meu sorriso favorito no mundo) e me disse que iria no dia seguinte fazer diversas cópias e sair entregando seus currículos. Fui inventar de fazer pipoca para acompanhar o filme, que infelizmente ficou um pouco queimada. Me joguei no colo de minha mãe e então assistimos o filme. Fiquei impressionada pois não se tratava de uma qualidade ruim, eu já havia tido experiências decepcionantes com DVDS de camêlo. Não desta vez. E apesar de ter gostado da escolha do ator que interpretou Edward, eu preferi o livro.
Eu nunca pensei muito em como eu morreria, mas morrer no lugar de alguém que eu amo parece ser uma boa forma de morrer.
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